terça-feira, 11 de junho de 2013

Perda e Culpa






    Preciso discordar do Leminski naquele Nenhuma dor pelo dano/todo dano é bendito/Do ano mais maligno/Nasce o dia mais bonito.    
    Tive um ano do cão. Só a gente sabe dos danos que essa vida nos causa. E eu, olha, eu fiquei totalmente danificado. Algumas pessoas deixam um rastro tão maravilhoso na vida de outras que não consigo ver suas repentinas ausências de outra forma senão essa: um dano. Um rasgo. Um aleijão. E não, não passa. Nada passa. Tudo que nos acontece fica marcado de uma forma ou de outra em algum lugar. A gente pode até achar que passa, pode achar isso nos momentos bons, mas aquilo (leia-se saudade), fica lá, entranhado em você. Trauma pode se manifestar em forma de raiva, de desprezo consigo mesmo, pode virar uma repetição de padrão destrutiva, pode te deixar pra sempre com medo, pode te fazer ficar por demais destemido. O que consigo ver que aconteceu comigo é o seguinte: eu sequei. Me sinto todo esfarelado. Danificado. Rachado como um terreno arenoso onde é necessário um instinto filho da puta pra poder sobreviver. Até nasce uma coisinha ou outra ali, mas qualquer coisa mais delicada murcha e morre rapidinho. É assim que eu ando me sentindo. Calcificado por dentro.    
    Há algo que escrevi outro dia, um simples organograma (escrito de maneira apressada num bloquinho de rascunhos amarelos da empresa), que traduz muito o que sinto agora.

    

    A PERDA, E SUAS FASES.

Fase 1 - Negação: Nada disso está acontecendo. É um sonho.
Fase 2 - Raiva: Como teve o mundo CORAGEM de fazer isso comigo? FILHO DA PUTA!
Fase 3 - Depressão: Sim, aconteceu. E rasga por dentro.
Fase 4 - Ressurreição: Rasga mais cura. O negócio é um cicatrizante (resgate da própria vida)
Fase 5 - Ressurgimento e vida: (dispensa comentários)

*Eu queria não ser assim, tão dramático, não ser tão intenso, não ser tão. Maldito ascendente escorpião.
**(Minhas escusas, mas preciso culpar algo pra me sentir menos culpado).
***A desconfiança que me segue quando percebo que estou, nesse exato momento, entre a Fase 1 e a 3.

    
    

    Existe a perda, e existe a culpa. E agora invejo à todos os outros que não carregam dentro de si essas duas irmãs, como eu carrego.
    
    Agora, a culpa.
    
   Eu não sabia o que era a culpa, esse prisma escuro que muda nossa cabeça com o passar das épocas. Por essas e outras gostaria de voltar à ser criança, de voltar à me sentir culpado apenas porque não correspondi as expectativas dos meus pais nas evoluções escolares, ou quando derrubei o jarro de cerâmica da sala, que espatifara ao chão em mil pedaços. 

    Agora choro, como as crianças, se bem que não de maneira tão inocente, ainda que sincera, como elas. É a minha culpa que faz com que eu enfrente e me conforte com a dor dos punhos cerrados, quando, em meio às lágrimas surdas, começo à socar as paredes. Auto-flagelação, foi o que disse a minha terapeuta de olhos doces. A culpa é minha, a decisão de socar as paredes é minha, e se me sinto bem com isto, o que vale a opinião alheia? Admito que não saberia responder se me dissessem por quem eu sinto tanta culpa. Nada poderia eu fazer quanto ao destino irremediável que se abatera sobre mim, seria a resposta mais plausível. Mas seria apenas essa a resposta que eu deveria lançar ao mundo? Odeio muito o fato de que, se a mim fosse dado o luxo de retornar ao passado, eu retornaria apenas para fazer tudo de novo, e quase da mesma maneira: amar do mesmo jeito que a amei, beijar do mesmo jeito que a beijei, brigar do mesmo jeito que costumávamos brigar, pelo mais tolos dos motivos. O diferente, apenas, seria: haveria mais carinhos, menos impaciência e mais atitude - foi a falta desta que a condenara, e que foste castigada pelas minhas mãos, que você sempre imaginara amorosas para contigo. Você estava sem forças, e eu deveria ter lutado no seu lugar, para salvaguardar-lhe a vida. Era o minimo que eu deveria ter feito. Reside aí a minha culpa.

    Esses textos horríveis se tornaram a forma mais benévola de expiação. Para mim, é uma distração necessária. Mas não posso, infelizmente, afundar-me ainda mais no mar dessas escritas, pois ainda vivo e vivo, ainda que de modo automático, como um boneco cheio de estopa e serragem. E é quando estou longe dessas distrações que ela vem e se achega, a culpa, como um pássaro enorme, fedorento, de olhos vermelhos, garras afiadas. Choro baixo, relembrando sorrisos e trejeitos, vozes infantis e banhos tomados em conjunto, o hábito de dormir até tarde num dia de domingo, o vídeo-game jogados em conjunto, cada música, cada pedaço de goiaba mordida, doida que era por goiabas. A culpa vem e me cobre de maneira rude, como se eu fosse uma puta. Dou um ou dois socos na parede, penso em remédios e giletes, e adormeço com umas primeiras linhas de um possível texto melancólico já fresco na mente.

    A questão é: sinto que não sei mais sentir, não sei mais me deixar sentir, não sei mais me entregar. O foda é que fingir é comigo mesmo, finjo pra agradar, pra satisfazer e eu que me fodo. Nunca pensei que passaria por isso. A única vantagem é que não quebro mais a cara porque procurarei não mais cair, e se cair, não tem sangue pra jorrar, não tem coração pra bater, não tem porra nenhuma já há alguns meses. Eu até tentei mentir que tinha e só consegui sentir ódio. Ódio de mim, ódio do que está acontecendo comigo, ódio desse presente de grego que me deram e uma frustração inenarrável. Acho que agora posso dizer que esse sou eu. Eu era um pedaço de uma coisa feliz, um fragmento pequeno e incompleto de um cara satisfeito com a vida que pensei, realmente pensei, que vingaria e que iria perdurar por um bom lapso de tempo. Bom, eu tentei, mas mal sabia eu que alguma coisa conspirava quanto à isso. E agora, que tudo já passou (ou não passou, sei lá), eu sinto muito, mas eu não sinto mais nada. Apenas a saudade que ela deixou.

    Por ora, me levanto, me refaço e me desfaço por todos os dias que me sobrarem de vida.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

A Balada do Amor Recém-Descoberto








    Porque é assim mesmo, 
    
    amor dói, é lindo e fodido e difícil e maravilhoso e extasiante e cansativo, exaustivo, agônico e longe de feliz para sempre. Muitas vezes será feliz mesmo e seremos iluminados, luzidios, morrendo de tesão e candura, nadando em luxúria infinita, indivisíveis. Uma hora o indivisível se divide para que um e um possam ser dois e um. 

                                         Sei que chegará uma hora em que tudo que você vai desejar é ficar só, quieta, no silêncio, sem ouvir nada além das vozes cruéis e gordurosas na sua cabeça. Não é hora de ir embora; é hora de calar e olhar para dentro. Sempre vou entender porque também preciso da solidão, preciso muito. Ninguém vive o tempo todo em função do amor senão morre, morre sufocado, morre seco e sem criar, morre obcecado e afogado em frustração. 

                                                                                         Amor comigo, meu Amor, nunca vai ser plácido. Os altos serão os mais altos que você jamais imaginou, os baixos eu vou controlar e nunca vou te afundar junto. Não sou água parada, sempre fui turbilhão, um turbilhão incontrolável de coisas desordenadas e esmagadoras e lindas, destrutivas e fecundas, irresistíveis e desumanas, posso ser devotado e incompetente, doce e amargo, categórico e insuportável, carente e fútil, apático e radiante, cada dia um pouco de uma coisa nova e sempre incandescente. 

Esse sou eu. 

                              Minha alma e tudo que sair de mim será assim e sua vida nunca será entediante. Às vezes você vai ter vontade de ir embora. Às vezes eu também. Não é fácil. O que não pode é se acovardar e fugir, isso não pode, não pode deixar o negrume vencer o que precisa ser argênteo, não adianta ir embora para descobrir que quer voltar de novo e de novo porque um dia eu não vou mais estar aqui. 

                                                                            Não quero que volte por ser viciada em mim, quero que você fique porque quer. Um dia minhas energias terão se esvaído e será o dia do fim. 

                                                                                                                                 O Fim. 

Se esse dia chegar – e não quero que chegue, não quero, não quero - vai ser mais uma das minhas mortes. mas ainda tenho algumas vidas para gastar, algumas saúdes pra flagelar. Não vou acabar. Não acabo. Provavelmente farei de novo e de novo depois de lidar com o fracasso, depois de chorar muito e não acreditar em nada, bem como faço atualmente.

                                  Me regenero e volto. Eu não vou acabar, não enquanto acreditar em coragem, certeza e amor sólido. O resto não me derruba. Se derrubar eu já aprendi a cair em pé e voltar a respirar.

                                                                            Mas eu prometo, com as mãos ainda pensas, palmilhando por esse caminho que está levando à ti (apresentar-lhe-ei Drummond, minha linda) que não terei por ti a mesma benquerença que tive pra'quela por quem esmoreci morbidamente pela repentina ausência; os amores, ainda que sólidos, ainda que não sejam secretos nem eternos, são diferentes um do outro. À ela dei o melhor e o pior de mim, amando-a como um louco pelos dias que se passaram;

                                                                                                                             à você darei o melhor e o pior de mim, amando-te com um louco pelos dias que se seguirão. 

E o resto, todo ele, não importa. Lembremos de sermos felizes. Ainda podemos achar a felicidade, ainda podemos amar. Somaremos à este mundo àqueles tipos de casais que, quando se olham, rola a mágica de quando uma chocólatra olha uma barra de chocolate branco. Seremos necessários um ao outro. E essas nossas necessidades se baseará em noites mal dormidas com mensagens simplórias pelas madrugadas, tudo isto regado à sorrisos bobos e rascunhos de cartas mal escritas.

                                           Vou te esperar todos os dias, independente de todas as tuas direções, após a epifania de que em todos esses anos só existiu você. Desfilaremos felicidade pelas ruas. O dia e o esquecimento não vão cair, não voltarei à vida de pingue-pongue, aqui-e-lá com a única certeza da distância da sanidade. Não atenderei, um dia desses, o telefone e me entregarei finalmente à presença da solidão, chutando a quentura da humanidade para a sarjeta mais próxima, para nunca mais voltar. 

                                                                                                                             Não com você.
 

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