Preciso discordar do Leminski naquele Nenhuma dor pelo dano/todo dano é bendito/Do ano mais maligno/Nasce o dia mais bonito.
Tive um ano do cão. Só a gente sabe dos danos que essa vida nos causa. E eu, olha, eu fiquei totalmente danificado. Algumas pessoas deixam um rastro tão maravilhoso na vida de outras que não consigo ver suas repentinas ausências de outra forma senão essa: um dano. Um rasgo. Um aleijão. E não, não passa. Nada passa. Tudo que nos acontece fica marcado de uma forma ou de outra em algum lugar. A gente pode até achar que passa, pode achar isso nos momentos bons, mas aquilo (leia-se saudade), fica lá, entranhado em você. Trauma pode se manifestar em forma de raiva, de desprezo consigo mesmo, pode virar uma repetição de padrão destrutiva, pode te deixar pra sempre com medo, pode te fazer ficar por demais destemido. O que consigo ver que aconteceu comigo é o seguinte: eu sequei. Me sinto todo esfarelado. Danificado. Rachado como um terreno arenoso onde é necessário um instinto filho da puta pra poder sobreviver. Até nasce uma coisinha ou outra ali, mas qualquer coisa mais delicada murcha e morre rapidinho. É assim que eu ando me sentindo. Calcificado por dentro.
Há algo que escrevi outro dia, um simples organograma (escrito de maneira apressada num bloquinho de rascunhos amarelos da empresa), que traduz muito o que sinto agora.
Tive um ano do cão. Só a gente sabe dos danos que essa vida nos causa. E eu, olha, eu fiquei totalmente danificado. Algumas pessoas deixam um rastro tão maravilhoso na vida de outras que não consigo ver suas repentinas ausências de outra forma senão essa: um dano. Um rasgo. Um aleijão. E não, não passa. Nada passa. Tudo que nos acontece fica marcado de uma forma ou de outra em algum lugar. A gente pode até achar que passa, pode achar isso nos momentos bons, mas aquilo (leia-se saudade), fica lá, entranhado em você. Trauma pode se manifestar em forma de raiva, de desprezo consigo mesmo, pode virar uma repetição de padrão destrutiva, pode te deixar pra sempre com medo, pode te fazer ficar por demais destemido. O que consigo ver que aconteceu comigo é o seguinte: eu sequei. Me sinto todo esfarelado. Danificado. Rachado como um terreno arenoso onde é necessário um instinto filho da puta pra poder sobreviver. Até nasce uma coisinha ou outra ali, mas qualquer coisa mais delicada murcha e morre rapidinho. É assim que eu ando me sentindo. Calcificado por dentro.
Há algo que escrevi outro dia, um simples organograma (escrito de maneira apressada num bloquinho de rascunhos amarelos da empresa), que traduz muito o que sinto agora.
A PERDA, E SUAS FASES.
Fase 1 - Negação: Nada disso está acontecendo. É um sonho.
Fase 2 - Raiva: Como teve o mundo CORAGEM de fazer isso comigo? FILHO DA PUTA!
Fase 3 - Depressão: Sim, aconteceu. E rasga por dentro.
Fase 4 - Ressurreição: Rasga mais cura. O negócio é um cicatrizante (resgate da própria vida)
Fase 5 - Ressurgimento e vida: (dispensa comentários)
*Eu queria não ser assim, tão dramático, não ser tão intenso, não ser tão. Maldito ascendente escorpião.
**(Minhas escusas, mas preciso culpar algo pra me sentir menos culpado).
***A desconfiança que me segue quando percebo que estou, nesse exato momento, entre a Fase 1 e a 3.
Existe a perda, e existe a culpa. E agora invejo à todos os outros que não carregam dentro de si essas duas irmãs, como eu carrego.
Agora, a culpa.
Eu não sabia o que era a culpa, esse prisma escuro que muda nossa cabeça com o passar das épocas. Por essas e outras gostaria de voltar à ser criança, de voltar à me sentir culpado apenas porque não correspondi as expectativas dos meus pais nas evoluções escolares, ou quando derrubei o jarro de cerâmica da sala, que espatifara ao chão em mil pedaços.
Agora choro, como as crianças, se bem que não de maneira tão inocente, ainda que sincera, como elas. É a minha culpa que faz com que eu enfrente e me conforte com a dor dos punhos cerrados, quando, em meio às lágrimas surdas, começo à socar as paredes. Auto-flagelação, foi o que disse a minha terapeuta de olhos doces. A culpa é minha, a decisão de socar as paredes é minha, e se me sinto bem com isto, o que vale a opinião alheia? Admito que não saberia responder se me dissessem por quem eu sinto tanta culpa. Nada poderia eu fazer quanto ao destino irremediável que se abatera sobre mim, seria a resposta mais plausível. Mas seria apenas essa a resposta que eu deveria lançar ao mundo? Odeio muito o fato de que, se a mim fosse dado o luxo de retornar ao passado, eu retornaria apenas para fazer tudo de novo, e quase da mesma maneira: amar do mesmo jeito que a amei, beijar do mesmo jeito que a beijei, brigar do mesmo jeito que costumávamos brigar, pelo mais tolos dos motivos. O diferente, apenas, seria: haveria mais carinhos, menos impaciência e mais atitude - foi a falta desta que a condenara, e que foste castigada pelas minhas mãos, que você sempre imaginara amorosas para contigo. Você estava sem forças, e eu deveria ter lutado no seu lugar, para salvaguardar-lhe a vida. Era o minimo que eu deveria ter feito. Reside aí a minha culpa.
Esses textos horríveis se tornaram a forma mais benévola de expiação. Para mim, é uma distração necessária. Mas não posso, infelizmente, afundar-me ainda mais no mar dessas escritas, pois ainda vivo e vivo, ainda que de modo automático, como um boneco cheio de estopa e serragem. E é quando estou longe dessas distrações que ela vem e se achega, a culpa, como um pássaro enorme, fedorento, de olhos vermelhos, garras afiadas. Choro baixo, relembrando sorrisos e trejeitos, vozes infantis e banhos tomados em conjunto, o hábito de dormir até tarde num dia de domingo, o vídeo-game jogados em conjunto, cada música, cada pedaço de goiaba mordida, doida que era por goiabas. A culpa vem e me cobre de maneira rude, como se eu fosse uma puta. Dou um ou dois socos na parede, penso em remédios e giletes, e adormeço com umas primeiras linhas de um possível texto melancólico já fresco na mente.
A questão é: sinto que não sei mais sentir, não sei mais me deixar sentir, não sei mais me entregar. O foda é que fingir é comigo mesmo, finjo pra agradar, pra satisfazer e eu que me fodo. Nunca pensei que passaria por isso. A única vantagem é que não quebro mais a cara porque procurarei não mais cair, e se cair, não tem sangue pra jorrar, não tem coração pra bater, não tem porra nenhuma já há alguns meses. Eu até tentei mentir que tinha e só consegui sentir ódio. Ódio de mim, ódio do que está acontecendo comigo, ódio desse presente de grego que me deram e uma frustração inenarrável. Acho que agora posso dizer que esse sou eu. Eu era um pedaço de uma coisa feliz, um fragmento pequeno e incompleto de um cara satisfeito com a vida que pensei, realmente pensei, que vingaria e que iria perdurar por um bom lapso de tempo. Bom, eu tentei, mas mal sabia eu que alguma coisa conspirava quanto à isso. E agora, que tudo já passou (ou não passou, sei lá), eu sinto muito, mas eu não sinto mais nada. Apenas a saudade que ela deixou.
Por ora, me levanto, me refaço e me desfaço por todos os dias que me sobrarem de vida.
Por ora, me levanto, me refaço e me desfaço por todos os dias que me sobrarem de vida.


