Agenor
Agenor ainda batia pedra de dominó no bar de seu Maneco Andorinha quando o seu celular, geralmente tão inútil e insuficiente quanto o próprio dono, começara à tocar de maneira pavorosa. Bêbado demais pra se dar conta dos trinados agudos, obstáculo que não o impedia, porém, de identificar as buchas de quina e terno na sua mão e dar-se conta de que deveria livrar-se delas o mais rápido possível, os ébrios parceiros de bar chamaram-lhe a atenção:
- Genô, é seu celulá que tá tocano? Atende aí, homem!
E logo emendaram: - Deve de sê a muié já procurano o marido pra lhe dá uma coça!
Risos arrastados irromperam por todo o barzote e por sobre as garrafas de cachaça. Uma névoa pairava no ar, invadindo pouco à pouco o precário estabelecimento, situado nos fundos tenebrosos de uma ruela da terra batida, na boca do esgoto que singrava por dentro da favela. Duramente fixado naquele estado de embriaguez em que o mundo torna-se mais doce a olhos vistos, um mundo em que a satisfação de ser e existir, juntamente com uma irresistível ânsia de amar e confiar ainda mais nas pessoas ao redor, enchia sem motivo aparente seus olhos de lágrimas baças - olhos lânguidos de cachaceiro, em geral postos no chão - Agenor acreditara realmente que a ligação era da sua esposa, a odiosa caquética, a puta velha, a imundície, que decerto já o procurava para encher-lhe mais os sacos murchos de quem já passou dos cinquenta. Talvez, se não estivesse tão bêbado, perceberia de pronto que a mulher não possuía celular algum, muito menos os muitos filhos pequenos, que viviam no limiar da pobreza, a família sustentada apenas pelo parco adjutório que Agenor recebia nos bicos que regularmente realizava, um verdadeiro faz-tudo, habilidoso em serviços elétricos e pluviais, justiça lhe seja feita. Portanto, não atendera ao chamado do antiquado celular de segunda mão que adquirira mês retrasado como uma forma de contato com os vários clientes que o solicitavam, vez ou outra; isso quando não estava no boteco do seu grande amigo, Maneco Andorinha, à bebericar caninhas, conhaques e cachaças artesanais, grande apreciador destas bebidas de fogo. Estando aqui, a jogar dominó, ouvindo velhas modas sertanejas, com seus amigos ainda mais inveterados e mal-sucedidos que ele próprio, não seria surpresa alguma se ele recusasse uma oferta de emprego de Jesus Cristo em pessoa, se este descesse dos céus numa maravilhosa nuvem de fogo branco, com anjos rechonchudos em volta, e lhe solicitasse a realização dum serviço de reparos no trono do próprio Deus.
"No toca-fitas do meu carro
uma canção me faz lembrar você.
Acendo mais um cigarro,
e procuro te esquecer..."
Aproveitando a pausa na partida para o embaralhamento das pedras, Agenor renovou a carga do seu copo americano e bebera de um trago. Quanto já bebera desde que aqui chegara ainda no comecinho da tarde? Ninguém saberia dizer; talvez o equivalente à toda a plantação de cana-de-açúcar do interior de São Paulo - quem sabe? O fato é que continuava, e agora prestava atenção à musica que tocava alto na caixa de som sobre uma improvisada prateleira de madeira no alto da parede.
"O meu quarto está vazio
você, tanta falta me faz.
Pois cada dia que passa,
eu te amo muito mais."
A voz surda e quase cômica do Odair José trouxe-lhe lembranças há muito airosas e esquecidas: era essa a musica que costumava tocar no bailinho do centro, onde enfim conhecera seu primeiro grande amor, Adalgisa, assim como ele recém-chegada de Paraíba, trabalhava em casa de família, nos fins de semana escapulia à caça de algum fandango brega pela cidade afora, o seu único fraco. Olhos dolentes, cabelos molhados, sorriso perene; dançaram juntos essa canção, muito na moda na época. Foi a primeira e última vez que a viu - mas antes da despedida, jamais imaginando que jamais a veria novamente, num dos banheiros masculinos teve-a só para ele, toda ela entregue em fogo intocável. Nos subsequentes fins de semana, Agenor comparecia fielmente no mesmo baile, postava-se fielmente no mesmo lugar onde pela primeira vez a vira e escutava fielmente a mesma canção, como se tudo isso fosse um ritual pagão que a traria finalmente de volta. Mas Adalgisa nunca mais voltou. Em seu lugar, apareceu a Creusa, a coisa-ruim do qual era casado, a baleia fora d'água. As coisas seriam tão diferentes se se tivesse casado com Adalgisa! Mas uma renovação do copinho americano, mais um trago rápido, e o gosto da baba da menina paraibana de outrora invadiu-lhe os sentidos em torpor. Apenas por um segundo, porém: o sabor da doce boca de Adalgisa fora cruelmente substituído pelo acúmulo de saliva ácida que antecede o refluxo.
Agenor levanta-se, como que impulsionado por potentes molas, e na cambaleante pressa de alcançar o minúsculo e nojento cubículo a que chamavam de toalete, pisara com o calcanhar no rabo do vira-lata bege que ressonava enrodilhado junto ao balcão, ocasionando-lhe dor aguda e raiva súbita - num átimo, em meio ao ganido de agonia, o cão abocanha a perna do bêbado, acima do calcâneo.
- Filho da puta! - berrou Agenor, não se dando ao trabalho de devolver-lhe a mordida; toda e qualquer matéria diluída que havia em seu estômago estava prestes à surgir com incrível velocidade, e ato reflexo, ele levara inutilmente a mão na boca. Os amigos bêbados, companheiros do dominó e das manguaças, já não se continham com a comicidade da situação, largando-se em frouxos de risos. E foi ainda no último terço do curto trajeto mesa-banheiro que o vômito aparecera, num jato forte e indomável, tão pressuroso e abundante quanto um gêiser. Transbordando por entre os dedos que fechavam-lhe a boca de maneira lamentável, o alimento diluído era lançado com força para tudo quanto era lado.
Chegando esbaforido ao banheiro, ajoelhara no chão molhado de urina e praticamente enfiara a cabeça calva no sanitário, sanitário esse que não seria difícil ao leitor imaginar o seu provável aspecto higiênico. As golfadas eram violentas, cada uma delas equivalendo à uma pequena implosão do estômago agora vazio de Agenor, e o ruído característico de água caindo sobre a água, juntamente com os gemidos e estertores do infeliz embriagado preenchia o ambiente quase deserto, entre uma e outra musica. Depois de alguns minutos, quando o estômago não mais se dignava em mandar seu conteúdo para fora, justamente por não mais haver conteúdo para ser expulso, Agenor se levantara e sentara sobre o encardido vaso sanitário, exausto das lidas. Sujo de urina e vômito, sob as espicaçadas gargalhadas dos outros, sentiu uma súbita vontade de choro. Era verdade que ainda estava muito bêbado, mas não o suficiente para perceber que vida de merda era a dele. Já estava velho, já estava acabado, e encontrava uma tênue felicidade, mesmo que momentânea, apenas nos muitos copos de pinga á que se entregava durante praticamente os sete dias da semana. Mas a rotina, independente ela qual seja, sempre há de cansar. Naquele dia brigara uma vez mais com a mulher por ela ter reclamado da escassez da comida, reclamando que há tempos Agenor não era chamado pra realizar um serviço, reclamando que ele só queria saber de encher o cu de cachaça e procurar um emprego decente, nada! Mulher filha da puta, só prestava mesmo pra reclamar, no mais era um caco que lhe dava nojo, toda metida à caga-sebo. Deixe estar, siá-puta: dias melhores virão, ao menos para mim.
Já há algum tempo uma campainha familiar tocava insistentemente, n'algum lugar. Eis que surge o dono do bar, o velho Maneco Andorinha, com um celular na mão, que continuava à berrar de maneira aguda.
- Ele caiu do seu borso quando tu corria pra cá, Genô. Tão te ligano de novo.
Relutante, Agenor tomou do aparelho e sem nem sequer conferir o numero, colou o fone ao ouvido e esperou.
- Alô? Seu Agenor? - era uma voz baixa e urgente de homem.
- Fala.
- Aqui quem fala é Armando, porteiro do edifício Santa Rosa. Lembra de mim? O senhor chegou à ser contratado pra fazer algumas instalações aqui na casa...
- Lembro - mentiu Agenor, preso num estado que seria incapaz de lembrar até quem seria sua mãe, que Deus a tenha. Sua boca enche-se da água amarga do refluxo. A ânsia retornava, lenta e quase carinhosa.
- Que bom que encontrei o senhor, seu Agenor. Sei que já é bem tarde da noite, mas não tive mais á quem recorrer. O nosso prestador oficial de serviços, o Pereira, está indisponível no momento.
À luz duma nova oportunidade de serviço que se avizinhava, independente da hora avançada, aguçou os sentidos e fingiu-se são, um dos únicos talentos em que era realmente competente, talvez devido ás experiências nos botecos.
- Ah sim. Pode falar. O que... O que houve?
- Todos os elevadores do edifício deu pau. Sei bem que o senhor não é, digamos, treinado pra esse tipo de manutenção, mas se o senhor pudesse ao menos dar uma olhadinha no que possa ter acontecido, eu já teria um relatório completo pra entregar pro meu chefe amanhã, facilitando o reparo dos danos.
- Aham.
- E ademais, uma pessoa ficou presa dentro do elevador, se trata do Doutor Rodrigo, o filho do chefão. Ele já está lá há uns quinze, vinte minutos... Então certamente o senhor deve compreender a minha urgência. O homem tá soltando fogo pelas ventas.
- Sei. Bom, eu dou um pulinho aí.
- Muito obrigado, seu Agenor. Desde já agradeço muito. E... bem, quanto o senhor cobrará por essa visita noturna?
- 130. Cem pela verificação e uma possível manutenção, se eu conseguir arrumar... E trinta pela hora alta. Mas terei que ir de táxi. E isso será à parte - Agenor, não conseguindo se conter, libertou um arroto abafado. Desejava, além do serviço, que o homem, o tal de Armando (que ele realmente não se lembrava) desligasse ligeiro; a vontade de vomitar novamente estilhaçava-lhe a alma.
- Certo, certo. Eu farei um vale pro senhor. Mas por favor, apresse-se. Do jeito que o homem é, não vai me admirar se ele abrir as portas do elevador com as próprias mãos, pra tentar escapar, acho que o homem surta em lugares fechados, sabe? Aquela loucura de nome complicado, sei lá como se chama. Mas ele já tá transtornado.
- Tá. Já tô indo.
Desligando o celular, verificou o relógio: onze e doze da noite. Seria difícil encontrar um táxi á esta hora, ainda mais estando do jeito que estava, bêbado feito um gambá. Esperava que melhorasse ao menos um pouco depois da enxurrada de vômito, mas já estava com ganas de botar tudo pra fora, uma vez mais. Ajoelhou novamente, e gemendo pela dor do refluxo, tentou e não conseguiu vomitar. Tanto melhor, mas a mordida do vira-lata fodido latejava incomodamente. Voltou ao bar um pouco mais satisfeito com o rumo das coisas e sussurrou ao Maneco Andorinha a solicitação de sempre: que pendurasse as bebidas na conta.
* * *
Era natural que Creusa, a mulher, não acreditasse na história do marido, que adentrou o barraco trocando ridiculamente os pés.
- De novo, Genô? Pelo amor de Deus, você vai morrer de tanta cachaça, miserável! E que história é essa de serviço, à essa hora da noite? Você acha que eu sou uma trouxa, seu cafajeste?
Com os insultos aparentemente unilaterais, as crianças - seis, ao todo, tendo o mais velho completado nove anos - acordaram de chofre, quase ao mesmo tempo. Agenor coletava algumas coisas aparentemente à esmo pela única peça que compunha aquela casa: uma mochila surrada, uma caixa de ferramentas, uma encardida botina de operário, com bico de ferro. Aguentando com heroico estoicismo as insistentes queixas da mulher, ele concentrou-se unicamente em não vomitar na casa - sendo esta tão pequena, decerto a golfada atingiria em cheio a cabeça de um dos filhos. Ou bem poderia entregar-se indefeso á ânsia que chegava e deixasse vomitar na cara da mulher, que berrava feito o demônio, não seria uma má ideia. Ah, com Adalgisa as coisas seriam diferentes, ah, como seria! Ao menos, com a paraibaninha ele não se sentiria compelido à dar-lhe um safanão toda e qualquer vez que nela pousasse os olhos, como atualmente acontece com essa rolha de poço, independente do tempo em que passariam juntos. Praticamente galopada numa nova e estonteante ideia, tomara uma rápida resolução: ainda que sua vida fosse uma completa e fedorenta bosta, não era obrigado à continuar submerso na merda. Vítima das circunstâncias, uma mudança operara de maneira drástica no semblante afogueado do homem, e desta feita até a própria Creusa percebeu - o marido estava estranho, e agora não era simples sinais da bebedeira, o que haveria de ser? Quieto, acabando de arrumar suas coisas, olhos mansos e faces rubras, trocara com certa dificuldade a calça, na outra havendo uma mancha escura de sangue em meio à um pequeno rasgo, obra do vira-lata do bar. Sim, Creusa notara uma mínima, porém presente mudança no marido pinguço e inútil, não saberia dizer bem o quê; apenas um receio indefinido se fez sentir. Mais controlada, fizera a ultima pergunta:
- Posso pelo menos saber onde é que é esse serviço, se é que é um serviço mesmo, Agenor?
Roupas trocadas, mochila às costas, cabelos ralos em desalinho, Agenor fora ao pequeno banheiro sem luz e lavara rapidamente a cara com água gelada, decidindo: compraria e tomaria café bem forte no caminho. Sempre ao olhar agora atento da mulher gorda, apanhara a sua caixa de ferramentas (que chocalhava ao sabor de seus passos cambaleantes), e ao passar por ela, informou:
- Vou deixar minhas coisas aqui, que qualquer dia volto pra buscar. Não me espera não: não volto mais pra tu. Vou seguir meu rumo, atrás da minha felicidade, não quero mais ficar mergulhado nessa merda. Vou atrás de Adalgisa - sorvendo com grande prazer a estupefação exposta nos olhos levemente estrábicos da mulher, foi preciso que Agenor fizesse um enorme esforço pra não cair na gargalhada, bem como não vomitar na cara dela - Tu não vai saber onde estarei, depois desse serviço vou sumir, retornando só pra pegar minhas coisas. E eu te arrebento se tu botar fogo nas minhas roupas. Tá avisada.
Sem mais, saiu do barraco, deixando Creusa às voltas com o baque da situação.
Através das estreitas vielas em direção à Avenida Santa Catarina onde esperava que pudesse pegar facilmente qualquer táxi, ele assobiava, baixinho: "O meu quarto está vazio, você, tanta falta me faz..."
* * *
Não lhe fora especialmente difícil apanhar um táxi: o difícil fora se conter para não vomitar no estofado do veículo durante o trajeto de doze minutos até o edifício Santa Rosa. Mas durante a rápida viagem, manteve-se lúcido o suficiente para antecipadamente imaginar a surpresa do tal Armando ao vê-lo embriagado, trocando as falas e os passos, na porta de entrada do prédio - correria o risco de perder o serviço que já estava na palma das mãos. Uma saída improvisada à este dilema agora se fazia necessária.
À aproximação da fachada castanha do edifício Santa Rosa, Agenor pedira ao taxista que tomasse uma das ruas transversais ao prédio, dando-lhe a volta por trás. Diminuindo a marcha, o motorista seguira lentamente junto ao muro que delimitava os contornos do edifício até alcançarem um pequeno portão de ferro, em geral muito utilizado durante o dia pelos coletores de lixo, oficiais de manutenção, jardineiros, etc. Ele habilmente lembrara deste portão de serviço desde a ultima vez que aqui viera, realizar um serviço simples de instalação elétrica - todas as vezes que era chamado pra trabalhar aqui, era obrigado à acessar, unicamente por este portão, as dependências do edifício. Hoje não seria diferente, em absoluto.
Pediu que o motorista estacionasse mais à frente, e recomendando que aguardasse o seu retorno (juntamente com o dinheiro da corrida, que ele garantiu lhe seria dado pelos seus contratantes), Agenor caminhara até o portão e confirmara-lhe trancado por pífio cadeado. Abrindo a caixa de ferramentas, apanhou um alicate reforçado do qual muito se orgulhava e facilmente mastigara-lhe as trancas, livrando-as da corrente. O portão estava aberto, e por ele Agenor se resvalara. Estava pronto para o serviço.