Havia vidas ao meu redor, e sem ser percebido eu transitava por elas, as redescobria e avaliava, naquele marasmo de ônibus e calor e chuva que outra coisa poderia eu fazer? Aquele senhor engravatado, por exemplo: em pé, seguro por uma das barras de ferro de segurança do ônibus, uma pasta de couro pardo numa das mãos, paletó puído e acinzentado de horrível corte, a gravata dourada-escura discretamente desamarrada no pescoço, um par de angustiosas olheiras sob os olhos levemente caídos: o que pensaria ele? Em trâmites legais, em processos trabalhistas, nas coxas da jovem secretária, no seu desempenho, duvidoso, na entrevista de emprego de agora há pouco? O homem espadaúdo sentado logo abaixo dele, trajado ainda por um uniforme de serviço terceirizado, umas canetas no bolso da camisa suja, as botas de serviço maculadas de lama, umas gotas de suor que escorria-lhe das fontes morenas: em que estaria pensando? No dia de folga que se aproximava, nas peças de escurecida carne de segunda que deveria comprar no açougue de bairro, nas dificuldades de se criar filhos pequenos no subúrbio paulista, na amante de bordel que deveria visitá-la em algumas horas? A mulher do vestido longo, de um vermelho esmaecido, sentada logo atrás do trabalhador sujo, seios petulantemente caídos e aninhados quase contra a vontade no decote grande, um colar de imitação de pérolas que lhe pendia do pescoço magro, os lábios protegidos por espessa camada de batom castanho: no que deveria estar pensando? No pênis pulsante do enteado adolescente, no revelador registro no motel de péssima qualidade, nas fantasias não realizadas com o marido idoso, na menopausa que já se revelava íntima? A senhora de cabelos esgrouvinhados, ao lado da senhora de vestido vermelho esmaecido, algo de carvão fresco no tom de pele, rugas úmidas que singravam-lhe a pele repuxada ao redor dos olhos amarelados, abanava-se com uma folha de papel, mais calorenta que um besouro negro sob o sol escaldante: em que pensaria ela? Na osteoporose que não a largava, no despacho de candomblé que seria obrigada á fazer hoje á noite, no marido bêbado que precisaria ser uma vez mais carregado do botequim pra casa, no apartamento pequeno e chique da madame que teria que limpar amanhã cedo, lá na casa do caralho?
Era uma espécie de mínimo passatempo que, para mim, um pouco sem saber, tomava as dimensões de um secreto ritual. Uma feira de tristes estereótipos.
E o que pensaria a garota, esta garota, exatamente ao meu lado, com o seu cabelo solto e o cheiro de lavanda, e os seus lábios umedecidos, e os seus olhos quase fechados, e as longas pestanas, ela que permitia perder-se em pensamentos, por sobre o balanço do ônibus, por sobre a minha secreta e dissimulada admiração, o meu tesão suscitado pelos seus mistérios e a reserva de sua presença? Um presságio galopou minha mente entorpecida á simples visão dos seios rijos que balouçavam muito perto, e a visão do banheiro ainda longe (o banheiro do pessoal da administração, de preferência o feminino, mais cheiroso e organizado) brotou-me no espirito de maneira confidente. O programa noturno estava já pré-programado, e eu não estava feliz.
O ônibus sacolejava, e ainda que chuviscasse lá fora, o calor oprimia, acentuava-se pelo obsedante atrito dos muitos corpos espremidos e pelas janelas inconvenientemente cerradas, e mesmo estando elas muito próximas de mim, através delas eu insistia em não olhar, não ainda - meus olhos, geralmente distraídos, geralmente postos no chão, rolavam de quando em vez para dentro do decote generoso e úmido da menina no banco ao lado, que se permitia entrever um bom pedaço da carne tenra e láctea aninhada justamente no tecido de renda negra do sutiã. A moça talvez não passasse dos seus vinte anos, sendo mais provável que se situasse em algum lugar dos turbulentos dezoito ou dezenove, certamente universitária, denunciada pelo saiote de tecido leve pregueado que descansava sobre suas coxas roliças, e dois ou três livros densos, de páginas encardidas, sobre seu macio colo. Eu lograva com facilidade registrar cada pedaço daquele campo secreto que tentava perfurar, pois mais tarde solitariamente resgatá-lo-ia, e por meia dúzia de vezes procurei, rabo de olho, fixar por um pedaço de segundo o semblante da moçoila peitudinha - seria interessante se, juntamente com o resgate dos seios prováveis, de lambuja viessem eles carregados com a face sorridente de sua dona anônima. Ela olhava para frente, uns olhos semicerrados, uns cílios curvos e negros, uma longa madeixa escura pousada delicadamente sobre sua face esquerda, deixando-se levar pelas sacudidas do ônibus em alta velocidade, espremida talvez entre alguma reminiscência perdida, ou simplesmente tentando capturar, no arquivamento vasto de sua sapiência estudantil, alguma questão penal ou clínica que provável se lhe afiguraria na prova de hoje. Sem sucesso, tento divisar algum anel ou aliança que possa enfeitar o frágil anelar da menina, o que denunciaria a existência de um felizardo cujos seios o pertencessem, mas as mãos - finas, frágeis, revestidas de filigranas de porcelana - estavam metidas embaixo dos livros. E num ultimo sorver de coragem e determinação, imaginei os seios, aqueles seios, despidos e prontos para mim, livres de toda mácula e tecido, e desamor, à balouçarem no ritmo de uma paixão tresloucada e imensa, sobre minha cama de beliche e meu lençol monocromático de algodão, do Corinthians Futebol Clube. Mas como se fosse uma leve confirmação da leitura dos meus recentes pensamentos, a menina revelara, por uns breves segundos, uma mão esquerda pequena e branca, levando-a pela face e aninhando a mecha lânguida atrás da pequena orelha - como se enxergasse à olho nu o sol a pino, à mim fora difícil fixar o olhar através do brilho incipiente e intenso da aliança de prata que envolvia o longo anelar da moçoila.
Uma esperança, ainda que remota, ruíra por terra. Mas teria eu a coragem de dirigir-lhe a palavra sabendo-a desimpedida de qualquer compromisso, livre de qualquer contrato que, mesmo ainda não sacramentado, já se mostrava selado e talvez fiel? Seria pouco provável que as coisas assim se constituíssem, a timidez era um miasma absoluto, era um corvo sorumbático que permanecia empoleirado sobre meus ombros, e que rasgava minha pele com as garras aguçadas, seguindo-me á todos os cantos, por todos os momentos que ainda me restavam de vida. Oh Deus, ela era linda, e a confirmação da existência do bem-querer que por ela em mim crescera como um ramo novo de peônias fora unicamente o quase doloroso estremecimento que eu experimentara ao mínimo e leve contato do meu braço no braço dela, quando de um sacolejo mais intenso do coletivo, que atravessava célere uma via malcuidada. Houvera um imperceptível impulso elétrico nesse suave roçar, eu juraria sobre isto, sendo talvez o meu desejo solitário, unilateral e excipiente, glorioso e maldito, impulsionado pela vaga cócega da mínima pelugem dourada que se espraiava pelos braços da garota. Tudo poderia ser, a vida era feita desses intensos detalhes, o paraíso deveria ser habitado por anjos iguais à esse, eu pensara antes de realmente pensar, enquanto observava, ainda com o rabo de olho, a garota aninhar novamente a mão revelada sob o esconderijo dos livros acadêmicos.
A esperança, se é que ela existiu, estava aniquilada, sim, mas nada me impedia de continuar avaliando a inviolabilidade daquele corpo fresco e jovem, e homenageá-la depois no silêncio conturbado do banheiro da empresa, onde eu trabalhava por toda a noite, um auxiliar de limpeza, um grão de poeira entre o medonho mecanismo da sociedade. Era essa a sina dos virgens, era essa a minha cruz de madeira, o cardo que me perfura por cada minuto dessa minha vidinha idiota. Presunção minha refletir sobre esperanças e anseios, eu próprio me tomava como um desconhecido de mim mesmo, amnésico adolescente recém-curado que ainda não obteve o conhecimento da minha própria natureza, decepcionando-me aos poucos na gradativa crueldade que seria finalmente conhecer-me por inteiro: o limiar, há muito transposto, da vida adulta, o baluarte sólido da família, a incapacidade de se permitir, de amar e ser amado, de ter conhecido mulher. Minha vontade era retornar ás fantasias absurdas de quando se é criança, onde éramos nada menos que os oleiros de um mundo sempre em transformação, moldando com nossas mãos pequenas e macias e breves o barro primordial, a prima substância dos nossos recentes universos, de acordo e com a permissão do nosso prazer nem sempre tão cordato. Lembro-me que, ainda enovelado pelas graças de ansiar pelo fantástico, ainda antes de conhecer-me por inteiro, antes das pernas roçadas sob as carteiras escolares tão logo divisava os joelhos nus das colegas de classe, antes mesmo da oculta coleção de garimpadas páginas pornográficas de diversas revistas, amarrotadas e anteriormente coladas por algum ávido e anônimo leitor, ainda antes de tudo isso, eu dormia aquecido pela ânsia do "Controle Universal" e nas alegrias que este seria capaz de me dar. Embalado por um infância extremamente influenciável (e que criança não seria assim?), imaginava o mundo quieto, em perpétuo mutismo, ainda preenchido de pessoas, mas todas estas estariam imóveis, inertes, enclausuradas em seus próprios corpos e destinos, estátuas vivas de almas mortas, e eu seria o Harold Lloyd de dez anos de idade, bonito e sorridente, a vagar pelos monumentos orgânicos, escalar todas as pessoas que eu quisesse, invadir todos os supermercados e sorveterias, empanturrar-me de guloseimas até não mais poder, aproveitando que eu ainda não entendia, ou não me ocorria, sobre o sistema imperfeito dos alimentos perecíveis, sobre as chaturas das datas de validade. Com a fertilidade da mente baseada num filme B qualquer, cujo momento de exibição, nos dias da minha criancice, há muito fugira das minhas reminiscências, mas não o âmago da sua história (o protagonista, detentor de um controle remoto universal que parava o tempo e as pessoas, transformando-as em eternas estátuas, tépidas e pulsantes), eu adormecia sob a canção de ninar dessa tresloucada fantasia, com um sorriso no rosto - seria tão bom! Sim, seria muito bom ter o sonhado Controle Universal aqui comigo, na estafa desse ônibus, impotente testemunha do desejo, e não mais imaginaria comer até explodir aproveitando o fortuito poder do aparato Kafkiano e a incapacidade do tempo de escoar a sua interminável ladainha; a moça sem nome permaneceria extática, indefesa, a capacidade de mover um único músculo não passando apenas de um sonho bom. Meu Deus, o que eu faria com ela? Teria mesmo coragem de percorrer aquele corpo incolor e tenro com as pontas dos meus dedos intrometidos e frios, com esses amarelados olhos de verruma, com essa respiração forte que, eu imaginava, evoluiria até intermitentes bafejos que caracterizavam os meus ataques de asma, tão logo me vejo diante de qualquer forte emoção? Sentindo, dentro da caixa dos peitos, a sombra sutil do mesmo bafejo da mesma merda de asma, como se eu tivesse dentro de mim essa gaiola de andorinhas em revolução, ainda a avalio com a ponta do olhar vazio, esse detrás das lâminas cristalizadas dos meus óculos, e comendo-a com os olhos, olhos pequenos de porco na engorda, logo me ocorre o peso de aço que se abatera por sobre minha cabeça: não havia em mim o mínimo resquício de amor. Umedeço os lábios, me corrói um súbito desejo de abanar-me, de extinguir momentaneamente o calor medonho, mas eu sentia como que as juntas travadas apenas por estar ao lado dela - e, no entanto, não era amor. Ao menos, não esse amor lírico de Romeo and Juliet, não o amor marginal d'A Comédia da Vida Privada, não o amor subversivo d'A Crônica da Casa Assassinada, não o amor quieto de Mário Quintana, não o amor ridículo de Fernando Pessoa, não o amor colorido e regional de Jorge Amado e seus agrestes, nem o surreal de García Marquez e Córtazar, não o sólido e seco amor de João Cabral, nem o mítico amor de Neruda, muito menos o sujo e esfarrapado amor dos mendigos do centro, o desapegado e necessitado amor das prostitutas, o desapegado e necessitado amor de Deus, o desapegado e necessitado amor da minha mãe - era o meu amor, intenso e de momento, e promíscuo e pervertido, que se limitava á mim mesmo, aos jorros de esperma, aos espaços vagos da minha mente em vertiginosa algazarra, uma gozada, já era, acabou-se, uma desgraça, uma descarga, lenços de papel, torneira aberta, banho tomado. Mais uma imaginada mulher, um imaginado mundo no limbo da minha memória. Em mim, a impregnada virgindade.
Eu não a amava, e através desse pragmático inverso, eu a amava. E isso não era fácil, durante os lentos e penosos vinte e cinco minutos que ela durara em minha vida. Um velho se aproximava, emurchecido e escuro, sofrendo pelos compactados passageiros.
- Senhor, por favor, pode sentar aqui - disse ela, esgrimindo uma voz doce e aguda, coroada por um sincero sorriso onde foi possível divisar seus dentes alvos enfeitados pelo aparelho ortodôntico; produzidas pela larga expressão de gentileza, um par de covinhas apareceram como que por encanto sobre suas faces de anjo caído.
- Não, não precisa, mocinha. Estou bem, muito obrigado, viu? - aquiesceu o velhote, mostrando, também ele, sua dentadura de placas iguais, novinha em folha.
- Por favor, eu insisto. Pode se sentar, minha parada é a próxima, já vou descer.
- Então tudo bem. Deus a abençoe, mocinha.
A moça, então, recolheu os livros, afastou uma vez mais o cabelo teimoso, sorriu novamente e preparou-se para ceder o assento ao velho. À mim, já totalmente esquecido e despojado da dignidade e do dissimulado desejo, ao menos por ora, ela se permitira a apenas uma oferenda: a luz de seus olhos dolentes, quando ao levantar-se ela me fitara exatamente pelo tempo de uma inspiração, ainda assim tempo necessário para que eu, agora e de uma vez por todas aquela teimosa e indefesa e sonhadora criança, dono único do "Controle Universal", finalmente me convencesse que, ao contrário do que eu sempre pensara (ou a vida assim me fizera pensar), havia, sim, as poéticas e causídicas sutilezas do mundo, havia a certeza de que a vida era realmente bela, insubstituível e suprema, ainda que não existisse o amor á primeira vista, tão indispensável no presente contexto. Ela possuía olhos grandes e aveludados, da cor do mel silvestre, ainda mais silvestre e meloso por detrás das longas pestanas, trabalhadas esmeradamente pelo lápis e pelo provável amor que possuía ela por seu homem. Sim, é claro, o contato perdurara por um relampejante momento, tão breve quanto o toque do fogo, mas divisando aquela luz vaga e cegante, aquele cintilante toque humano, finalmente convenço-me: ela amava. Havia alguém, haveria alguém, e ela amava, e amaria depois; aceitando uma vez mais as discrepâncias dessa vida assaz injusta, a mesma antimatéria que dava á uns o que não tinha outros - mas desejariam tê-los -, surpreendo-me por não ficar triste pela confirmação de que aquele inestimável coração já teria um dono, que o merecesse ou não, não me importava - ainda assim, era o dono. Não, agora eu não estava mais triste. Estava ali uma pessoa que talvez valesse cada sacrifício, cada chibatada, cada penúria se, através destas coisas, fosse-me concedido um fiapo de esperança que pudesse garantir seu coração, cujo regalo eu não seria merecedor e que a outro já pertencia. Não, eu não mais estava triste; com um inusitado e repentino altruísmo, estava feliz pela pessoa que cuidava dessa mulher, que a beijava, que aninhava aquelas mãozinhas nas suas, que afastava-lhe as melenas rebeldes atrás daquela orelhinha linda. Eu tinha que estar feliz pelo cara, que de outra forma o noivo seria mais respeitado do que pelo fato de ter conquistado aquela mulher sem nome? O amante anônimo da mulher, ainda mais mulher sob essa nesga de sol que incidia diretamente sobre seus acastanhados olhos, por algum motivo ou chances ou poderes que não caberiam à mim questionar no momento, conquistara-a ao ponto de com ela noviciar-se, ganhando o seu amor ao ponto dela aceitar com ele passar os dias de sua vida, sob planos e objetivos em conjunto, dois corações num só, conforme diz aquela pegajosa musica sertaneja. Por essa façanha, ele teria a minha eterna admiração.
Ela levantou-se - não era alta, mas era imponente, respeitável como um busto de mármore, uma mítica figura de obsidiana - e o velho tomara solidamente o assento, desfazendo-se em agradecimentos; o leve e adocicado perfume de lavanda que se evolava da moça fora tristemente substituído pelo ranço de suor que se desprendia do idoso. No corredor do ônibus, convenientemente lotado á essa hora da tarde, ela se espremera com determinação, logrando alcançar as proximidades da porta de saída. Ainda assim a segui com o olhar, nada mais ganhando dela além da bunda arrebitada pelo leve tecido da saia - as bundas das adolescentes. E com indizível nostalgia acompanho, agora além da janela do coletivo, a moça parada na calçada do ponto de ônibus, procurando, com gestos atabalhoados, abrir o pequeno guarda-chuva vermelho, uma salvação em meio ao chuvisco infernal que á tudo enfarruscava no lado de fora. Finalmente, após a coleta de alguns passageiros, o ônibus arrancara, recomeçando o sacolejo; e ela ficara para trás.
E eu ainda mantinha um sorriso no rosto depois do referido encontro, principalmente por saber que eu nada faria para refrear as minhas ideias tão contraditórias e meus pensamentos tão lascivos, sabendo que eu a amava mesmo não a amando, nem a ela e nem a ninguém, envergonhado pelo disparate de ter concebido alguma sombra de esperança e já imaginando a punheta futura, onde eu manejaria aqueles seios, aproximando-os um contra o outro, e beijaria intensamente a boca carnuda, saciando-me da sua saliva. O pau retorna ao seu repouso, aquietam-se as andorinhas do meu peito e nada faço para impedir a desvanecência súbita do meu sorriso - encosto a cabeça no vidro da janela, recoloco os fones de ouvido e não ouço a música, agora um simples rastro na minha consciência a origem de todo esse caos, debaixo do seu guarda-chuva vermelho. Sentindo-se resgatado por esse velho, envolto em seu antigo e anacrônico odor de suor, sustentando sobre os joelhos, numa granítica dignidade, uma bíblia densa e antiga, não mais me importo com a minha incapacidade de manter-me humildemente humano, de não saber amar o próximo, e creio que Cristo reescreveria esses ensinamentos tendo por base a minha natureza peculiar, se fosse dele esses dias frios. Há em mim apenas aquela sombra do sentimento que me transbordara nos meus tempos felizes de menino mimado, nas descobertas recentes do amor, e mesmo uma criatura frígida, mesmo escolhendo não mais influir em nada, mesmo incapaz de amar, não me custava aquele vácuo dorido, aquele oco autossuficiente, aquela mágoa passiva. Era um mecanismo de defesa, puramente instintivo - rebater essa hostil indiferença do mundo, a única forma encontrada de manter-me confortado nessa exclusão. Agora observo o mundo como o idiota que examina sua própria coleção de borboletas coloridas, trespassadas cuidadosamente por alfinetes, embebidas em alguma espécie de conservante ou o diabo que eles usam para manter intactos esses sutilíssimos cadáveres alados: apenas uma curiosidade velada, pouco me dando na telha se aquilo teria alguma importância na minha vida, magnetizado apenas com as frágeis, belas cores, atraído principalmente pelas espécies mais raras, as mais preciosas, as mais magníficas, como a moça sem nome. Em suma, mais um passatempo, e não há amor em um passatempo. Seria mais uma mania - eu, com a minha mania de viver e não amar. Eu, com todas as minhas mágoas e nostalgias, era uma simples mania aquela minha vida, a minha vida diante das vidas dos outros. Mas a moça... dela eu não esqueceria depressa.
Sob o guarda-chuva vermelho, em direção á provável faculdade, um marmóreo busto, as pestanas longas e os cílios negros, os seios á balouçarem ao sabor dos seus cadenciados passos, a aliança bem segura ao redor do dedo, talvez agora aninhando, uma vez mais, o pedaço de cabelo atrás da orelha: em quem estaria ela pensando?
* * *
Abriu o guarda-chuva vermelho, apertou os livros de encontro ao peito e aguardou o sinal fechar. No arranque do ônibus, ainda pôde visualizar o menino, sua silhueta agora improvável pelo movimento do coletivo, à olhar-lhe com atenção. Por uma ou duas vezes, no mínimo, ela acharia que ele iria lhe dirigir a palavra, perguntar as horas, onde estudava, etc., mas fora impressões bobas da parte dela. Pudera avaliar-lhe durante o curto trajeto do ônibus até a sua parada, e confirmou não ser de todo ruim o fato que certamente se daria se ele nela se achegasse. Mas isso não aconteceu. E até que era bonitinho, concluiu.
Daniela é uma daquelas moças que se apegam mesmo à uma lembrança, uma imagem, uma reminiscência qualquer. Suspirou pesadamente e pôs-se a atravessar a avenida sobre a faixa de pedestres. Gostou do moço, e achou não ser justo colocá-lo na lista das pessoas cujas afinidades foram momentâneas.
Sentiu que não o esqueceria depressa.