terça-feira, 19 de março de 2013

O Amor do Chefe



     Com frio.

   





    Ao Henrique.
 


    Por ter recusado vezes seguida os novos esquemas
    os novos planos
    as novas saídas
    as novas ideias,
    e sempre com aquele brilho maníaco no olhar que os amigos sabiam maldito
    o bando logo confirmou: o Chefe estava apaixonado.

    Mesmo eles
                      matadores sem coração
    Mesmo eles
                      maconheiros e cafetões
    Mesmo eles
                     marginais em ascensão
    Mesmo eles
                     com tantas mortes e sangue e vapores à pesarem-lhes nas costas,
                     puseram-se à perguntar: como desapaixonar alguém que detém o
                     poder de decidir sobre a inocência alheia?

   Mais: quem pode ser a alma que magnetizara alguém que sabiam ser desalmado?

   Selvagem e doente é o ser humano sem um líder.
   E por mais que o venerassem como bem deve ser um tirano venerado,
   repugnaram-lhes a ideia de perder o cabra para aquilo que chamam de amor, e que eles tão bem 
                                                                                                                              [desconheciam.

   Jamais souberam algo sobre o amor,
   nada além das instituições e das surras nas medidas que se dizem sócio-educativas.
   Nada além da palmatória do governo e das omissões dos direitos humanos (e humanos direitos?)
   Nada além dos beijos cáusticos e causídicos das putas nas esquinas do centro.
   Nada além do ranço de cigarro que flutuavam aquém de seus corpos verrugosos.
   Eles, assim como o resto da humanidade, jamais souberam de fato sobre o amor.

   Logo
   decidiram em uníssono: vamos apagar o amor dele.
                                       estrangulá-lo
                                       esquartejá-lo
                                       estuprá-lo
                                       comer e defecar esse amor, se possível
    
    Porque essa porra teima em aparecer quando menos é desejada?
    Porque os desejos teimam em serem desejados quando menos são necessários?
    Porque as necessidades nossas sempre nos levam a desejar sermos amados como bem se ama o amor?
    E se algo assim fosse tão bom como sempre tentam nos convencer 
    Porque muitos matam e morrem em nome desse amor, presente de Deus?

    Logo
    decidiram em uníssono: vamos erradicar o amor dele.
                                        varrê-lo do mapa
                                        destruí-lo                
                                        esmigalhá-lo
                                        e mijar sobre os pedacinhos.

    Nisso, repetiram ainda:
                                        e mijar sobre os pedacinhos.

                                                                                     
                                                                                 *
    
    Refizeram vezes sem conta os planos refeitos:
                                     o amor do Chefe seria tocaiado
                                                                              seria subjugado
                                                                                                   seria pisoteado
                                                                                                                       seria morto.

    E estavam contentes com a mal-nascida proposta:
    limpariam o mundo se do mundo livrasse mais um incômodo amor.
    Por que desse amor eram eles semelhantes -
    matavam e morriam por amor ao dinheiro...
                                                                 ... mas nada deve ser esperado por algo que se esconde além de 
                                                                     uma máscara resplandecente, mas tal um Deus Asteca,
                                                                     exige sacrifícios para o seu fortalecimento.

    Assim era o amor.
    Assim era o amor do Chefe.
    Assim era o amor que eles exonerariam do mundo.
           
   Assim era aquilo que exigia tanto de suas pobres vítimas
   Assim era a coisa que sugava a sanidade de todos e de cada um
   Assim era o amor do Chefe
                                                que eles mijariam por sobre os pedacinhos.


   
    Tocaiaram por dias a fio.

    Enregelaram-se.

    O mundo escureceu em derredor.

    Sentiram-se solitários e vazios.

    E quando mais não podiam esperar, o amor do chefe apareceu.

                                                                                *

    Apaixonaram-se em uníssono
                                                e mijaram-se uns nos outros.

                                                          




  
                                                                                                  

domingo, 10 de março de 2013

O Quadrângulo (Parte 4 de 4)






    Mídia




O MISTÉRIO DO EDIFÍCIO SANTA ROSA                                  
Jovem encontrada morta na escadaria do prédio; três suspeitos estão detidos





Por Carlos Madureira



    Um crime bárbaro chocou São Paulo, no início da semana: o misterioso assassinato de Gisela Reis Junqueira, de 21 anos, estudante do segundo ano de Direito e estagiária da firma Camargo & Sandrinni Costa, uma das mais famosas sociedades advocatícias do estado.
    Gisela foi encontrada já sem vida nas escadarias entre o terceiro e o segundo andar do edifício Santa Rosa, sede da firma de advocacia, pela auxiliar de limpeza R.P.L. (nome não divulgado pela polícia), de 18 anos, por volta das sete horas da manhã. Segundo seu depoimento, corroborado pelas investigações da polícia, Gisela foi encontrada caída ao pé das escadas, com a blusa levantada e a saia arriada (o que denota abuso sexual), com marcas inegáveis de espancamento e uma mancha vermelho-vivo no pescoço, o que implica esganadura. "Com base nas investigações periciais, esperamos ter 100% de certeza se a vítima realmente morrera em decorrência do ferimento no pescoço, mas já de antemão, tudo indica que ela fora assassinada por asfixia mecânica", comenta Luiz Guraldi, perito da Polícia Científica. Um fato que denota o abuso, seguido de morte da jovem estagiária, é que aparentemente fora encontrado vestígios de sêmen sobre as roupas da vítima. "Pelo que descobrimos até agora, com base nos depoimentos dos suspeitos, isso (o sêmen encontrado) não prova que a menina fora vítima de estupro. Seria até irresponsável afirmar tal coisa", dissera, em tom de censura, o delegado Hélio Souto-Maior, do 35º DP (Jabaquara), onde o caso foi registrado.
    Também, segundo o delegado, não seria possível afirmar com certeza se os ferimentos e diversos hematomas no corpo da jovem seriam de um possível espancamento. "Há uma linha de investigação que aponta pro caso dela ter sido jogada intencionalmente pelas escadas, o que no caso seria crime premeditado, contrário do abuso sexual, que já é um crime impulsivo", completara o delegado.


    UM DOS SUSPEITOS ERA O CHEFE DA VÍTIMA

   Três homens, os únicos que estavam no edifício no provável momento do homicídio (que segundo as investigações dos peritos, aconteceu entre as dez e a meia-noite de sexta) foram autuados e no momento permanecem detidos. Um deles seria Rodrigo Sandrinni Costa, de 29 anos, superior direto da vítima, filho mais novo de Adalberto Sandrinni Costa, sócio majoritário da firma Camargo & Sandrinni Costa. O segundo suspeito, Armando Pereira Batista, 62, trabalhava como porteiro noturno no edifício no momento do crime e o terceiro seria Agenor Dias dos Santos, o Genô, um autônomo de 53 anos.
  Segundo depoimentos, Rodrigo ainda estava na firma de advocacia àquela hora avançada (onde normalmente deveria estar já em casa) porque combinara encontrar-se com Gisela, sua subordinada, em sua própria sala, para o que chamou de "reunião particular". Gisela aceitara e "enrolara" no escritório justamente pra aguardar o chamado dele, que haviam combinado que seria por volta das dez da noite. "As dez e vinte, mais ou menos, acabei de redigir uns autos e, como já estava livre, liguei pro escritório jurídico, onde Gisela estava sozinha. Perguntei à ela se a nossa 'reunião' ainda estava de pé, e ela confirmou. Pedi então que viesse à minha sala, que eu a estaria aguardando'", depôs Rodrigo, aparentando extremo nervosismo, na delegacia. Ele continuou: "Eu não sei quando ela chegou, pois antes disso eu me ausentei da sala e deixei um bilhetinho na minha mesa pra ela, em que eu pedia para que ela me esperasse por uns minutos, porque eu iria à sala do meu pai, que ficava no segundo andar, apanhar uma garrafa de champanhe..." Cogitado pelo delegado se seria aquela a primeira vez que se encontrariam fora do horário de expediente, Rodrigo confirmou: "Teria sido a primeira vez", e embaraçou-se ao ter que responder ao Drº Helio Souto-Maior o motivo de a ter escolhido num rápido affair: "Ora, ela era inteligente, sonhadora, ambiciosa... E eu a achava linda. Todos a achavam. As fotos falam por si só."
    Paulo Roberto de Siqueira Camargo, um dos sócios da firma de advocacia e um dos advogados de Rodrigo, recomendou à polícia "atentar ao fato de que ele (Rodrigo) ficara preso no elevador durante, e até depois, da hora calculada do crime", lembrando que Rodrigo dissera em depoimento que, ao tentar descer de elevador ao segundo andar, houvera uma pane nos elevadores e ele ficara preso. "Meu cliente ficou por mais de quatro horas preso no elevador, á esta altura totalmente desesperado, pois é sabido que ele sofre de claustrofobia", completara o advogado. Esse fato fora confirmado pelos outros dois suspeitos, mas para a policia, isso não descarta a hipótese de suposto envolvimento do réu no crime: "O fato do Rodrigo ter ficado preso no elevador não constitui um álibi", dissera o delegado.
    O caso se complica ainda mais a partir daí, pois Gisela fora encontrada com vestígios claros de sêmen ainda fresco em suas roupas, o que conecta Rodrigo ao crime, pois é sabido que ambos combinaram um encontro amoroso fora do horário de trabalho. E também foi achado, num dos bolsos do casaco da estagiária, um pedaço de papel, como uma espécie de mensagem rápida, que dizia: Gi, me espere. Fui buscar um champanhe para bebermos e já volto! Era o bilhete deixado por Rodrigo, que ela guardara.


    UM DOS SUSPEITOS CHEGARA Á VER A ESTAGIÁRIA AINDA VIVA

    Armando Pereira Batista, de 62 anos, era porteiro do turno da noite do edifício Santa Rosa, na região do Jabaquara, zona sul de SP, local onde ocorreu o crime. Segundo seu depoimento, Gisela era "uma moça educadíssima e bonita, sempre sorridente e atenciosa para comigo", e comentara que a estagiária "sempre batia papo comigo no final do seu expediente, quando ela esperava o noivo vir buscá-la, coisa que ele fazia todo dia". Ele declarou a polícia que fora um dos últimos à vê-la ainda com vida, embora desconhecesse totalmente quem poderia ter motivos para querer ferir "aquela doce mocinha".
    Armando dissera que registrara pelas câmeras do circuito interno de TV do edifício (agora em poder da polícia, que investiga as imagens) quando Gisela saíra do escritório jurídico, no terceiro andar, em direção ás salas da administração, onde também ficava a sala de Rodrigo Sandrinni Costa, antigo chefe e um dos suspeitos por sua morte. Percebendo algo estranho nessa atitude (que ele, porém, não soubera explicar que estranheza havia nisso) ele decidira subir do térreo, onde ficava a recepção, até o terceiro andar, quando percebeu que os elevadores estavam inoperantes. Jamais imaginando que o "Drº Rodrigo estava preso já àquela hora", Armando subira as escadas, seguira em direção à sala de Rodrigo e se deparara com uma cena que ele não entendera: "A moça... Gisela, né?... Bem, ela estava sozinha lá, sentada na poltrona do doutor, bebendo uísque na garrafa, trêmula e apavorada da cabeça aos pés. Estranhei aquilo porque... sei lá. Apenas estranhei. Mas ela não chegou á me ver." Ainda segundo ele, foi por volta desse momento (provavelmente vinte ou quinze pras onze) que Rodrigo o chamou pelo rádio, dizendo que havia ficado preso no elevador. "Então peguei o caminho de volta pelas escadas e chamei o Genô, para que viesse tentar arrumar o elevador". À pergunta do delegado, de porque ele chamara justamente o Agenor para verificar a avaria dos elevadores, Armando respondeu que "eu até contatar o técnico de manutenção que normalmente fazia os serviços na casa, mas ele tava num velório, então me deparei com o nome do Agenor e liguei pra ele."
    Confrontado com a indagação do delegado Souto-Maior sobre ele não ter estranhado o fato do Agenor ter entrado sorrateiro pelo portão de serviço do edifício, e se o porteiro não haveria percebido que o autônomo estava bêbado quando o contactara, Armando gaguejou: "Eu não teria como saber dessas coisas. Como haveria eu de saber que ele já havia chegado e arrombado o portão de serviços do prédio? E ele deve ter disfarçado muito bem no telefone, porque eu jamais o chamaria se o soubesse bêbado."


    O SUSPEITO BÊBADO

   Agenor Dias dos Santos, conhecido como Genô, de 53 anos, está desempregado atualmente, mas realizava bicos como autônomo em serviços diversos para que o procurasse. No dia do crime, segundo seu depoimento, ele bebia num boteco perto de sua casa, na favela Alba, região do Jabaquara (apenas 6 quilômetros do edifício Santa Rosa), quando o seu celular tocara. Era Armando Pereira Batista, porteiro do edifício, onde ele já realizara diversos trabalhos anteriormente. "Ele tava me chamando pra avaliar o 'probrema' dos elevadores, que haviam 'dado pau'", dissera um ressaqueado Agenor.
    Ainda segundo o autônomo, ele não se atrevera a entrar pela porta da frente porque teve medo de ter sua entrada barrada pelo porteiro Armando. "Eu tava um pouco 'alto'", admitiu Agenor. Ele, então, arrombara o cadeado do portão dos fundos do edifício (destinado á entregas de fornecedores) e acessara por detrás as partes internas do prédio, sem o porteiro Armando tomar ciência disso. Segundo a polícia, Agenor estava embriagado quando adentrar o prédio, mas não se sabe se o mesmo chegara á vistoriar a avaria do sistema hidráulico dos elevadores; ele próprio não se recorda disso. "Eu não... não tenho muita certeza se cheguei a verificar o 'probrema' dos elevadores... Eu realmente não me lembro disso muito bem", dissera ele. "Em relação aos outros, o depoimento do Agenor é repleto de altos e baixos, de amnésias repentinas e lembranças estranhas", comentara o delegado Souto-Maior. "É o menos confiável dos suspeitos". Notável também, segundo as investigações, fora o fato de que o autônomo fora embora do prédio sem cobrar os custos de possível manutenção ou até mesmo a verificação das avarias do problema dos elevadores. Questionado quanto à isso, Agenor disse quase não se lembrar de como chegara até o prédio, "quanto mais de ter lembrado em cobrar as despesas da manutenção". Sabe-se, porém, que Agenor utilizara um táxi para se locomover ao edifício Santa Rosa, tão logo ele fora contatado pelo porteiro Armando. A polícia segue investigando.
    Agenor jura que não encontrara Gisela no prédio, e jamais a vira, "apesar dela ter a cara bastante familiar". Apesar de não saber se realizara a contento os reparos dos elevadores, disse que provavelmente saíra do prédio pelo mesmo portão dos fundos mais ou menos uma hora depois que entrou, e utilizara as mesmas escadas onde o corpo de Gisela fora encontrado sem, porém, perceber nada de anormal no local. Logo pela manhã, duas horas depois que o corpo da estagiária fora encontrado, Agenor fora localizado quando tomava café numa padaria próximo à sua casa. Um detalhe que poderá ser crucial para a resolução do crime: resíduos gastrointestinais (um possível vômito) fora encontrado próximo á vitima, no local do crime (mais precisamente dez degraus acima de onde Gisela fora encontrada). Dado que estava embriagado no momento do possível homicídio, pode ser que o resto do vômito na escada seja de Agenor, "mas iremos trabalhar unicamente na hipótese de descobrir se a pessoa em questão vomitara antes do surgimento e/ou assassínio de Gisela, ou depois, no momento em que ela já estava morta. A primeira hipótese não sugere especificamente que a pessoa que vomitara possa ser a mesma que a assassinara, mas a segunda hipótese certamente pode indicar o envolvimento do suspeito no crime", sentenciara o delegado Souto-Maior. "Partindo desse pressuposto, é correto afirmar que Agenor, por enquanto, se mantém na qualidade de suspeito número um".


    NOIVO FORA UM DOS ÚLTIMOS À FALAR COM A ESTAGIÁRIA

    Renato Matias Günkel, 24, estudante de Arquitetura e Urbanismo na mesma faculdade da estagiária Gisela Junqueira, era seu namorado à quase um ano. "Completaríamos um ano de namoro na semana que vem, e iríamos nos casar daqui à dois meses", comentou, entre lágrimas, o jovem estudante à reportagem. Renato diz não ter a mínima ideia de quem pudesse ter feito isso com a jovem. "Ela não tinha inimigos. Todos eram muito respeitosos com ela, todos os amigos a adoravam". Indagado sobre o possível motivo por ela ter permanecido no escritório da firma de advocacia para muito além do seu horário de expediente, Renato considera "humilhante e revoltante" a atitude de certos jornais, que afirmam ter Gisela combinado um encontro amoroso com Rodrigo Sandrinni Costa, advogado, ex-chefe da estagiária e um dos suspeitos de sua morte. "Eu liguei pra ela nesse dia, perguntando o porquê dela ter ficado até tão tarde no serviço, e ela respondeu, com muita naturalidade, que havia pilhas de pendências que ela precisava colocar em dia. Então, cogitei se eu deveria buscá-la como costumo fazer todos os dias, e ela disse para eu não me preocupar, que ela tomaria um táxi assim que terminasse. Que ela ficaria bem."
    Com um álibi confirmado pelos amigos (de que ele estava num bar na Vila Madalena), a polícia não interrogara Renato na qualidade de suspeito do crime. Mas diante da recomendação policial, de que não deveria se ausentar da cidade durante o inquérito, ele se incomodou: "Eu jamais faria isso à alguém, ainda mais à Gisela, que eu amava mais que tudo na vida!"


    VELÓRIO

    Gisela Reis Junqueira, 21, estagiária de direito, encontrada morta nas escadarias do edifício Santa Rosa, no bairro do Jabaquara, zona sul da capital, fora velada e enterrada ontem à tarde, no cemitério do Araçá, região central da cidade, ao lado do túmulo do pai, que morreu três anos antes. Houve grande comoção entre os familiares e as centenas de amigos que compareceram, que lembraram de Gisela como sendo uma moça doce, educada e extremamente inteligente. "Iríamos à praia no fim do mês", informou uma amiga do curso de Direito, "ela, como não tinha tempo pra se divertir, por conta das inúmeras responsabilidades, estava bastante entusiasmada."
    "A única coisa que queremos agora é justiça!" desabafara Roberto Junqueira, tio da vítima. "Pelo amor de Deus, um crime tão brutal não pode fiar assim, impune!"
   Renato Günkel, noivo da estagiária, não compareceu ao velório. Informara à reportagem não ter forças para isso.
    Adalgisa Maria Reis Junqueira, 43. mãe de Gisela, passou mal durante o enterro e teve que ser amparada pelos familiares.
    Ela faria 22 anos no início do mês que vem, e sonhava em ser juíza. 
    
    

      

quinta-feira, 7 de março de 2013

O Quadrângulo (Parte 3 de 4)





     Armando




    Armando não tinha família. Não tinha amigos. Não tinha casa, sequer um cão. Não tinha ninguém. Só o que ele possuía, de fato, eram lembranças - muitas lembranças, que ele costumava colocar num prato da balança, estando do outro lado, no outro prato, todos os seus arrependimentos de velho: os arrependimentos sempre se mostravam mais densos que as inúteis lembranças, sobrepujando-as no peso. Com as lembranças mascaradas por arrependimentos pesando-lhes nas costas ligeiramente curvas (lumbago em estado inicial), Armando vivia à custa da boa vontade que a vida lhe outorgara, boa vontade um tanto quanto duvidosa: viver muito e, em contrapartida, mastigar por cada minuto as dores do que se poderia ter feito e não se fez. A indiferença que permeara sua vida de relaxadas indolências, quando ainda jovem, apenas agora mostrava as suas garras, rasgando-lhe cruelmente a alma na calada da noite. O manto do arrependimento, ainda que acolhedor, ainda que lhe coubesse bem, pesava-lhe sobre o corpo. Ser velho era isso - lembranças antigas, arrependimentos antigos, tesão antigo e recolhido dos que jamais se casaram.

    Possa ser, talvez, que esse tesão fosse aquela imaginária estrutura que se erguia entre um e outro prato da balança, que os sustentava, Armando jamais soubera o nome daquilo. Se ele tivesse nascido, à sessenta e dois anos atrás, sobre a luz do signo de libra, possa ser que ele soubesse a denominação disso à que chamam "fiel da balança". Mas ele não seria assim, tão instruído, e ademais, ele é de Capricórnio. Mas nada disso importava, apenas o seu tesão de velho que, sendo o fiel da balança, intermediava o embate entre as lembranças e os arrependimentos. E tesão ele sentia nesse exato momento, momento esse em que divisara a silhueta minúscula da moça sozinha no escritório do terceiro andar, com ar desolado e atenção compenetrada na tela do computador. A gostosura dela saltava aos olhos, mesmo além da pequena tela de monitoramento CFTV que havia na recepção, que Armando fitava sem desviar os olhos de verruma.

    Ele estivera assistindo-a fielmente pelas câmeras nos últimos quarenta minutos, mas agora, velho e fraco, não lhe era mais possível refrear seus instintos obsoletos e frequentes. Estava sozinho àquela hora da noite, excetuando a estagiária gostosa (cujo nome ele esquecera) e o jovem Dr. Rodrigo, que também ficara pra fazer serão; mas ambos situavam-se agora nos andares superiores, mergulhados em suas respectivas funções, e de lá não sairiam tão cedo. Como trabalhava sozinho em seu posto, à portas fechadas, seria fácil fazer isso, como tantas outras vezes já fizera, mesmo nos horários comerciais, onde o fluxo de pessoas é imenso. É nestas horas que se faz necessária certa dose de competente habilidade, a discrição é imprescindível. Mas aqui, agora, não precisava ser discreto, até porque fazer essas coisas na maciota, sem ninguém perceber, era chato e cansativo - devido ao esforço de se fazer passar por um porteiro justo e sereno, um velhinho simpático e sorridente, enquanto por debaixo da bancada de mármore, longe dos olhos da sociedade, se permitia fazer coisas sujas  e impensáveis, o pau amolecia rápido, muito antes da gozada, o que era extremamente frustrante, ainda mais para Armando, que não era mais um belo exemplo de virilidade nessa idade do caralho! Não, não precisa ser discreto, é rapidinho,ninguém saberá, além de Deus, é claro - mas depois eu me acerto com ele, como tantas outras vezes. Olhando pro monitor da câmera do escritório, Armando percebe que a mocinha quedara-se pensativa, já um pouco afastada do computador, sua parte inferior do corpo oculto atrás de uma maciça pilha de papéis. Mesmo além da pequena tela sem muita definição do monitor de CFTV, Armando divisa-lhe os desenhos dos seios já fartos pra idade dela, que deveria ser na base dos vinte, vinte e poucos. Qual era mesmo o nome dessa diaba? Bom, não importava: nos pensamentos lascivos do velho Armando, porteiro noturno do edifício Santa Rosa, sede da próspera firma de advocacia Camargo e Sandrinni Costa, fumante inveterado, solitário ocupante de um quarto-sala alugado nas imediações do Jabaquara, assíduo frequentador dos mais sortidos bordéis da zona sul, um velho senhor torturado pelas lembranças e pelos arrependimentos, nos seus pensamentos de punheteiro não importa que nomes elas tinham: em todas mergulhava-lhes adentro, chamando-as de Maria, Josefa, Francisca, Madre Teresa - passara por suas mãos calejadas todas as funcionárias jovens daquela firma, sua senhoria de quarenta e oito anos, algumas das faxineiras, as estudantes que dividiam o mesmo vagão de trem (as mesmas que, educadamente, cediam-lhe o assento reservado aos idosos), muitas transeuntes que lhe cruzavam o caminho, e a filha e sua vizinha, um lírio de menina de quatorze anos. De que lhe importava seus nomes? Quantas pelos seus pensamentos e sonhos e desejos de velho safado já passaram? Já era idoso, acabado pelas lembranças e arrependimentos, era sozinho no mundo: não era justo que lhe privassem desse passatempo, vergonhoso e inofensivo, á que se entregava dezenove vezes por dia, e que continuaria à se entregar enquanto essa nesga de virilidade não lhe for também privada para sempre, tornando-o assim inútil, um peso morto.

    Abrira uma gaveta abaixo da bancada de mármore da recepção e de lá retirara alguns guardanapos. Preparar-se-ia pra baixar a braguilha da calça quando algo lhe chamara a atenção: a moça levantou-se pra atender ao telefone próximo a sua mesa. Armando umedece os lábios finos: jé pensou essa menina nuazinha numa cama, minha cama, à sorrir de maneira sacana, me chamando como se chamasse um filhotinho de cachorro? Mata o velho! Eram apenas pensamentos, apenas sonhos não contidos, que mais serviam pra adoçar a sensação do orgasmo auto-induzido. Ela colocara o fone no gancho, voltara à sua mesa, abrira a bolsa e retirou algo. Armando firmou mais as vistas por detrás dos óculos: era um batom e um espelho de bolso. Ainda em pé, ela tingia os lábios com o batom (definir a cor deste, através daquela horrível monitor, era-lhe impossível, mesmo que quisesse), com o espelhinho erguido à altura da face bonita. Talvez estivesse se embonecando pra finalmente ir-se embora, o que seria uma pena - a bronha seria mais doce com ela ali, atrás daquela telinha de CFTV, sempre sob as vistas do velho. Armando, porém, lembrou que sempre antes de ir embora (era sempre uma das últimas à sair), ela desperdiçava uns vinte minutos batendo papo com ele, enquanto esperava o namorado que sempre ia buscá-la - um borra-botas almofadinha, com cara de bebê. Falavam sobre as coisas mais triviais possíveis - clima, trânsito, noticias das primeiras páginas dos jornais, uns planos pro fim de semana. Era gente-fina a menina, sorridente, amável e de boa-família, logo se via - e gostosa. O que Armando não daria pra enovelar com as suas mãos murchas, singradas de horríveis veias azuis, ao menos um daqueles peitos macios e rijos! Sua mão não seria o suficiente para englobá-los. Mata o velho! Ele contava que ela surgiria dali à pouco, através dos elevadores, e sorridente iniciaria o bate-papo com o seu costumeiro Boa noite, Seu Armando! Como vai o senhor? Melhor então frear os seus solitários planos, ao menos por ora.

    Quinze minutos, porém, e nada da mocinha. Ela já saíra do escritório, e outro monitor (das câmeras do corredor que levava aos elevadores) indicou que ela tomara o rumo de onde ficava o pessoal da administração, bem como as salas dos filhos do doutor Adalberto, o manda-chuva, onde agora deveria estar trabalhando o doutor Rodrigo, o mais novo dos cinco filhos do velho advogado. Era no mínimo estranho; não haveria mais ninguém por esses lados, exceto o doutor Rodrigo...

   - Olha só, que cachorra! - exclamara Armando, tomando ciência da situação.

    Doutor Rodrigo Sandrinni Costa era famoso pelas conquistas, por ser um desbragado esbanjador de grana, pela boa-vida que levava - e por passar nos peitos, dizia-se, a maioria das advogadas da firma... Quem dirá de uma estagiária? Filho da puta sortudo - além de nascer em berço de ouro, ser jovem e boa-pinta, ela ainda não economizava o pinto, comendo quantas quisesse e bem entendesse, não dando chances pro arrependimento pesar-lhe anos depois nas costas, a sina de Armando. Será que a safadeza estaria rolando lá agora, na sala do advogado safado? Decidiu-se: não poderia perder isso por nada no mundo.

    Tomando do nextel, ele deixara a recepção e seguira na direção dos elevadores, no lado norte do grande hall de entrada. Mas todos os três, estranhamente, estavam inoperantes. Estranho, chegou à pensar, e normalmente os corretos procedimentos obrigá-lo-ia à retornar à recepção e discar os números dos técnicos que cuidavam da manutenção dos elevadores, mas só a ideia de realizar suas funções de rotina enquanto o paraíso se desenrolava no terceiro andar lhe dava comichões. Sendo assim, prometeu à si mesmo que cuidaria disso quando retornasse - se ausentaria por uns vinte minutos, não menos que isso, e se alguém questionasse no dia seguinte, à guisa de represálias, alegaria que percebeu, pelas câmeras de CFTV, algo suspeito no último andar e correra para lá verificar, constatando que não passava de um alarme falso. Tudo muito simples e infalível; Armando seguira pelas escadas.

    Reinava um silêncio de sepulcro no vasto terceiro andar. Todas as portas fechadas, as máquinas de expresso e capuccinos solitárias em seus cantos, as mesas dos escritórios como se fossem ilhas desoladas no oceano - era impressionante imaginar que ali, durante o dia, era um inferno de sons e murmúrios e pessoas e telefones tocando. Lentamente, Armando caminhara na direção das salas da administração, onde sabia que a estagiária tinha se dirigido, e onde tinha certeza que agora, nesse exato momento, estava dando pra um dos chefes, o herdeiro da casa. Sentira-se ridículo por estar ali, sozinho, excitado como um touro velho, andando sorrateiro pelo imenso corredor atapetado, procurando um motivo palpável pra uma masturbação; mas era um incômodo tão prazeroso pra ele, tão perigosamente real e lúdico, que Armando não se importava com o arrependimento que certamente chegaria tão logo ele se saciasse, horas depois, na solidão da recepção. Não lhe passava pela cabeça glabra de idoso, lógico, que tivesse alguma chance de ser convidado à integrar a festa particular que estava rolando naquela sala chique, agora há uns quinze metros de onde estava, algo impensável nas suas condições senis - cairia morto, estatelado e ereto no chão, antes mesmo de se pôr na menina.

    A porta larga e elegante de mogno do escritório do doutor Rodrigo estava encostada. Canalhas, não se deram ao trabalho nem de ao menos cerrar a porta, gostam de fazer à vista dos outros, galoparem no perigo do escândalo, saciarem-se com a antiética. Pé ante pé, já massageando os testículos tão murchos quando uma estiolada castanha, Armando se aproxima, meio curvado e alerta à qualquer som, por detrás da porta pouco entreaberta - o ar gelado do ar-condicionado libertava-se para além da fresta da porta. Estranho, concluiu Armando: não havia o mínimo som que denunciasse o que deveria estar ocorrendo para além daquela porta. O silêncio operava no ambiente de forma cabal. Numa firme resolução, ele resolveu fazer o impensável: espiar. E espichando rapidamente a cabeça pequena de cabelos prateados pela fresta da porta, no inicio não entendeu o que viu: a estagiária estava sentada numa poltrona de couro negro, de costas para ele e frente à grande janela panorâmica, com uma garrafa na mão cujo interior balouçava um líquido castanho, talvez uísque. De quando em vez era bebericava diretamente no gargalo da garrafa, em pequenos goles, e á cada sorvida dava pra observar, mesmo estando ela de perfil em relação ao velho Armando, sua careta de repulsa ao teor etílico do destilado. Mas bebia intermitentemente, a garrada quadrada (em dado momento Armando leu-lhe o rótulo: Jack Daniel's) indo em direção à boca da jovem, retornando à posição baixa para em seguida, novamente, ir em direção à boca da jovem, num intervalo de dois em dois minutos. Suas mãos estavam visivelmente trêmulas, e ela respirava com certa retumbância. Inteiramente vestida, segurava, na mão esquerda (a mão livre, ligeiramente para fora dos braços da poltrona de couro) um pedaço de papel com umas coisas escritas, pena Armando não poder ter lido. Ato reflexo e natural, o seu pau emurcheceu-se na hora. Quanto ao doutor Rodrigo, que se acreditava estaria trepando com a jovem... nem sinal.

    Então, de súbito, o som de alerta do seu nextel começou á tocar. Ainda atrás da porta, como um espião covarde, Armando desesperou-se, e em resposta ao som estridente, a estagiária, viu-se, se alarmou e procurou em redor a origem da estranha celeuma. Aproveitando a distração da jovem assustada, Armando esgueirou-se rapidamente em direção ao corredor, e dominado pelo receio de que a estagiária sairia da sala e o flagraria em meio à uma desastrada e ridícula evasão, o velho escapulira pela primeira porta destrancada que encontrara pela frente (o depósito do almoxarifado), sempre com o nextel, que ainda chamava, de encontro ao seu corpo, numa forma primitiva de abafar-lhe o som que se tornava ensurdecedor naquele silêncio sepulcral.

   - Puta que pariu! - exclamou baixinho, enquanto fechava a porta do depósito do almoxarifado. O aposento era pequeno e escuro, atulhado de utensílios de limpeza, e um denso odor de alvejante à base de cloro flutuava rente às suas narinas. Ainda atrapalhado, verificou o autor do alerta do nextel, que ainda apitava: doutor Rodrigo. Armando pressiona o botão da comunicação.

   - Pois não, doutor?
   - Seu Armando? - a indagação, por demais óbvia, parecera-lhe tão grave e urgente quanto um rugido de leão faminto - Meu Deus do Céu, homem! O que diabos está fazendo?

    À mistura de Deus e diabo numa mesmo frase de censura, Armando alarmou-se ao imaginar a possível bronca que certamente tomaria.

   - Estava realizando a minha ronda de rotina, doutor, então vi o rádio tocando e...
  - Certo, certo - atalhou o doutor Rodrigo, sua voz alteando-se num periclitante tom grave, ainda mais grave devido à estática do aparelho de comunicação - Eu estava descendo pelo elevador em direção ao segundo andar, mas não sei que porra aconteceu, que fiquei preso; o elevador parou no meio do caminho e as portas não querem se abrir.
   - Os elevadores foram vistoriados semana passada, senhor...
  - E o que isso me importa? Faz alguma coisa, chame algum técnico, alguém, sei lá, porra! Eu quero sair daqui! - berrou o advogado, aparentemente já não mais se importando sobre o que pensaria o velho porteiro diante da oculta revelação de que talvez o jovem advogado pudesse sofrer de claustrofobia - Ouviu, Armando? Faça isso, pelo amor de Deus! - completou.
   - Não se preocupe, doutor. Farei isso já. Ligarei pros técnicos de manutenção. Tenha calma, tudo ficará bem - tentando parecer ponderado, o velho Armando se atrapalhava ainda mais: o cara estava preso num elevador quebrado, não era aquele um caso preocupante, de vida ou morte, portanto inútil tentar impingir-lhe certas esperanças. Ele que esperasse, o almofadinha.

    Depois de verificar do lado de fora do depósito e se certificar que o corredor continuava deserto (nem sinal da estagiária beberrona), Armando dirigiu-se rápido à recepção, no térreo. Estava frustrado, cansado e desgostoso, e de tanto esgueirar-se curvado ao tentar entrever uma safadeza alheia que se pensava estivesse rolando, revelando-se um completo fiasco logo depois, sofria agora de imensa dor nas costas, o maldito lumbago. Mas enquanto retornava ao seu posto, refletia: o que terá acontecido? A estagiária bebendo sozinha e trêmula na sala do doutor Rodrigo, o próprio doutor Rodrigo preso no elevador quebrado... A palpável voluta que paira e pulsa sobre a atmosfera, tão característica, que revelava um possível mistério por  baixo dos panos da situação, resvalava em todo o ambiente: Seu Armando, um velho amargurado cheio de arrependimentos, estava apreensivo, não saberia dizer bem o porque.

    O Pereira, chefe da manutenção que prestava serviços ao edifício, estava incomunicável - participava de um velório, possivelmente d'algum parente. Sem se atrever à revelar o insucesso da presente situação á um enérgico doutor Rodrigo, Armando cogitara colocar em prática o plano B: contratar os serviços rápidos e urgentes de um dos muitos faz-tudo que realizavam regulares bicos no edifício - serviços de qualidade duvidosa, mas que agora seria mais que necessário, seu emprego dependendo unicamente disso. Na agenda telefônica, se deparara com dois nomes, logo na primeira página: Antônio e Agenor. Depois de uma rápida escolha, o segundo nome fora agraciado. Talvez se Armando soubesse o que estaria prestes á acontecer dali à uma hora (mesmo que desconhecesse a essência total do que ocorreu), era provável que escolhesse o primeiro nome, sem sombra de dúvidas. Mas simples mortais, falhos seres humanos, de nada sabem o que seria necessário que soubessem, antes de saberem - e chegado o momento, a impotência os domina, convencendo-lhes de sua mínima presença no universo e da pequena dose do arrependimento que se integra ao montante já acumulado na balança: o arrependimento daquilo que poderia ter sido feito e não se fez. Como se conspirasse à favor do velho e solitário porteiro, o universo concedera-lhe algo que poderia ter sido chamado de segunda chance: o tal Agenor não atendera o celular na primeira tentativa. Era correto imaginar que outra pessoa, frustrada por mais esse insucesso, tentaria contatar o outro nome da lista - Antônio - mas se lhe fosse indagado porque razão não o fizera (assim como realmente ele seria indagado, muitas horas depois, por muitas pessoas, rudes e rígidas em sua maioria), Armando, sinceramente, não saberia responder. E jamais soubera, mesmo anos depois, mesmo antes do laço no lençol encardido, antes do último estertor, antes de pender do cano do chuveiro da penitenciária.

    Na segunda tentativa, Agenor, brandindo do outro lado da linha uma voz rouca que praticamente lhe gritava, á plenos pulmões, a denúncia de que estava bêbado, atendera.    
 
  - Alô? Seu Agenor? - uma musica alta de fundo, uma daquelas musicas de corno tão em voga nos botecos, dificultava a comunicação.
   - Fala. 

quarta-feira, 6 de março de 2013

O Quadrângulo (Parte 2 de 4)




 

    Agenor




    Agenor ainda batia pedra de dominó no bar de seu Maneco Andorinha quando o seu celular, geralmente tão inútil e insuficiente quanto o próprio dono, começara à tocar de maneira pavorosa. Bêbado demais pra se dar conta dos trinados agudos, obstáculo que não o impedia, porém, de identificar as buchas de quina e terno na sua mão e dar-se conta de que deveria livrar-se delas o mais rápido possível, os ébrios parceiros de bar chamaram-lhe a atenção:

   - Genô, é seu celulá que tá tocano? Atende aí, homem!
    E logo emendaram: - Deve de sê a muié já procurano o marido pra lhe dá uma coça!

    Risos arrastados irromperam por todo o barzote e por sobre as garrafas de cachaça. Uma névoa pairava no ar, invadindo pouco à pouco o precário estabelecimento, situado nos fundos tenebrosos de uma ruela da terra batida, na boca do esgoto que singrava por dentro da favela. Duramente fixado naquele estado de embriaguez em que o mundo torna-se mais doce a olhos vistos, um mundo em que a satisfação de ser e existir, juntamente com uma irresistível ânsia de amar e confiar ainda mais nas pessoas ao redor, enchia sem motivo aparente seus olhos de lágrimas baças - olhos lânguidos de cachaceiro, em geral postos no chão - Agenor acreditara realmente que a ligação era da sua esposa, a odiosa caquética, a puta velha, a imundície, que decerto já o procurava para encher-lhe mais os sacos murchos de quem já passou dos cinquenta. Talvez, se não estivesse tão bêbado, perceberia de pronto que a mulher não possuía celular algum, muito menos os muitos filhos pequenos, que viviam no limiar da pobreza, a família sustentada apenas pelo parco adjutório que Agenor recebia nos bicos que regularmente realizava, um verdadeiro faz-tudo, habilidoso em serviços elétricos e pluviais, justiça lhe seja feita. Portanto, não atendera ao chamado do antiquado celular de segunda mão que adquirira mês retrasado como uma forma de contato com os vários clientes que o solicitavam, vez ou outra; isso quando não estava no boteco do seu grande amigo, Maneco Andorinha, à bebericar caninhas, conhaques e cachaças artesanais, grande apreciador destas bebidas de fogo. Estando aqui, a jogar dominó, ouvindo velhas modas sertanejas, com seus amigos ainda mais inveterados e mal-sucedidos que ele próprio, não seria surpresa alguma se ele recusasse uma oferta de emprego de Jesus Cristo em pessoa, se este descesse dos céus numa maravilhosa nuvem de fogo branco, com anjos rechonchudos em volta, e lhe solicitasse a realização dum serviço de reparos no trono do próprio Deus.

   "No toca-fitas do meu carro
    uma canção me faz lembrar você.
    Acendo mais um cigarro,
    e procuro te esquecer..."

    Aproveitando a pausa na partida para o embaralhamento das pedras, Agenor renovou a carga do seu copo americano e bebera de um trago. Quanto já bebera desde que aqui chegara ainda no comecinho da tarde? Ninguém saberia dizer; talvez o equivalente à toda a plantação de cana-de-açúcar do interior de São Paulo - quem sabe? O fato é que continuava, e agora prestava atenção à musica que tocava alto na caixa de som sobre uma improvisada prateleira de madeira no alto da parede.

   "O meu quarto está vazio
    você, tanta falta me faz.
    Pois cada dia que passa,
    eu te amo muito mais."

    A voz surda e quase cômica do Odair José trouxe-lhe lembranças há muito airosas e esquecidas: era essa a musica que costumava tocar no bailinho do centro, onde enfim conhecera seu primeiro grande amor, Adalgisa, assim como ele recém-chegada de Paraíba, trabalhava em casa de família, nos fins de semana escapulia à caça de algum fandango brega pela cidade afora, o seu único fraco. Olhos dolentes, cabelos molhados, sorriso perene; dançaram juntos essa canção, muito na moda na época. Foi a primeira e última vez que a viu - mas antes da despedida, jamais imaginando que jamais a veria novamente, num dos banheiros masculinos teve-a só para ele, toda ela entregue em fogo intocável. Nos subsequentes fins de semana, Agenor comparecia fielmente no mesmo baile, postava-se fielmente no mesmo lugar onde pela primeira vez a vira e escutava fielmente a mesma canção, como se tudo isso fosse um ritual pagão que a traria finalmente de volta. Mas Adalgisa nunca mais voltou. Em seu lugar, apareceu a Creusa, a coisa-ruim do qual era casado, a baleia fora d'água. As coisas seriam tão diferentes se se tivesse casado com Adalgisa! Mas uma renovação do copinho americano, mais um trago rápido, e o gosto da baba da menina paraibana de outrora invadiu-lhe os sentidos em torpor. Apenas por um segundo, porém: o sabor da doce boca de Adalgisa fora cruelmente substituído pelo acúmulo de saliva ácida que antecede o refluxo.

    Agenor levanta-se, como que impulsionado por potentes molas, e na cambaleante pressa de alcançar o minúsculo e nojento cubículo a que chamavam de toalete, pisara com o calcanhar no rabo do vira-lata bege que ressonava enrodilhado junto ao balcão, ocasionando-lhe dor aguda e raiva súbita - num átimo, em meio ao ganido de agonia, o cão abocanha a perna do bêbado, acima do calcâneo.

   - Filho da puta! - berrou Agenor, não se dando ao trabalho de devolver-lhe a mordida; toda e qualquer matéria diluída que havia em seu estômago estava prestes à surgir com incrível velocidade, e ato reflexo, ele levara inutilmente a mão na boca. Os amigos bêbados, companheiros do dominó e das manguaças, já não se continham com a comicidade da situação, largando-se em frouxos de risos. E foi ainda no último terço do curto trajeto mesa-banheiro que o vômito aparecera, num jato forte e indomável, tão pressuroso e abundante quanto um gêiser. Transbordando por entre os dedos que fechavam-lhe a boca de maneira lamentável, o alimento diluído era lançado com força para tudo quanto era lado.

    Chegando esbaforido ao banheiro, ajoelhara no chão molhado de urina e praticamente enfiara a cabeça calva no sanitário, sanitário esse que não seria difícil ao leitor imaginar o seu provável aspecto higiênico. As golfadas eram violentas, cada uma delas equivalendo à uma pequena implosão do estômago agora vazio de Agenor, e o ruído característico de água caindo sobre a água, juntamente com os gemidos e estertores do infeliz embriagado preenchia o ambiente quase deserto, entre uma e outra musica. Depois de alguns minutos, quando o estômago não mais se dignava em mandar seu conteúdo para fora, justamente por não mais haver conteúdo para ser expulso, Agenor se levantara e sentara sobre o encardido vaso sanitário, exausto das lidas. Sujo de urina e vômito, sob as espicaçadas gargalhadas dos outros, sentiu uma súbita vontade de choro. Era verdade que ainda estava muito bêbado, mas não o suficiente para perceber que vida de merda era a dele. Já estava velho, já estava acabado, e encontrava uma tênue felicidade, mesmo que momentânea, apenas nos muitos copos de pinga á que se entregava durante praticamente os sete dias da semana. Mas a rotina, independente ela qual seja, sempre há de cansar. Naquele dia brigara uma vez mais com a mulher por ela ter reclamado da escassez da comida, reclamando que há tempos Agenor não era chamado pra realizar um serviço, reclamando que ele só queria saber de encher o cu de cachaça e procurar um emprego decente, nada! Mulher filha da puta, só prestava mesmo pra reclamar, no mais era um caco que lhe dava nojo, toda metida à caga-sebo. Deixe estar, siá-puta: dias melhores virão, ao menos para mim.

    Já há algum tempo uma campainha familiar tocava insistentemente, n'algum lugar. Eis que surge o dono do bar, o velho Maneco Andorinha, com um celular na mão, que continuava à berrar de maneira aguda.

   - Ele caiu do seu borso quando tu corria pra cá, Genô. Tão te ligano de novo.

    Relutante, Agenor tomou do aparelho e sem nem sequer conferir o numero, colou o fone ao ouvido e esperou.

  - Alô? Seu Agenor? - era uma voz baixa e urgente de homem.
  - Fala.
  - Aqui quem fala é Armando, porteiro do edifício Santa Rosa. Lembra de mim? O senhor chegou à ser contratado pra fazer algumas instalações aqui na casa...
   - Lembro - mentiu Agenor, preso num estado que seria incapaz de lembrar até quem seria sua mãe, que Deus a tenha. Sua boca enche-se da água amarga do refluxo. A ânsia retornava, lenta e quase carinhosa.
   - Que bom que encontrei o senhor, seu Agenor. Sei que já é bem tarde da noite, mas não tive mais á quem recorrer. O nosso prestador oficial de serviços, o Pereira, está indisponível no momento.

    À luz duma nova oportunidade de serviço que se avizinhava, independente da hora avançada, aguçou os sentidos e fingiu-se são, um dos únicos talentos em que era realmente competente, talvez devido ás experiências nos botecos.

  - Ah sim. Pode falar. O que... O que houve?
  - Todos os elevadores do edifício deu pau. Sei bem que o senhor não é, digamos, treinado pra esse tipo de manutenção, mas se o senhor pudesse ao menos dar uma olhadinha no que possa ter acontecido, eu já teria um relatório completo pra entregar pro meu chefe amanhã, facilitando o reparo dos danos.
  - Aham.
  - E ademais, uma pessoa ficou presa dentro do elevador, se trata do Doutor Rodrigo, o filho do chefão. Ele já está lá há uns quinze, vinte minutos... Então certamente o senhor deve compreender a minha urgência. O homem tá soltando fogo pelas ventas.
  - Sei. Bom, eu dou um pulinho aí.
  - Muito obrigado, seu Agenor. Desde já agradeço muito. E... bem, quanto o senhor cobrará por essa visita noturna?
  - 130. Cem pela verificação e uma possível manutenção, se eu conseguir arrumar... E trinta pela hora alta. Mas terei que ir de táxi. E isso será à parte - Agenor, não conseguindo se conter, libertou um arroto abafado. Desejava, além do serviço, que o homem, o tal de Armando (que ele realmente não se lembrava) desligasse ligeiro; a vontade de vomitar novamente estilhaçava-lhe a alma.
  - Certo, certo. Eu farei um vale pro senhor. Mas por favor, apresse-se. Do jeito que o homem é, não vai me admirar se ele abrir as portas do elevador com as próprias mãos, pra tentar escapar, acho que o homem surta em lugares fechados, sabe? Aquela loucura de nome complicado, sei lá como se chama. Mas ele já tá transtornado.
  - Tá. Já tô indo.

    Desligando o celular, verificou o relógio: onze e doze da noite. Seria difícil encontrar um táxi á esta hora, ainda mais estando do jeito que estava, bêbado feito um gambá. Esperava que melhorasse ao menos um pouco depois da enxurrada de vômito, mas já estava com ganas de botar tudo pra fora, uma vez mais. Ajoelhou novamente, e gemendo pela dor do refluxo, tentou e não conseguiu vomitar. Tanto melhor, mas a mordida do vira-lata fodido latejava incomodamente. Voltou ao bar um pouco mais satisfeito com o rumo das coisas e sussurrou ao Maneco Andorinha a solicitação de sempre: que pendurasse as bebidas na conta.


                                                                      *      *      *  

   Era natural que Creusa, a mulher, não acreditasse na história do marido, que adentrou o barraco trocando ridiculamente os pés.

  - De novo, Genô? Pelo amor de Deus, você vai morrer de tanta cachaça, miserável! E que história é essa de serviço, à essa hora da noite? Você acha que eu sou uma trouxa, seu cafajeste?

    Com os insultos aparentemente unilaterais, as crianças - seis, ao todo, tendo o mais velho completado nove anos - acordaram de chofre, quase ao mesmo tempo. Agenor coletava algumas coisas aparentemente à esmo pela única peça que compunha aquela casa: uma mochila surrada, uma caixa de ferramentas, uma encardida botina de operário, com bico de ferro. Aguentando com heroico estoicismo as insistentes queixas da mulher, ele concentrou-se unicamente em não vomitar na casa - sendo esta tão pequena, decerto a golfada atingiria em cheio a cabeça de um dos filhos. Ou bem poderia entregar-se indefeso á ânsia que chegava e deixasse vomitar na cara da mulher, que berrava feito o demônio, não seria uma má ideia. Ah, com Adalgisa as coisas seriam diferentes, ah, como seria! Ao menos, com a paraibaninha ele não se sentiria compelido à dar-lhe um safanão toda e qualquer vez que nela pousasse os olhos, como atualmente acontece com essa rolha de poço, independente do tempo em que passariam juntos. Praticamente galopada numa nova e estonteante ideia, tomara uma rápida resolução: ainda que sua vida fosse uma completa e fedorenta bosta, não era obrigado à continuar submerso na merda. Vítima das circunstâncias, uma mudança operara de maneira drástica no semblante afogueado do homem, e desta feita até a própria Creusa percebeu - o marido estava estranho, e agora não era simples sinais da bebedeira, o que haveria de ser? Quieto, acabando de arrumar suas coisas, olhos mansos e faces rubras, trocara com certa dificuldade a calça, na outra havendo uma mancha escura de sangue em meio à um pequeno rasgo, obra do vira-lata do bar. Sim, Creusa notara uma mínima, porém presente mudança no marido pinguço e inútil, não saberia dizer bem o quê; apenas um receio indefinido se fez sentir. Mais controlada, fizera a ultima pergunta:

  - Posso pelo menos saber onde é que é esse serviço, se é que é um serviço mesmo, Agenor?

    Roupas trocadas, mochila às costas, cabelos ralos em desalinho, Agenor fora ao pequeno banheiro sem luz e lavara rapidamente a cara com água gelada, decidindo: compraria e tomaria café bem forte no caminho. Sempre ao olhar agora atento da mulher gorda, apanhara a sua caixa de ferramentas (que chocalhava ao sabor de seus passos cambaleantes), e ao passar por ela, informou:

  - Vou deixar minhas coisas aqui, que qualquer dia volto pra buscar. Não me espera não: não volto mais pra tu. Vou seguir meu rumo, atrás da minha felicidade, não quero mais ficar mergulhado nessa merda. Vou atrás de Adalgisa - sorvendo com grande prazer a estupefação exposta nos olhos levemente estrábicos da mulher, foi preciso que Agenor fizesse um enorme esforço pra não cair na gargalhada, bem como não vomitar na cara dela - Tu não vai saber onde estarei, depois desse serviço vou sumir, retornando só pra pegar minhas coisas. E eu te arrebento se tu botar fogo nas minhas roupas. Tá avisada.

    Sem mais, saiu do barraco, deixando Creusa às voltas com o baque da situação.

    Através das estreitas vielas em direção à Avenida Santa Catarina onde esperava que pudesse pegar facilmente qualquer táxi, ele assobiava, baixinho: "O meu quarto está vazio, você, tanta falta me faz..."

                                                                 
                                                                       *      *      * 

    Não lhe fora especialmente difícil apanhar um táxi: o difícil fora se conter para não vomitar no estofado do veículo durante o trajeto de doze minutos até o edifício Santa Rosa. Mas durante a rápida viagem, manteve-se lúcido o suficiente para antecipadamente imaginar a surpresa do tal Armando ao vê-lo embriagado, trocando as falas e os passos, na porta de entrada do prédio - correria o risco de perder o serviço que já estava na palma das mãos. Uma saída improvisada à este dilema agora se fazia necessária.

    À aproximação da fachada castanha do edifício Santa Rosa, Agenor pedira ao taxista que tomasse uma das ruas transversais ao prédio, dando-lhe a volta por trás. Diminuindo a marcha, o motorista seguira lentamente junto ao muro que delimitava os contornos do edifício até alcançarem um pequeno portão de ferro, em geral muito utilizado durante o dia pelos coletores de lixo, oficiais de manutenção, jardineiros, etc. Ele habilmente lembrara deste portão de serviço desde a ultima vez que aqui viera, realizar um serviço simples de instalação elétrica - todas as vezes que era chamado pra trabalhar aqui, era obrigado à acessar, unicamente por este portão, as dependências do edifício. Hoje não seria diferente, em absoluto.

    Pediu que o motorista estacionasse mais à frente, e recomendando que aguardasse o seu retorno (juntamente com o dinheiro da corrida, que ele garantiu lhe seria dado pelos seus contratantes), Agenor caminhara até o portão e confirmara-lhe trancado por pífio cadeado. Abrindo a caixa de ferramentas, apanhou um alicate reforçado do qual muito se orgulhava e facilmente mastigara-lhe as trancas, livrando-as da corrente. O portão estava aberto, e por ele Agenor se resvalara. Estava pronto para o serviço.

     

domingo, 3 de março de 2013

O Quadrângulo (Parte 1 de 4)





   



    Gisela


    Se depois de tudo o que aconteceu, a jovem fosse devidamente indagada, etérea ou espiritualmente, sobre o trivial pensamento que pudesse ter-lhe ocorrido, naquele momento e mesmo por um lapso através de sua jovem mente, ela não seria capaz de obter uma resposta concreta, de maneira absoluta. A verdade era que Gisela em nada pensava de tão notável além do limitado dever às suas funções, que no momento ela desempenhava com raro afinco e tênue monotonia, tão comuns nos estagiários. Apenas depois começara a pensar em algo palpável  quando um sino de uma paróquia qualquer, ao longe, começou á reboar sua voz prateada através dos frios sopros da noite, e mesmo durante suas tarefas, ela quedara-se em prestar atenção aos números de dobras, que foram dez, no total. Dez horas da noite. Normalmente preparar-se-ia para ir embora - primeira a chegar, ultima a sair. Hoje, porém, um sorriso no canto dos lábios denuncia-lhe a quebra de rotina. Não iria embora agora. Ainda ficaria mais um pouco e esperaria pelo chamado dele.

    O gélido sopro do ar-condicionado emprestava ao grande escritório uma atmosfera de frigorífico. Solidamente sentada atrás de uma mesa espartana, uma das muitas ali existentes, sua pequena silhueta quase desaparecendo através da maciça pilha de papéis que lhe chegava à altura do queixo, Gisela digitava quase ininterruptamente no teclado ergonômico, frente ao computador. Só os ruídos quase melancólicos das muitas teclas se faziam ouvir àquela hora da noite, naquele vasto e, nesse momento, completamente vazio conjunto de escritórios. Há pouco mais de quatro meses ela era estagiária da Camargo & Sandrinni Costa, próspera e influente firma de advocacia, intercalando suas aspirações empíricas ao inebriante universo dos processos penais com o curso de Direito, horário matutino, na Faculdade Presbiteriana Mackenzie. Era a primeira vez que se permitia entrever um futuro brilhante à uma carreira em tímida ascensão, numa prestigiada firma advocatícia cujos clientes, as mais poderosas figuras da sociedade paulistana, por bem menos motivos (e mais leves escândalos), de bom grado desprendiam-se dum terço de suas posses, o que se constitui pouco em comparação ao bruto de suas reservas, em favor da representação de seus interesses na justiça, fina especialidade daqueles primorosos profissionais. Em contraste com os primeiros meses de seu estágio, onde se acreditava ter adentrado numa selva de bestas rancorosas e gélidas, com suas gravatas de seda e cabelos à escovinha, hoje em dia a sua desenvoltura singular enfeitava os procedimentos à ela confiados, destacando-a, ainda que sutilmente, no poço de cascavéis que era aquele mundo. Em suma, Gisela começava á brilhar. Experiente na vida, ainda que jovem e caloura, não era contra ela outorgadas as mesmas injustiças que tinha por alvo os outros estagiários, todos estes unânimes em condenar a dissimulada estudante, eterno alvo das cáusticas invejas dos demais aprendizes. Em pouco menos de dois meses de serviço, fora cotada, pelo próprio Sr. Adalberto Sandrinni Costa - inclusive - a integrar o recém-formado corpo de advogados, todos eles jovens e brilhantes, designados em favor do famoso caso do Igor Corrêa, herdeiro de tradicional família da sociedade paulistana acusado de ter dado cabo duma certa Marilene, vulgo Mari boca-de-seda, prostituta sem glamour, encontrada asfixiada em quarto de motel barato onde, horas antes, foram ambos vistos entrando e pagando o pernoite, conforme afirmavam as várias testemunhas. Caso extremamente difícil e controverso, tendo em vista o poder aquisitivo dos Corrêa, a tradicional postura destes na sociedade e o fato de que o citado réu, ainda foragido da justiça, era noivo da caçula do Exmo. Secretário de saúde de São Paulo, ela que aguardava a chegada do primeiro filho á qualquer momento. Um embate intenso perante a lei, e ela sendo designada à fazer parte do corpo dos mais geniais advogados do estado, mesmo sob funções secundárias, próprias dos estagiários de Direito - servir café, enregar relatórios, providenciar as papeladas e os dossiês técnicos referentes ao caso, permanecer quieta à um canto, etecétera - era um desejo supremo que se realizava. Os demais estagiários passaram á odiá-la ainda mais, se é que isso seria possível, mas Gisela ainda não poderia dizer com certeza se os olhares de viés, se os cochichos ferinos ou os olhos postos no chão, tão logo ela por eles passava, seriam sinais recorrentes do ódio ácido que advém da inveja, ou certo receio de ter que odiar a "mais nova protegida do Sandrinni", conforme revelava o sussurro que certo dia escapulira-lhe aos ouvidos. À luz da nova e secreta denominação á sua pessoa, Gisela não se enraivecera, porém; caiu-lhe no gosto. A nova protegida do Sandrinni: as coisas agora seriam mais fáceis, o que refletia no sorriso cintilante de satisfação lançado por sua mãe, já no ermo dos seus dias, depois que a sua pergunta de praxe como está se saindo no serviço, minha filha?, era seguida por um costumeiro estou muito bem no estágio, mãe. Muito bem mesmo. Os olhos baços da velha brilhavam de orgulho pela filha única, que sonhava em ser juíza

    Ah!, se os outros estagiários, inúteis todos eles - ah se eles soubessem do segredo, do meu segredo! Cessam-se as atividades dos dedos encimados por longas unhas escarlates sobre o teclado - Gisela põe-se á pensar. Ah, se eles soubessem!, e mais um sorriso coroa sua bela boca de lábios vermelhos. Engolfada pelos segredos, ela pousa os olhos na aliança estreita que rodeia seu anelar direito, e os dizeres minimamente grafados sobre a argêntea superfície: Renato e Gisela, amor eterno. A fina aliança de prata, lembrete de que se casaria dali á dois meses e meio com o citado rapaz, pareceu-lhe agora pesar toneladas sobre o dedo esguio. O sorriso desapareceu , cedendo lugar á um leve esgar de infelicidade e a odiosa insegurança. Será que eu realmente deveria...?, pôs-se á pensar, uma vez mais, sobre a presente situação. O noivo - estudante de arquitetura na mesma faculdade, também filho único, classe média-alta, tímido e correto, frequentador de igrejas nas horas vagas - havia ligado há pouco, perguntando-lhe do paradeiro e se necessitava que fosse buscá-la, como de costume. Não, Rê; obrigada, mas não vai ser preciso vir-me buscar hoje. Estou atulhada de serviço, e meu chefe exigiu que eu terminasse ainda hoje, de modo que tão cedo não irei pra casa. Mas qualquer coisa dormirei aqui. Não se preocupe, certo? Eu te amo. Nada de perguntas, desconfianças, grunhidos de insatisfação do outro lado da linha, e Gisela o odiou por isso. Não que desejasse intimamente tal coisa, mas seria um gigantesco alívio se o noivo discordasse, dizendo que aquilo era um disparate, que a chefia não deveria exigir tanto de sua pessoa, se batesse o pé insistindo em ir buscá-la. Mas não, nada disso aconteceu - ele sorriu, alegou ser uma pena que ela ficasse pra fazer serão pois gostaria muito de vê-la, mas já que não tinha outro jeito, até amanhã e bom serviço. A jovem desligara o celular com um travo na boca - talvez fosse Deus que me lançara a derradeira corda de salvação, com o intuito de salvar-me daquele poço escuro que se abria diante de mim e que eu estava prestes à pular, aquele poço venenoso; mas eu não agarrei a corda, deixei que ela passasse célere diante da minha face, neguei-me à virtuosidade do arrependimento de ultima hora e não disse Certo, Rê, pode vir me buscar, estarei te esperando na recepção do prédio, meu amor. Até lá e vê se não demora, hein! A mente de Gisela oscilava de maneira estranha entre a satisfação e uma sombra incômoda de arrependimento. Como agora, que observava compenetrada a aliança que lhe circundava o dedo, quase apertando. Mas na situação em que se encontrava, não mais poderia covardemente recuar. Já mentira ao noivo, já passava há muito das dez da noite e ainda não se aprontara para ir-se embora, já dissera certo, esperarei a tua ligação  rente á um certo ouvido, em meio á uma certa fragrância amadeirada de jasmim. Pela décima-quinta vez na ultima hora, ela espia o relógio de pulso, chegando à conclusão que o telefone tocaria dali á pouco. Seria o mergulho final no poço escuro.

    O cheiro imenso da dúvida - se se entregava ou não ao pecado oculto e malnascido - enovelava seu corpo oprimido pela blusa levebranca e justa. Pousando o cotovelo na mesa, Gisela descansa a cabeça na mão, a cabeça que rugia como um forno crematório. Uma decisão era estritamente necessária.

  - Mas o que diabos estou ainda fazendo aqui? - disse alto, notando a enorme satisfação de ter finalmente alcançado o estado de graça das decisões puras e corretas. Não era obrigada à fazer nada que não quisesse, ainda que, a menos de meia hora atrás, tivesse desejado ardentemente os momentos vindouros, ainda que houvesse prometido aguardar o sinal, o compromisso inadiável; e ainda que as pernas e as vontades nem tão ferrenhas pesassem em demasia, símbolo de sua forçada decisão, a mente lúdica e racional por vezes imperava nos desejos da carne, e sendo por ela guiada, eis que Gisela põe-se á organizar a mesa atulhada de papéis, cessar as atividades no computador, sacar do celular e começar a ligar para Renato. Numa fração de segundos, o diálogo estava já pré-concebido: Amor? Meu chefe mudou de ideia e permitiu que eu fosse embora e concluísse amanhã os trabalhos pendentes. Ufa, que alívio! Você poderia me buscar aqui no prédio? Diz que sim? Ok, te espero lá embaixo, estarei conversando com o Seu Armando, o porteiro. Vê se não demora, hein! Eu te amo muito. Até mais. Discando os números, sorriu de leve ao imaginar a possível felicidade do noivo ao saber que a veria ainda hoje, e idealizara os planos pro fim de noite: talvez se deixasse levar ao apartamento lindamente mobiliado do rapaz, talvez se dispusesse á preparar um espaguete com queijo, que ele adorava, ou comprasse pizza com Coca-Cola, que ela adorava. Talvez murmurasse, pela primeira vez em quase um ano, que estava feliz em ser sua noiva, e certamente fariam amor sob as cobertas, talvez mais de uma vez, ou talvez não, visto que ela estava cansada. Ele bem merecia tais atenções dispensadas, coitado, sendo ele um bom rapaz, de boa família e bom coração, o mais carinhoso namorado que Gisela jamais encontrou. Mas pra infelicidade do rapaz, ninguém havia lhe dito que Gisela gostava de umas boas palmadas de vez em quando, de uns xingos e umas humilhaçõezinhas, que lhe espicaçava o prazer jovem e tenro, prazer esse agora um tanto hibernante pela convivência insossa ao lado dos respeitosos carinhos do noivo - suas fantasias para sempre ocultas além das névoas das rotinas.

    O telefone do escritório começou á tocar, uma campainha baixa e ponderada, como se até o aparelho tivesse medo de interromper o embate entre as duas forças antagônicas que batalhavam dentro da jovem. Com o celular na mão, Gisela chegara à completar a ligação deste e uma voz de homem - voz claramente aflita pelos vários alôs? sem resposta - era facilmente audível mesmo com os ouvidos afastados; Gisela sustentava o pequeno aparelho à meia altura, olhando fixamente, com ar de retardada, o telefone branco que chamava, em sincronia com uma luz vermelha que acendia e apagava no display do fone. Entre a quinta e a sexta chamada, Gisela fora atraída pela voz afobada do noivo, Alô Gi, é você? O que houve? Alô?, e desta feita fitava imóvel o celular, observando, com uma autêntica e despedaçada cara de choro, o nome do noivo na tela do pequeno telefone, seguido pela foto de ambos sorridentes, rosto contra rosto, que ela escolhera como descanso de tela.

    Suspirando de maneira doentia, como se se condenasse, através da respiração, e admitisse finalmente que os seus desejos de mulher jovem, geralmente tão selvagens e insaciáveis, eram mais fortes e intensos do que ela jamais previra, Gisela desabilita a chamada do noivo e, num gesto único, quase uma estouvada acrobacia, desliga o celular ao mesmo tempo em que retira o fone do gancho, entre a décima e a décima-primeira chamada. Ela ofegava como se houvesse transposto uma solitária maratona.

  - Alô?
  - Oi, Gi. Tudo bem? - a voz do outro lado era inacreditavelmente surreal. Profunda, como o de um ermitão num fundo de uma caverna. Por algum estranho motivo, Gisela assimilara sua voz com o de uma grande rocha que se pusesse à falar.
  - Tudo, e o senhor?
    Um sorriso retumbante fez-se ouvir do outro lado.
  - O que foi que eu te disse?
    Uma pausa da jovem insegura, nunca tão insegura quanto hoje.
  - Que não o tratasse como "senhor".
  - Exato. Pelo menos não enquanto estivermos sozinhos. Tudo bem?
  - Tudo bem - repetiu ela, imediatamente se auto-condenando pelas atitudes respeitosas e tolas de uma criança que conversa, obediente, com um adulto.
  - Eu cheguei à pensar que tivesse ido embora.
 - Não, eu estava colocando em dia umas pendências aqui. Desculpe tê-lo feito esperar, Rodrigo - à menção do nome, sua pele arrepiou-se, não saberia dizer se por prazer ou receio de estar fazendo um perfeito papel de idiota.
  - Não se desculpe Gi, por favor. Confesso que ficaria triste se você tivesse mudado de ideia quanto ao nosso, digamos, Happy Hour particular, e tivesse ido embora. Seriam tantos desejos e anseios desperdiçados, sonhados em vão! Mas, já que continua no escritório e atendeu o meu insistente telefonema... Ainda tá de pé o nosso esqueminha, certo?
  - Sim. Está sim - a jovem tentou sorrir, e conseguiu, ainda de que forma amarela e insossa.
  - Ok. Tem mais alguma coisa pra fazer aí ou já acabou?
  - Já acabei.
  - Certo. Gostaria de vir pra minha sala agora?
  - Sim, estarei aí em um minuto - afirmou, agora estranhamente mais segura. O outro lado de sua pessoa já começava á aflorar, como uma flor de madrugada - Só vou me aprontar um segundinho no toalete e já apareço por aí.
  - Vai se arrumar pra mim, né? - sorriu ele.
  - Com certeza, Rodrigo.
  - Então estou te esperando ansiosamente, Gi. Mal posso me conter, sabia? Venha logo.
  - Pois se contenha, ao menos por um minuto. Não vai se arrepender, eu garanto.

    Após mais algumas insinuações de ambas as partes, Gisela pousou o telefone no gancho. Só agora dera-se conta de que uma gota de suor, lenta e petulante, escorria-lhe da têmpora à bochecha direita. Fechou os olhos e suspirou - era o seu outro lado que chegava, singrando caminhos estreitos e escuros, sempre com um esgar esnobe no rosto.

    Dera-se conta, também, de uma unica coisa, mais pesada e apertada que a aliança prateada do seu dedo: a excitação que sentia. 

sexta-feira, 1 de março de 2013

A Mulher que Dormia (Parte 2 de 2)










   09:45. Sexta.


   


    A penumbra era tão suave que chegava a fazer cócegas na pele.
 
    Tranco a porta de entrada e aguardo por necessários segundos que meus olhos se desacostumem com a límpida claridade que imperava lá fora e se submetam ao tênue escuro do interior da casa. Um cheiro vago de café fresco flutuava no ar. Olhei ao redor e não encontrei a gostosa, que já devia ter subido aos andares superiores, aos quartos de dormir. Esperava, decerto, que também eu subisse assim ultrapassasse a porta, para iniciarmos de vez a brincadeira. Mas agora o tempo estava á nosso favor. Satisfazia-me o rumo dos acontecimentos, tão imprevisíveis à meia hora atrás.

    Descalço os sapatos e sinto a textura do carpete felpudo que cobria por inteiro o assoalho da sala. Lentamente, como se trafegasse em terreno minado, caminho a esmo pela vasta peça e examino fugazmente cada objeto ali encontrado, cada item esbanjado com tanto desapego, cada porta-retrato de finas molduras prateadas. Aqui e ali, alguns quadros contendo rabiscos horríveis, denominado tão pomposamente por arte, hoje em dia. O televisor, cujas polegadas da imensa tela plana não me fora possível discernir, refletira por um momento minha furtiva silhueta, que contrastava com a luz pouca filtrada pelas cortinas. O lustre cristalino da sala, que se pendurava exatamente acima e à direita da minha cabeça, parecia tão frágil que não seria surpresa se estilhaçasse com apenas um golpe de vista. As cortinas salmão permaneciam imóveis e além das bonitas e enormes venezianas, um jardim particular, canteiros de flores, uma bola colorida sobre a grama esmeradamente aparada, um pé médio de goiaba - era o canto particular da mulher. Cambada de yuppies.

    Transfiro-me da sala à cozinha, que alcanço rapidamente além de um pequeno corredor de paredes brancas, coalhada de retratos da família. Á primeira vista, ocorreu-me que eu estivesse num daqueles odiosos programas matutinos de receitas, tão em voga entre as donas de casa suburbanas, que espocavam nas manhãs das programações televisivas. Lembrei da minha velha mãe, que batalhara por toda a vida sem um mísero descanso e por bem desejaria, mais que tudo inclusive, ser dona de uma cozinha como esta, o paraíso das matronas, onde o branco imaculado reinava e as baratas eram reluzentes de limpeza. Porém, nada aqui havia que me interessasse. Distinguindo através da azulada penumbra um display luminoso e retangular sobre a mesa, que em nada se parecia um relógio digital, certifico-me do horário, 8:52 hs. Bom, vamos fazer o que viemos aqui fazer, confidenciei aos meus botões, Instintivamente, olho para o teto imensamente alvo da cozinha, onde por sobre a camada interna de concreto possa estar situado o quarto de casal da mulher e do corno engravatado, e sinto eriçar os pelos púbicos. Sorrindo, massageio o saco e dou meia volta em direção ás vastas escadas que davam acesso aos pavimentos superiores.

    Economizando a largura dos passos nos degraus de madeira envernizada, chego ao topo. Ali estava mais escuro que lá embaixo; porém, uma lâmina de luz, mesmo que tímida, se deixava entrever além do corredor, a uns vinte passos em minha reta - a porta entreaberta do quarto de casal. Antes dessa porta, na parede da esquerda, havia mais duas portas onde eram facilmente visíveis alguns recortes coloridos em papel crepom e cartolina, que representavam corações, insetos. aves toscamente idealizadas, algumas letras, todas coladas à madeira - ambos eram os quartos dos pirralhos. Num destes deveria estar o moleque doente, que quase fudera com todo o plano. Na parede da direita, mais duas portas, uma delas quase que totalmente aberta: o segundo toalete da casa. Além deste, uma ultima porta, onde nesse exato momento uma silhueta esguia e ligeira ultrapassara-lhe os umbrais e se dirigia, sem ruído algum, á porta entreaberta do dormitório de casal. Era a gostosa. Eu observava imóvel e um tanto extasiado a crueza de suas ações: ela espiara para dentro do quarto de casal, retornara na ponta dos pés ao quarto de onde saíra e fechara mansamente a porta; admirável o silêncio e a desenvoltura ímpar com que ela pontilhava seus métodos. Alguns segundos depois, ela repetira o procedimento cauteloso agora no quarto da criança, mas desta vez servira-se de uma pequena chave retirada do bolso de seu short curto, trancando com infinita precaução a porta do quarto onde dormia o filho menor. Concluída a tarefa, ela me olhou, como se dissesse, numa ordem inaudível: agora é a sua vez. Não resisti  ao impulso de puxá-la um tanto rude pela nuca e beijar-lhe com força nos lábios cheios, como uma merecida recompensa, e ficamos alheados nas circunvoluções de nossas bocas por quase três minutos. Depois disso, apenas uma frase, um ultimato, foi por ela dita na escuridão:

  - Eu te espero lá embaixo. Seja rápido.

    Assenti e nos despedimos momentaneamente, não sem antes novamente nos beijarmos ávidos e apressados. Senti-lhe o gosto vago de café em sua língua.


                                                                          *      *      * 

  
    Entrei no quarto, e sem olhar para a ocupante, encostei cuidadosamente a porta; eu parecia querer adiar ao máximo a entrevisão da paradisíaca promessa, adoçando mais e mais a surpresa e o prazer, que à esta hora estavam em mim como uns animais indomáveis. Finalmente virei-me e vi: ela dormia à sono solto, barriga pra cima, espalhada desordenadamente pela vasta cama, sobre os amarfanhados lençóis de pura seda. Uma luz brotava de algum lugar do aposento, o que me desorientou, visto que as janelas estavam cerradas e as cortinas abaixadas - tanto melhor, é claro; assim eu poderia discernir toda a cena, assistir á todo o show como o ativo espectador. Nem me dei conta do que mais poderia haver naquele quarto que merecesse certa atenção de minha parte: naquele momento era ela, ela e nada mais, que me arrebatava, denegria meus sonhos e levava-me á cometer as loucuras que há tempos não cometia. Desde que a vi, solta e livre à dialogar com os vendedores da feira, todos tão solícitos para com a gentil madame, benfeitora e generosa auxiliadora dos carentes, boa samaritana  á se voluntariar nos mais variados programas do governo em favor das famílias pobres, pediatra formada que se orgulhava pelas muitas gratuidades de suas consultas, doida que era por crianças. Monumental golpe do destino envolver-me com sua jovem irmã caçula, ambiciosa e tão mau-caráter quanto o tinhoso, magistral arquiteta de planos doentios de tomar para si toda a suculenta posse material da família que a acolheu com tanto afinco desde que retornara de suas desventuradas andanças pelo exterior, sem um mísero puto no bolso. Jovem ainda, sacana como uma velha raposa, fornecera dados e rotinas, manias e trejeitos: o marido saía para trabalhar, levando á tiracolo os dois diabinhos pro colégio. Dou-te o sinal, entramos e fazemos o serviço, será fácil, gostoso. Planos repisados dezenas de vezes após os incontáveis sexos, se bem era ela dona do rebolado mais flexível e maneiro, a filha da puta. Ora, mas ela levava o que queria, então por certo também eu levaria o que sempre quis. Sinal de concordância de sua parte, nesse momento atinei a maldade inominável que germinava no interior daquele corpinho de dezessete anos de idade. Puta que pariu, você é maluca, hein menina!, e rimos à não mais poder.

    Aqui estou eu, finalmente examinando a madame gostosa, irmã mais velha da gostosinha, e rapidamente revisitando em teoria tudo o que eu estava prestes á praticar. A mulher estava de braços molemente cruzados sobre o peito, e á simples constatação de seus vastos seios branquíssimos que se apertavam um contra o outro sob a regata leve de dormir, à custo segurei meus impulsos primevos que se amotinavam por todo o meu corpo. Era esta a hora tão ansiada: espiando ao redor, como se eu realmente desconfiasse que um arcanjo salvador ali estivesse espreitando-me no escuro, prestes à cortar-me ao meio com a espada flamejante da justiça, retirei as meias, desatei o cinto, arriei as calças e retirei a camisa, tudo na mais perfeita ordem, no mais notável silêncio. Dobro impecavelmente as roupas e disponho-as num canto do quarto, bem próximo à porta. Meu coração era um leão louco numa jaula frágil, prestes á fugir e estraçalhar quem estivesse pela frente. Não mais conseguia conter a respiração ofegante, e meu peito volutava  violentamente, como um asmático. Dirigi-me para perto da mulher que dormia, e quase choro ao perceber seus cabelos, que eram realmente maravilhosos, espelhados pelo travesseiro e ao redor de seu rosto delicadamente ressonante, emoldurando-lhe as feições e eternizando a imagem no fundo das minhas perturbadas retinas, a imagem que, burlando toda a realidade aqui engalanada, eu imaginava súplice, contida e permissiva; preferia imaginar que ela ali estivesse realizando um adorável papel de faz-de-conta, que ela soubesse que eu a estava observando, que dentro em pouco eu a tocaria, e ela sorriria ainda em sonhos como resposta ao leve toque das minhas mãos grandes roçando-lhe os suaves pelos dourados dos braços. Era, para mim, preferível imaginar que ela pensasse estar apenas sonhando, sonhando com um amante perfeito que enfim chegara, chegara finalmente para arrancar-lhe daquela vida modorrenta e rotineira de filantropias, livre para sempre das indiferenças do marido, dos filhos pestilentos, das consultas em hospitais públicos, trabalho de sua inteira preferência, mas que ninguém lhe dava os devidos e merecidos créditos. Eu era o cavaleiro branco e altivo que a libertaria, e voaríamos algures, para além do sétimo céu, num revoltoso mar de prazer e gozo com os quais ela sempre sonhara, mas que a sua pudicícia de amável pediatra, de boa-samaritana, de dona de casa classe alta, membro do conselho de pais e mestres do tradicional colégio dos filhos, frequentadora regular da paróquia do bairro, diretora de ONGs que favoreciam os menos afortunados da sociedade e, acima de tudo, sua respeitável satisfação de futura mãe, ainda com três meses de gestação, não a permitira, em hipótese alguma, de libertar-se das correntes da sociedade e entregar-se plena aos prazeres da carne - as aparências, sempre elas, precisavam ser mantidas. Não, não precisava mais, aqui estou eu para livrá-la de toda essa feira de máscaras e mentiras, quase me ouço pensar. Toda completa - pernas longas, coxas grossas, a flor oculta e perene sob o tênue tecido da calcinha negra, barriga rígida, seios fartos, rosto inacreditavelmente perfeito emoldurado pelos cabelos de ouro escuro - ela me aguardava, sei que me aguardava, cordata e pronta. Vagarosamente, quase á medo, abaixo a cueca, enquanto ouço o ruído surdo de algo caindo no chão nos andares inferiores: a gostosa, provavelmente, já estava amealhando os diversos itens de valor.

    Foi exatamente nessa hora que a mulher acordou, num sobressalto - cutucada, talvez, pelo arcanjo flamejante, que no escuro à tudo assistia, o voyeur cretino. A primeira coisa que ela, ao despertar, constatara aparvalhada, fora o meu sexo terso e comprido como uma vara de marmelo, que apontava diretamente para sua cara inchada de sono, como uma seta letal armada no arco curvo - mais precisamente, pro seu olho direito, formidavelmente verde-piscina. Talvez pensasse que estivesse realmente num delicioso sonho, pois ficara olhando estupefata o membro pulsante por uns bons segundos, antes de levantar o rosto e divisar na fraca luz do aposento as minhas feições devastadas, encharcadas de suor. Então, impedi que ela começasse com a gritaria, antes mesmo que tal pensamento aflorasse-lhe na mente ainda em torpor.


                                                                          *      *      *
    

    A gostosinha estava afobada, com os bolsos cheios, cabelos esgrouvinhados, olhos saltados das órbitas, com uma bolsa maior que ela ás costas. Parecia uma caipora.

    A sala de estar estava revirada. TV, lustre, cortinas, mesa de centro; destruídos. Como se um furacão portátil ou um terremoto particular houvesse passado por ali. Os porta-retratos, todos, estavam pisoteados.

   - Caralho, sua louca! Por que cê fez tudo isso? - quis saber, com a mente ainda torpe, enquanto descia, de pernas bamboleantes, o ultimo degrau da escada.
   - Burro! A polícia vai pensar que foi uma desforra.
   - Quê? Desforra? Cê tá maluca, porra?
   - Pensa bem, gostoso! O corno é promotor público. A polícia com certeza vai pensar que alguém, sei lá, algum peixe graúdo que ele fudeu na justiça, se vingou dele dessa forma. É uma boa forma de despistar.
  - É mesmo, ó. Não havia pensado nisso.
  - Já pegou o que precisava pegar?
  - Já - sorri.
  - Então vai lá e arromba a porta da frente.

    Meti o pé na porta com tanta força que as dobradiças cederam sobremaneira, e o ferrolho escangalhara-se por inteiro.

   - E você? Já pegou o que queria? - perguntei á gostosa, ainda ofegante. O sabor doce da mulher ainda impingia um toque suculento na minha língua.
   - Muito mais do que isso. Estamos feitos!
   - Então vamos dar no pé.
   - E minha irmã?
   - Que tem ela?
   - Como assim? Combinamos que você a amarraria, amordaçaria e coletaria as jóias na segunda gaveta do criado-mudo. Apenas isso, sem machucá-la. Foi o que combinamos, não foi?
   - Ah sim. Eu sei, pô. Tudo tranquilo.
   - E ela ainda tá amarrada?
   - Tá, tá sim - disse, num atropelo - Vamos dar o fora logo.

    Saímos pela porta dos fundos, que dava pro jardim artificial da mulher. No caminho, enquanto a gostosa corria toda serelepe à frente, carregando à custo a grande mochila, os bolsos do short cheios de artigos que tilintavam e que no momento eu ignorava além da dor aguda e característica que me subia do saco aos rins, passei por baixo da goiabeira, perto dum balanço de criança colorida dependurado num galho baixo, e apanhei uma goiaba ainda verde que estava ao alcance das mãos. O gosto talvez burlaria o mel fresco que se impregnara na minha boca, o mel que escorreu farto do corpo da mulher que dormia.
    
 

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