quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Uns aspectos do amor





    Uma e cinquenta e quatro (p.m.), Quarta-Feira.



   

O Beijo ("Der Kuss") - Gustav Klimt, 1908
    Um. ( da paixão )

   "- Me defina o que é o amor....
    - é... [interlocutor]
    - Não importa! A melhor definição não se compara ao beijo de moça enamorada!"

    (Machado de Assis)


    PAIXÃO:

   O tema é pra lá de surrado. Mas há sempre o que se falar sobre esse tóxico chamado paixão, que já rendeu e continua a render belíssimas literaturas. Logicamente, quase todos os mortais já tomaram pelo menos uma dose deste veneno ao longo da vida. E das duas uma: ou saíram arrebentados no final, ou saíram desacreditados.

  Não posso acreditar em sentimentos que atuam como um LSD nas veias, que cegam, que transformam o olhar para a realidade, entorpecem, que se realizam nas urgências. A paixão é bela em sua eclosão, bela como só o diabo sabe ser, esse filho da puta, quando quer seduzir. E é poderosa. Desperta hormônios com violência, vontades nunca tidas, macrodesejos e prazeres descomunais. Em seu curso, porém, vai despertando paralelamente sentimentos e sensações destrutivas, ligadas à posse, à dependência, a ansiedades e inquietudes ensandecidas, a extremos condicionantes, paralisantes. E cegam, ensurdecem, emburrecem, aniquilam qualquer vestígio de lucidez. Por paixão, um ser desestruturado é capaz de matar ou morrer. Não, obrigado. Dispenso as paixões, que hoje entendo como disfunções fisiológicas que adoecem a alma (acho que Platão já afirmou algo nesse sentido). Obviamente, nenhuma juventude está livre delas. Na juventude, as paixões chegam a ser uma imposição, uma necessidade, até para que possamos reconhecê-las e adquirir imunidade aos seus estragos, mais adiante. Na maturidade, é dar a cara pra bater.

   O estado de paixão é a antítese do amor. Amor é outra conversa. Aí há saúde, conhecimento e solidez, esperas serenas. Há entrega e desprendimento, há confiança, comunhão e paz. É sentimento que se constrói com o tempo, que não chega de impacto, não chega vestido com os mantos purpúreos e esplendorosos da paixão, com os véus alvos e leves do amor desprendido. É de uma nudez discreta. O discurso do amor fala das simplicidades, não usa hipérboles. Mas fala a verdade porque fala de amor. E o que é o amor senão o encontro de duas verdades que se complementam?


  


   Dois. ( do amor )

   "Olhai como Amor gera, num momento
   De lágrimas de honesta piedade,
   Lágrimas de imortal contentamento."

   (Camões)

  
   Mas o amor, em contrapartida, é tão foda que gera confusões até na mente dos literatos (ou quem pretende sê-lo, como esse que vos fala), não excetuando o fato de que já são eles confusos por natureza. Por vezes definimos o amor, por vezes discordamos quanto à isso, indefinindo o indefinido. Procuro e tento escrever sobre o amor levando em conta o que o resto do mundo define sobre isso que chamam "amor bruto": um homem, uma mulher (ou um homem e um homem e uma mulher e mulher) que olham para a mesma direção, como diria Saint-Exupéry. Mas como aprendi que somente a filosofia (por vezes a ciência, por vezes a religião, quando estou suficientemente bêbado, o melhor de todos os estados humanos) mostra-se capaz de explicar-nos as mais cruas abstratalidades da vida (definição incorreta do sentido abstrato, mas deixe estar), creio piamente que sentir amor por algo não seria tão diferente do que comer uma grande quantidade de chocolate aerado, daqueles que derretem na boca. No meu caso, beber num sorvo apenas iogurte de morango, daqueles recipientes de meio litro.

   Eu já senti amor por alguém: não serei eu tão frio que nunca tenha me afundado nesse lago gelado, que nunca tenha estado tão confuso e alheado quanto um espelho numa sala de espelhos. Ainda continuo amando essa pessoa que não está mais conosco, mas agora é esse amor um amor limpo, lustrado pela sinceridade, inesquecível como só as coisas boas e tardias podem ser. Porque é essa a sina do ser-humano: amar (na mais completa acepção da palavra) quando o tempo já não mais nos permite. Amar tardiamente, quando nada mais importa. Amar apenas quando não adianta mais nada. Amar tarde demais.



   Três. ( das mulheres )

   "... ainda bem que não somos suficientemente românticos,
    senão um de nós acabaria morto e o outro algemado."   
     (Julio Cortazar, Rayuela)


   É melhor você ter uma mulher engraçada do que linda, que sempre te acompanha nas festas, adora uma cerveja, gosta de futebol, prefere andar de chinelo e vestidinho, ou então calça jeans desbotado e camiseta básica (que seja, de preferência, de bandas de rock underground), faz academia quando dá, come carne e arrota, mesmo que seja discretamente, é simpática, não liga pra grana, só quer uma vida tranqüila e saudável, é desencanada e adora dar risada.

   Do que ter uma mulher perfeitinha, que não curte nada, se veste feito um manequim de vitrine (e quase com o mesmo QI), nunca toma porre e só sabe contar até quinze, que é até onde chega a sequência de bíceps e tríceps. Que rebole ao som de funk, assista novelas e não goste de zumbis (ou qualquer trabalho relacionado a).

   Legal mesmo é mulher de verdade. E daí se ela tem celulite? O senso de humor compensa. Pode ter uns quilos a mais, é claro que pode ter, mas é uma ótima companheira. Pode até ser meio mal educada quando você larga a cueca no meio da sala, ou a toalha sobre a cama, mas e daí? Porque celulite, gordurinhas e desorganização têm solução. Mas ainda não criaram um remédio pra futilidade.


  Mas aqui vai a verdadeira decepção do que é ser homem - acabo de descrever a mulher perfeita (para quem tem bom senso), mas se tivéssemos, e muitos tem, opções de escolhas entre a única perfeita acima descrita e um verdadeiro e fútil símbolo sexual, a segunda opção salta aos nossos olhos selvagens. O homem é hipócrita como poucos animais conseguem ser: afirmam aos quatro ventos que se ligam bem mais no que a mulher é por dentro, na mentalidade, maturidade e afins, mas não se aguentam com a lascívia visão de uma moça de minissaia que lhe cruza o caminho. Por essas e outras agradeço à minha falta de sorte relacionado ao amor: jamais tive opções de escolhas como a maioria dos caras que conheço, então tenho uma certa tendência á valorizar às que me valorizam, que são/foram poucas mas inesquecíveis, e como nós, os introvertidos socialmente, que somos semelhantes à imãs (que magnetizamos apenas o que se enquadra perfeitamente em nossa magnetização), agradeço por ter atraído o que considero mulheres perfeitas, cujos elementos já descrevi. As que passam despercebidas aos olhos dos amantes de bundas calípigias e seios perfeitamente convexos, as que não consideram essa minha pequena crônica como uma crítica à natureza delas.



  Quatro. ( conselhos pra quem tem sorte )

  "Amor sem sexo, é amizade/Sexo sem amor, é vontade."
   (Rita Lee)

   
   



  Pra você que ama, ou está apaixonado, aqui vai alguns conselhos, diretamente do último dos românticos:

  Ela é o amor da sua vida, e isso lhe dá o direito e o dever de viver pra ela e por ela. Exemplo: assista o clipe "Você pode ir na janela", do Gram (vídeo acima). Tenha a atitude do gato que escolheu perder todas as suas sete vidas unicamente porque a sua amada tinha apenas uma vida pra gastar. Mas não lhe desejo o mesmo destino desse gato corajoso, ao final do vídeo.

  Flores. Sim, flores. Compre flores, não só à guisa de desculpas por alguma mancada, nem por alguma comemoração. Surpreenda-a. Dê-lhe flores, nem que seja gerânios (de todas, as mais fedidas, na minha opinião). Nâo repita o mesmo erro que coroou as tristezas desse que vos fala: presentear a sua amada com flores apenas na hora final, hora tardia, com uma braçada de rosas brancas sobre a sua sepultura.

  Seja idiota, ainda que estar amando é o mais idiota dos estados idiotas. Mas seja idiota mesmo assim. Atenção, porém: isso não significa que você deva ser obrigado à falar com vozinha de bebê à cada pergunta dela. Acredite, isso não dá certo, sei por experiência própria. Escreva, acaricie, dê cócegas, chupe o dedão do pé dela, dê-lhe presentes aparentemente inúteis (cheguei à presentear ela com um Band-Aid dentro de uma caixinha chique de veludo violeta e um laço elegante, por ela ter caído e ralado toda a cara, dois dias antes), ria de suas piadas sem-graças, enfim. Você está amando, e isso é ser idiota. A idiotice é vital para a felicidade, que é vital pro amor. A vida já é um caos, por que faríamos dela, ainda por cima, um tratado? Deixe a seriedade para as horas em que ela é inevitável e útil: separações, dores e morte. Não necessariamente nessa ordem.

  Discrição - siga o mantra do Quintana: Se tu me amas/ama-me baixinho/não o grites de cima dos telhados/deixa em paz os passarinhos... Nada de avisar aos quatro ventos (sempre eles) sobre as circunvoluções de suas intimidades, sempre vejo isso no Facebook, por exemplo. O teu amor não dependerá de quantos "likes" você poderá receber por uma postagem do tipo: "hoje vou visitar o meu amor, não vejo a hora de encontrá-lo(a), adorrooooooooo..." Ninguém gosta de ler isso (ainda mais os solteiros convictos), e se porventura essa pessoa vier á receber dezenas de Likes, creia-me: a amizade insincera é uma puta carente, e ela é ávida por te agradar.

  Seja compreensível, mas inflexível. Não diga o que ela QUER ouvir - diga o que ela PRECISE ouvir. Mesmo que isso o deixe com uma momentânea máscara de vilão. Mas é preciso que se filtre tais situações: você não deve fazer algo que você tenha a certeza que ela se agradará, mas que vocês se agradarão entre si. O amor vive pelo conjunto e através do conjunto, entre duas pessoas - o contrário seria o amor pré-adolescente, entre você e a mão direita. Vivam juntos e sejam cúmplices. Orientem-se, protejam e respeitem. Quando um não quer, dois não brigam, três não opinam e quatro fofocam.

  E, por ultimo, os detalhes fazem a diferença. Por experiência mínima, mas própria, elas se ligam nisso. Sejam detalhistas. Reparem no cheiro dela, mesmo que não seja necessário dizê-lo, mesmo que seja apenas xampu à base de ovo ou creme rinse, daqueles cor-de-rosa, com um cheiro enjoativo. Elogiem-nas, mesmo sem nenhum motivo aparente, e se elas pedirem um elogio, elogiem até o jeito sutil e meigo com que elas pedem um elogio. Percebam o brilho dos olhos que nelas sempre acompanham um sorriso, o modo de nos beijarem quando dizemos que as amamos, admitam a tortura da saudade que delas sentimos. Considere a portabilidade de seus corpos sobre nossos peitos e ombros, e o fato de que estão sempre morninhas, sempre tépidas. Adore cada imperfeição de seus corpos, mesmo a mínima verruguinha de nascença num ponto que só você conhece, e se sinta privilegiado por isso. Mais importante: ame pelo que ela é, não pelo que ela se mostra exteriormente, ainda que isso seja impossível. E desejo que ela tenha as maiores qualidades que você já tenha, algum dia, desejado em alguém, porque sinceramente, ninguém ama a outra pessoa pelas qualidades que ela já tem; se assim fosse, os crentes, honestos, trabalhadores e não-fumantes teriam uma fila das melhores pretendentes à sua porta. Ah, ainda é tempo de sugerir: lave mais a louça, e não deixe o resto da tua barba recém-escanhoada na beira da pia. Isso é deselegante pra qualquer um. E, se possível, lave tuas próprias cuecas.

   Um bom amor pra todos.  

        


    


     

4 comentários:

Unknown disse...

Fodão. \o/

Patrícia Rosa Fiaes disse...

Se metade dos homens tivessem o poder, tão simples, de ler entender e aplicar... este seria dos melhores "auto-ajuda" discreto.

Unknown disse...

Sabias palavras caro amigo...
So faltou om detalhe, mas esse nao convem.
Muito bom.

AntySalles disse...

Peraê... Que detalhe, muleque?

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