sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Quatro Anos, Cinco Meses e Seis Dias

                                                               
                                     

    Mesmo muito novo, eu não era alheio ao mundo em redor. Muito pelo contrário: á tudo eu media e diferenciava, e me interessava bem mais naquilo que poderia fornecer-me algum prazer do que algo que me forneceria alguma diversão, se bem não entendia muito bem o pleno significado do prazer naqueles meus anos castos e gloriosos. As primeiras descobertas de uma criança, se não assustadoras, são confusas e patéticas, e já que carregamos elas pelo resto de nossas vidas, tendemos à sacramentar esses idos momentos de curiosidade e fascinação, como no dia longínquo em que eu, por um motivo qualquer fui até a cozinha da minha casa e topei com minha mãe entre os braços de um outro homem que com certeza não era o meu pai. Mamãe continuava vestida, mas fiquei confuso ante o fato de que o homem, que eu jamais havia visto antes ou depois disto, estava com as calças arriadas, e a coisa entre as suas pernas peludas - semelhante a coisa que havia entre as minhas, porém dez vezes maior - permanecia rígida e tersa, como um pedaço de madeira. Não haviam percebido minha silenciosa entrada no recinto, o que era compreensível no momento - estavam eles profundamente entregues ao ato de beijar-se, e o faziam com avidez e espalhafato. Eu fiquei estupidificado - não entendia absolutamente nada do que se passava. Encostados ao fogão, eles sorriam e se beijavam, e observei quando mamãe, enquanto sussurrava algo rápido - e certamente engraçado, talvez uma piada, pois o homem respondera com um riso cristalino - agachara-se até tocar ambos os joelhos nos ladrilhos da cozinha. Porém, segundos (talvez milésimos) de fazer o que hoje em dia compreendo perfeitamente o que faria, murmurei: "Mãe?"
   
   - Oh, porra! - exclamou o homem, abaixando-se feito um raio para levantar os jeans e afivelar o cinto de couro negro. Dada a posição ajoelhada de minha mãe - como se rezasse - a cabeça do estranho, com os cabelos lambuzados de gel fixador, chocara-se contra o ombro esquerdo dela, produzindo um ruído surdo - Merda! Merda! - num íncrivel reflexo contínuo, o pinto do cara, agora totalmente molenga, desaparecera além duma ridícula cueca laranja-abóbora.
    
    Enquanto se ouvia os tinidos da fivela do cinto sendo fechado, mamãe postara-se como uma estátua de cobre ao seu lado, e a sensação que me invadiu ao observar sua expressão fora a mesma que tive quando arremessei um tijolo contra um filhote de gato que passeava despreocupadamente no quintal de casa. O animal, não percebendo o perigo que se aproximava, foi tragado por ele - o projétil espatifara sua pequena cabeça. Lembro que não fora aquela a minha verdadeira intenção, nem sei por que cometi tal crueldade, mas ao testemunhar o gatinho ser por minhas mãos trucidado, eliminado sem defesa alguma, assassinado sem julgamento ou pena, aquilo me doeu, e doeu muito. Entrei em casa correndo e chorando e contei à minha mãe o que fizera, reiterando que não fora de propósito. Ela, então, me levara pela mãozinha gorda até o local do assassinato, e dotada de imensa paciência, orientara que prestasse o mínimo de respeito ao cadáver, sepultando o mesmo no terreno baldio que situava-se na esquina da minha rua. Finda a tarefa, houvera por parte dela uma ligeira preleção sobre a importância das vidas alheias, sobre impensadas atitudes (ainda que não tivesse usado tais palavras) e uma concisa reflexão sobre amar ao próximo que, na época, muito me confundira. Mamãe me acalmara, mas o temor experimentado daquele dia ficaria para sempre gravado à fogo em meu ser. E agora, olhando por outro lado o prisma das circunstâncias, era ela que tinha arrebentado a cabeça do filhote de gato - ela me olhava como se esperasse e temesse uma ríspida censura, como se já adivinhasse que eu certamente ordenaria o sepultamento do animal.
   
   - O que foi, filho? - perguntou, um devastado e efêmero sorriso no rosto que sempre fora bonito.
   
   - O que tá fazeno?
    
    O estranho começou á rir. Eu sorriria também, não tivesse completamente desnorteado. Mamãe olhou para ele portando nos olhos lacrimejantes um protesto mudo e sem corpo.
   
   - Esse é o amigo da mamãe e do papai. Estavámos brincando, isso apenas.
   
   - Isso mesmo, estávamos só brincando! - disse o homem, na voz uma indizível diversão. E mamãe:
   
   - Porquê você não continua brincando lá fora? O que aconteceu?
   
   - O sol tá quente dimais.
   
   - Tive uma ideia - disse o homem - Que tal um sorvete? Cairia bem nesse calorão, né?
   
     Apanhou sobre a geladeira uma densa carteira de couro. Entre documentos, cartões de visita amassados, recibos esquecidos e holerites manchados de graxa, apareceu uma nota suja de cinco pratas. "Tó. Compra um sorvete, pra tu e pros teus amiguinhos. Ou qualquer outro doce, se tu quiser."
   
    Não bastara o dinheiro sujo, que lograva comprar o meu silêncio, para também conquistar o meu afeto. Estávamos brincando; odiei-os por isso - ódio confuso e incompreensível, potenciado pelo claro fato de que mamãe brincava com o estranho de uma maneira que jamais a vi brincando com meu pai. Durante a existência da ligeira pausa que se seguira ao oferecimento da propina, eu os avaliava, aquecido sobre o manto da desconfiança; mamãe por vezes, em seus frequentes momentos de bom humor, brincava comigo, fazendo-me cócegas, cobrindo meu rosto de beijos úmidos e soprando forte minha barriga, produzindo um som de intensa flatulência que muito me divertia. À noite, prestes à dormir, recebendo sereno a sua recomendação de dormir com Deus e com os anjos (Não, com os anjos não! eu dizia sempre, movido por um temor inexplicável pelos assistentes de Deus), mamãe curvava-se sobre mim e aplicava leve beijo em meus lábios pequenos. Também seria essa uma brincadeira semelhante àquela, com o estranho?
   
  - Vai, gordinho; vai lá comprar teu sorvete - disse o homem, gesticulando com a mão cheia de anéis.
  
     Eu segurava a nota encardida, uma quantia muito além do que já recebera naquela minha airosa infância; eu estava rico, mas por que não estava feliz?
   
   - Vai, filho - pediu minha mãe, quase encarecida.
    
    Uma conclusão incompleta e opaca de criança iluminou-me as ideias: talvez mamãe não ousasse brincar daquele jeito com papai porque ambos se encontravam numa posição além de qualquer brincadeira, como os meninos que beijam e tocam as partes secretas das meninas no terreno descampado atrás da escola, mas que não seriam capazes de repetirem a façanha com as suas irmãs. Ao que me concernia, o inferno aguardava em insidiosa fervura àqueles que beijavam e tocavam os segredos das próprias irmãs - também seria assim em relação aos nossos pais? Era certo que os prometidos casais, através da sacralização do casamento, tornavam-se uma só alma, um só sangue, um só coração, à ponto de parentelarem-se, rebentos do mesmo Pai, irmãos-cônjuges de diferentes famílias, entes não-consanguíneos? Ocorreu-me que se constituiria pecado mortal caso os pais brincassem daquele jeito entre si, e tal como eu, que xingava e pulava e batia nos amigos da escola à guisa de diversão, sabendo muito bem que tais ações seriam severamente punidas se, por exemplo, esses amigos fossem simplesmente meu pai, mamãe - sempre uma brincalhona - procurava acertadamente se divertir com qualquer um que pudesse desprender-se de um tempinho para aceitar suas brincadeiras, como que protestando contra o respeito que a impedia de brincar assim com papai. E quem melhor que os amigos para nos divertir em momentos de incômoda solidão, esses momentos que sempre eclipsavam o brilho acastanhado dos olhos de mamãe? Ela sempre fora solitária - era claro que mereceria divertir-se, sorrir, ter amigos; eu sempre quis o bem dela. E, naqueles concisos e detalhados minutos, eu quis, mais do que qualquer outra criança da minha idade, ser conhecedor de tais brincadeiras.
   
   - ´tá bem - assenti, premindo a mão sobre a nota suja de cinco que se umedecia com o suor. Enquanto cruzava a porta de entrada, fui ainda alcançado pela recomendação materna:
   
   - Não vá muito longe, meu bem!
    
    Enquanto descia as escadas para o térreo, com a minha fortuna bem segura na mão direita, o que me veio à cabeça, uma imagem recente e tão violenta quanto um golpe contra uma criança, fora o pinto do cara. Grande, torto e peludo, muito peludo. Certificando-me da ausência de testemunhas, escondi-me no espaço bagunçado sob a escada, comumente utilizada pelo senhorio como um depósito para as inúmeras garrafas de cerveja vazias consumidas em seu boteco de esquina; em segurança nessa solidão, por entre vasilhames empoeirados e trincados nos respectivos engradados, abaixei meu short azul até os calcanhares e me examinei. Ele ainda era bem pequeno, lembro-me da comparação à uma larva de borboleta que naquele momento me sobreveio á cabeça, mas muito me admirou o fato de que ele, futuramente, seria munido da específica habilidade de crescer à olhos vistos, como se estivesse vivo, açodado por estímulos variados, desde visuais até tácteis. Massageei-o com os dedos e obtive a certeza de que essa habilidade eu receberia com o tempo. Mas permaneci feliz com a descoberta, com os tempos áureos que me aguardavam e com a revelação da sorte de ter nascido homem - somos por Deus presenteados gratuitamente com algo que muito diverte as mulheres, enquanto entediadas e solitárias. Tal como mamãe tão alegremente fazia com o seu amigo.
    
    Vesti-me novamente e dispunha à ganhar a rua e obter os prazeres efêmeros que poderia proporcionar uma nota de cinco pratas à uma criança quando, seguido pelos seus próprios e pesados passos, descia pela escada o estranho amigo de mamãe. Alcançara os degraus mais baixos, levara aos lábios espessos o único cigarro de um amassado maço de Free apanhado no bolso do jeans surrado e se imobilizara ao me ver, nos olhos uma surpresa misturado, pouco depois, à um maldito divertimento. Parado ao pé da escada, com gestos pacientes e ligeiramente cansados, riscara o fósforo - por um minuto pensei que a pequena chama queimaria parte do seu bigode negro - acendeu o cigarro, abanou o fósforo pra matar o fogo, amassou o maço vazio e lançou-o à um canto. Um sorriso insolente aparecera lento sob a bigodeira.
   
   - Dê lembranças ao seu pai, gordinho - disse ele ao passar por mim a afagar as ondas louras da minha cabeça. Atravessou o portão gradeado e ganhara a avenida. Foi a ultima vez que o vi.
    
    Enquanto observava o estranho amigo dos meus pais entrar numa Kombi branca e sair em disparada rua abaixo, fui estranhamente, ainda que de maneira um tanto tardia, avassalado por uma ânsia peculiar, algo que me adoçava e boca e me fazia tremer. Eu não sabia o que era, só tinha a certeza de que era a mesma sensação que, por vezes, me invadia quando eu comia uma grande quantidade de doces. Naquele momento eu estava momentaneamente rico, havia sido brindado por profundas e esclarecedoras revelações que certamente fariam com que eu enxergasse o mundo de maneira diferente - havia ganhado dez anos num intervalo de dez notáveis minutos. Mas que segredo era aquele que cocegava as minhas partes secretas, que encrespava meus lábios, que alumiava meus olhos? Eu não saberia dizer, mas conhecia uma pessoa que certamente me ajudaria. Alguém que pudesse me ensinar, me guiar pelos cardos das novas descobertas, desse meu admirável universo particular que se espraiava dentro de mim, alguém que orientaria uma ávida criança em meio ao seu próprio big-bang. Ela, decerto, estaria agora escovando os cabelos na casa ao lado.

cont.



terça-feira, 11 de junho de 2013

Perda e Culpa






    Preciso discordar do Leminski naquele Nenhuma dor pelo dano/todo dano é bendito/Do ano mais maligno/Nasce o dia mais bonito.    
    Tive um ano do cão. Só a gente sabe dos danos que essa vida nos causa. E eu, olha, eu fiquei totalmente danificado. Algumas pessoas deixam um rastro tão maravilhoso na vida de outras que não consigo ver suas repentinas ausências de outra forma senão essa: um dano. Um rasgo. Um aleijão. E não, não passa. Nada passa. Tudo que nos acontece fica marcado de uma forma ou de outra em algum lugar. A gente pode até achar que passa, pode achar isso nos momentos bons, mas aquilo (leia-se saudade), fica lá, entranhado em você. Trauma pode se manifestar em forma de raiva, de desprezo consigo mesmo, pode virar uma repetição de padrão destrutiva, pode te deixar pra sempre com medo, pode te fazer ficar por demais destemido. O que consigo ver que aconteceu comigo é o seguinte: eu sequei. Me sinto todo esfarelado. Danificado. Rachado como um terreno arenoso onde é necessário um instinto filho da puta pra poder sobreviver. Até nasce uma coisinha ou outra ali, mas qualquer coisa mais delicada murcha e morre rapidinho. É assim que eu ando me sentindo. Calcificado por dentro.    
    Há algo que escrevi outro dia, um simples organograma (escrito de maneira apressada num bloquinho de rascunhos amarelos da empresa), que traduz muito o que sinto agora.

    

    A PERDA, E SUAS FASES.

Fase 1 - Negação: Nada disso está acontecendo. É um sonho.
Fase 2 - Raiva: Como teve o mundo CORAGEM de fazer isso comigo? FILHO DA PUTA!
Fase 3 - Depressão: Sim, aconteceu. E rasga por dentro.
Fase 4 - Ressurreição: Rasga mais cura. O negócio é um cicatrizante (resgate da própria vida)
Fase 5 - Ressurgimento e vida: (dispensa comentários)

*Eu queria não ser assim, tão dramático, não ser tão intenso, não ser tão. Maldito ascendente escorpião.
**(Minhas escusas, mas preciso culpar algo pra me sentir menos culpado).
***A desconfiança que me segue quando percebo que estou, nesse exato momento, entre a Fase 1 e a 3.

    
    

    Existe a perda, e existe a culpa. E agora invejo à todos os outros que não carregam dentro de si essas duas irmãs, como eu carrego.
    
    Agora, a culpa.
    
   Eu não sabia o que era a culpa, esse prisma escuro que muda nossa cabeça com o passar das épocas. Por essas e outras gostaria de voltar à ser criança, de voltar à me sentir culpado apenas porque não correspondi as expectativas dos meus pais nas evoluções escolares, ou quando derrubei o jarro de cerâmica da sala, que espatifara ao chão em mil pedaços. 

    Agora choro, como as crianças, se bem que não de maneira tão inocente, ainda que sincera, como elas. É a minha culpa que faz com que eu enfrente e me conforte com a dor dos punhos cerrados, quando, em meio às lágrimas surdas, começo à socar as paredes. Auto-flagelação, foi o que disse a minha terapeuta de olhos doces. A culpa é minha, a decisão de socar as paredes é minha, e se me sinto bem com isto, o que vale a opinião alheia? Admito que não saberia responder se me dissessem por quem eu sinto tanta culpa. Nada poderia eu fazer quanto ao destino irremediável que se abatera sobre mim, seria a resposta mais plausível. Mas seria apenas essa a resposta que eu deveria lançar ao mundo? Odeio muito o fato de que, se a mim fosse dado o luxo de retornar ao passado, eu retornaria apenas para fazer tudo de novo, e quase da mesma maneira: amar do mesmo jeito que a amei, beijar do mesmo jeito que a beijei, brigar do mesmo jeito que costumávamos brigar, pelo mais tolos dos motivos. O diferente, apenas, seria: haveria mais carinhos, menos impaciência e mais atitude - foi a falta desta que a condenara, e que foste castigada pelas minhas mãos, que você sempre imaginara amorosas para contigo. Você estava sem forças, e eu deveria ter lutado no seu lugar, para salvaguardar-lhe a vida. Era o minimo que eu deveria ter feito. Reside aí a minha culpa.

    Esses textos horríveis se tornaram a forma mais benévola de expiação. Para mim, é uma distração necessária. Mas não posso, infelizmente, afundar-me ainda mais no mar dessas escritas, pois ainda vivo e vivo, ainda que de modo automático, como um boneco cheio de estopa e serragem. E é quando estou longe dessas distrações que ela vem e se achega, a culpa, como um pássaro enorme, fedorento, de olhos vermelhos, garras afiadas. Choro baixo, relembrando sorrisos e trejeitos, vozes infantis e banhos tomados em conjunto, o hábito de dormir até tarde num dia de domingo, o vídeo-game jogados em conjunto, cada música, cada pedaço de goiaba mordida, doida que era por goiabas. A culpa vem e me cobre de maneira rude, como se eu fosse uma puta. Dou um ou dois socos na parede, penso em remédios e giletes, e adormeço com umas primeiras linhas de um possível texto melancólico já fresco na mente.

    A questão é: sinto que não sei mais sentir, não sei mais me deixar sentir, não sei mais me entregar. O foda é que fingir é comigo mesmo, finjo pra agradar, pra satisfazer e eu que me fodo. Nunca pensei que passaria por isso. A única vantagem é que não quebro mais a cara porque procurarei não mais cair, e se cair, não tem sangue pra jorrar, não tem coração pra bater, não tem porra nenhuma já há alguns meses. Eu até tentei mentir que tinha e só consegui sentir ódio. Ódio de mim, ódio do que está acontecendo comigo, ódio desse presente de grego que me deram e uma frustração inenarrável. Acho que agora posso dizer que esse sou eu. Eu era um pedaço de uma coisa feliz, um fragmento pequeno e incompleto de um cara satisfeito com a vida que pensei, realmente pensei, que vingaria e que iria perdurar por um bom lapso de tempo. Bom, eu tentei, mas mal sabia eu que alguma coisa conspirava quanto à isso. E agora, que tudo já passou (ou não passou, sei lá), eu sinto muito, mas eu não sinto mais nada. Apenas a saudade que ela deixou.

    Por ora, me levanto, me refaço e me desfaço por todos os dias que me sobrarem de vida.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

A Balada do Amor Recém-Descoberto








    Porque é assim mesmo, 
    
    amor dói, é lindo e fodido e difícil e maravilhoso e extasiante e cansativo, exaustivo, agônico e longe de feliz para sempre. Muitas vezes será feliz mesmo e seremos iluminados, luzidios, morrendo de tesão e candura, nadando em luxúria infinita, indivisíveis. Uma hora o indivisível se divide para que um e um possam ser dois e um. 

                                         Sei que chegará uma hora em que tudo que você vai desejar é ficar só, quieta, no silêncio, sem ouvir nada além das vozes cruéis e gordurosas na sua cabeça. Não é hora de ir embora; é hora de calar e olhar para dentro. Sempre vou entender porque também preciso da solidão, preciso muito. Ninguém vive o tempo todo em função do amor senão morre, morre sufocado, morre seco e sem criar, morre obcecado e afogado em frustração. 

                                                                                         Amor comigo, meu Amor, nunca vai ser plácido. Os altos serão os mais altos que você jamais imaginou, os baixos eu vou controlar e nunca vou te afundar junto. Não sou água parada, sempre fui turbilhão, um turbilhão incontrolável de coisas desordenadas e esmagadoras e lindas, destrutivas e fecundas, irresistíveis e desumanas, posso ser devotado e incompetente, doce e amargo, categórico e insuportável, carente e fútil, apático e radiante, cada dia um pouco de uma coisa nova e sempre incandescente. 

Esse sou eu. 

                              Minha alma e tudo que sair de mim será assim e sua vida nunca será entediante. Às vezes você vai ter vontade de ir embora. Às vezes eu também. Não é fácil. O que não pode é se acovardar e fugir, isso não pode, não pode deixar o negrume vencer o que precisa ser argênteo, não adianta ir embora para descobrir que quer voltar de novo e de novo porque um dia eu não vou mais estar aqui. 

                                                                            Não quero que volte por ser viciada em mim, quero que você fique porque quer. Um dia minhas energias terão se esvaído e será o dia do fim. 

                                                                                                                                 O Fim. 

Se esse dia chegar – e não quero que chegue, não quero, não quero - vai ser mais uma das minhas mortes. mas ainda tenho algumas vidas para gastar, algumas saúdes pra flagelar. Não vou acabar. Não acabo. Provavelmente farei de novo e de novo depois de lidar com o fracasso, depois de chorar muito e não acreditar em nada, bem como faço atualmente.

                                  Me regenero e volto. Eu não vou acabar, não enquanto acreditar em coragem, certeza e amor sólido. O resto não me derruba. Se derrubar eu já aprendi a cair em pé e voltar a respirar.

                                                                            Mas eu prometo, com as mãos ainda pensas, palmilhando por esse caminho que está levando à ti (apresentar-lhe-ei Drummond, minha linda) que não terei por ti a mesma benquerença que tive pra'quela por quem esmoreci morbidamente pela repentina ausência; os amores, ainda que sólidos, ainda que não sejam secretos nem eternos, são diferentes um do outro. À ela dei o melhor e o pior de mim, amando-a como um louco pelos dias que se passaram;

                                                                                                                             à você darei o melhor e o pior de mim, amando-te com um louco pelos dias que se seguirão. 

E o resto, todo ele, não importa. Lembremos de sermos felizes. Ainda podemos achar a felicidade, ainda podemos amar. Somaremos à este mundo àqueles tipos de casais que, quando se olham, rola a mágica de quando uma chocólatra olha uma barra de chocolate branco. Seremos necessários um ao outro. E essas nossas necessidades se baseará em noites mal dormidas com mensagens simplórias pelas madrugadas, tudo isto regado à sorrisos bobos e rascunhos de cartas mal escritas.

                                           Vou te esperar todos os dias, independente de todas as tuas direções, após a epifania de que em todos esses anos só existiu você. Desfilaremos felicidade pelas ruas. O dia e o esquecimento não vão cair, não voltarei à vida de pingue-pongue, aqui-e-lá com a única certeza da distância da sanidade. Não atenderei, um dia desses, o telefone e me entregarei finalmente à presença da solidão, chutando a quentura da humanidade para a sarjeta mais próxima, para nunca mais voltar. 

                                                                                                                             Não com você.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Sobre Pernas Cruzadas






  um descanso, pra elas ou pra quem as cruza?
  Sempre tem aquele momento de descruzar,
  quando a perna tenta se safar,
  onde não encontra mais conforto,
  fugindo da dormência do corpo;

  o que não dizer sobre pernas cruzadas:
  são como dois braços formando um deslaço,
  constatação: não é muito fácil dizer "o que não dizer" sobre alguma coisa.
  Escrito na hora, sem pensar muito,
  liberdade no dedilhar do teclado,
  sem olhar pro tempo ou pro lado.

  Minto; olho para o lado
  e agradeço à Sharon Stone pela pífia inspiração.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Crônica alegre, exceto pelo fato de ser mórbida









    Não tinha vícios, exceto a televisão, o cigarro e a bebida. Horas e horas esparramado em seu sofá, diante da TV soberana, devorando batata frita e hambúrguer, cercado por onipresentes latas de cerveja, cheias e vazias, as pernas abertas dando espaço para a banha protuberante que lhe escapava pela cueca úmida, e pareciam amalgamar com o tecido desgastado do sofá.

    Não era um antissocial, exceto pelo fato de não conversar com uma pessoa há mais de uma semana, já que os últimos dias haviam sido de uma intensa agitação na novela das 8, de muita emoção no seu reality show preferido, muita criatividade nos programas de auditório dominicais – sem falar na fase decisiva do campeonato de futebol da primeira, segunda e terceira divisão, cujos jogos, ele não perdia nenhum.
    Não era um cara solitário, muito embora nunca tivesse namorado a sério, sendo abandonado pelas paqueras quando a repulsa assumia o controle, diante do seu incorrigível comportamento anti-higiênico. Não que fosse insensível, mas achava sua vida tão perfeitamente completa e emocionante que a inserção de novos personagens só tornaria a peça cansativa.
    Não podia ser considerado um vagabundo, apesar de viver às custas da aposentadoria do pai falecido e da mãe que fazia questão de viver sozinha, além do aluguel que recebia do apartamento da família. Segundo ele, sua função era fazer a máquina do capitalismo girar. E fazia isso com um prazer assustadoramente relevante. Os parentes costumavam reclamar, até que ele desligou o telefone e não atendeu mais a porta – eles sempre iam ao seu apartamento nas melhores piadas do sitcom de sábado a noite, aí era foda.
    Não era exatamente um ser morto, exceto pelo fato de já ter infartado muito antes desta crônica começar a ser escrita, e até agora, ainda não ter sido descoberto pelos vizinhos, já que o odor putrefato vindo daquele apartamento era algo que todos já estavam acostumados.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Perfeita Imperfeição


   







    "Se tem covinhas. já é automaticamente linda", penso comigo mesmo, entre um suspiro e outro, que foi o lapso necessário para o aparecimento da menina, que, leve e faceira, aparecera no lugar previamente combinado.

    Desde já, confesso: as covinhas me fascinam. 

    Há rostos e rostos no mundo, mas são os rostos das mulheres que se assemelham à rosas em meio ao mar de capins silvestres, que são os rostos masculinos. Em todas elas há beleza, mesmo as que são chamadas feias pelos costumes limítrofes da sociedade - essas ultimas são apenas donas de um tipo diferente de beleza, feias e belas ao mesmo tempo, como os quadros de Mondrian, como as modelos magérrimas das grifes europeias, como um ornitorrinco. Não costumo filtrar as belezas que me aparecem no dia-a-dia, ainda que geralmente filtrem a minha (ou a falta de). Nem sempre a beleza está naquilo que vemos, mas naquilo que nossa alma costuma ver, mas lamento a clausura que há na filosofia que permeia o mundo que vivemos, um mundo onde a estética espanca a poesia, onde a beleza não é mais vista como algo relativo, e sim com a abundância das bundas seminuas, à balouçarem através dos programas televisivos. Uma unica coisa, apenas, burla a minha fútil teoria do relativismo da beleza

    Se tem covinhas, já é linda.

    As pessoas são estranhas - eu, inclusive. Você certamente pensará: são só covinhas, nada mais. Outros, mais realistas e menos amados, tomará esse aspecto como uma simples e sutil imperfeição num rosto humano, tais como as sardas. Mas a verdade vos digo: não me privo ante o pensamento fortuito de que há um quê de duvidosa e sensual inocência numa mulher com covinhas. Não num seio parcialmente à mostra, não numa bunda arrebitada, não numa pessoa que se orgulha em poder realizar um "quadrado de 8", o que quer que seja essa porra; aproveito a natureza egoísta e individual dessas mal-afamadas escritas e sussurro, apenas: covinhas.

    Imagino-as primeiramente, e o resto é construído por si só: um rosto redondo, umas bochechas rosadas, olhos limpidamente castanhos, lábios perfeitos. Ao meu lado, ela sorrira pela primeira vez, e as covinhas, belas imperfeições, apareceram de chofre. Todos esses sutis aspectos saltaram-me aos olhos desde a primeira vez que a vi, até o ultimo minuto.


    A cadeira de rodas foi só um mero detalhe.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

The Nameless




Havia vidas ao meu redor, e sem ser percebido eu transitava por elas, as redescobria e avaliava, naquele marasmo de ônibus e calor e chuva que outra coisa poderia eu fazer? Aquele senhor engravatado, por exemplo: em pé, seguro por uma das barras de ferro de segurança do ônibus, uma pasta de couro pardo numa das mãos, paletó puído e acinzentado de horrível corte, a gravata dourada-escura discretamente desamarrada no pescoço, um par de angustiosas olheiras sob os olhos levemente caídos: o que pensaria ele? Em trâmites legais, em processos trabalhistas, nas coxas da jovem secretária, no seu desempenho, duvidoso, na entrevista de emprego de agora há pouco? O homem espadaúdo sentado logo abaixo dele, trajado ainda por um uniforme de serviço terceirizado, umas canetas no bolso da camisa suja, as botas de serviço maculadas de lama, umas gotas de suor que escorria-lhe das fontes morenas: em que estaria pensando? No dia de folga que se aproximava, nas peças de escurecida carne de segunda que deveria comprar no açougue de bairro, nas dificuldades de se criar filhos pequenos no subúrbio paulista, na amante de bordel que deveria visitá-la em algumas horas? A mulher do vestido longo, de um vermelho esmaecido, sentada logo atrás do trabalhador sujo, seios petulantemente caídos e aninhados quase contra a vontade no decote grande, um colar de imitação de pérolas que lhe pendia do pescoço magro, os lábios protegidos por espessa camada de batom castanho: no que deveria estar pensando? No pênis pulsante do enteado adolescente, no revelador registro no motel de péssima qualidade, nas fantasias não realizadas com o marido idoso, na menopausa que já se revelava íntima? A senhora de cabelos esgrouvinhados, ao lado da senhora de vestido vermelho esmaecido, algo de carvão fresco no tom de pele, rugas úmidas que singravam-lhe a pele repuxada ao redor dos olhos amarelados, abanava-se com uma folha de papel, mais calorenta que um besouro negro sob o sol escaldante: em que pensaria ela? Na osteoporose que não a largava, no despacho de candomblé que seria obrigada á fazer hoje á noite, no marido bêbado que precisaria ser uma vez mais carregado do botequim pra casa, no apartamento pequeno e chique da madame que teria que limpar amanhã cedo, lá na casa do caralho?
   
    Era uma espécie de mínimo passatempo que, para mim, um pouco sem saber, tomava as dimensões de um secreto ritual. Uma feira de tristes estereótipos.
   
    E o que pensaria a garota, esta garota, exatamente ao meu lado, com o seu cabelo solto e o cheiro de lavanda, e os seus lábios umedecidos, e os seus olhos quase fechados, e as longas pestanas, ela que permitia perder-se em pensamentos, por sobre o balanço do ônibus, por sobre a minha secreta e dissimulada admiração, o meu tesão suscitado pelos seus mistérios e a reserva de sua presença? Um presságio galopou minha mente entorpecida á simples visão dos seios rijos que balouçavam muito perto, e a visão do banheiro ainda longe (o banheiro do pessoal da administração, de preferência o feminino, mais cheiroso e organizado) brotou-me no espirito de maneira confidente. O programa noturno estava já pré-programado, e eu não estava feliz.
   
    O ônibus sacolejava, e ainda que chuviscasse lá fora, o calor oprimia, acentuava-se pelo obsedante atrito dos muitos corpos espremidos e pelas janelas inconvenientemente cerradas, e mesmo estando elas muito próximas de mim, através delas eu insistia em não olhar, não ainda - meus olhos, geralmente distraídos, geralmente postos no chão, rolavam de quando em vez para dentro do decote generoso e úmido da menina no banco ao lado, que se permitia entrever um bom pedaço da carne tenra e láctea aninhada justamente no tecido de renda negra do sutiã. A moça talvez não passasse dos seus vinte anos, sendo mais provável que se situasse em algum lugar dos turbulentos dezoito ou dezenove, certamente universitária, denunciada pelo saiote de tecido leve pregueado que descansava sobre suas coxas roliças, e dois ou três livros densos, de páginas encardidas, sobre seu macio colo. Eu lograva com facilidade registrar cada pedaço daquele campo secreto que tentava perfurar, pois mais tarde solitariamente resgatá-lo-ia, e por meia dúzia de vezes procurei, rabo de olho, fixar por um pedaço de segundo o semblante da moçoila peitudinha - seria interessante se, juntamente com o resgate dos seios prováveis, de lambuja viessem eles carregados com a face sorridente de sua dona anônima. Ela olhava para frente, uns olhos semicerrados, uns cílios curvos e negros, uma longa madeixa escura pousada delicadamente sobre sua face esquerda, deixando-se levar pelas sacudidas do ônibus em alta velocidade, espremida talvez entre alguma reminiscência perdida, ou simplesmente tentando capturar, no arquivamento vasto de sua sapiência estudantil, alguma questão penal ou clínica que provável se lhe afiguraria na prova de hoje. Sem sucesso, tento divisar algum anel ou aliança que possa enfeitar o frágil anelar da menina, o que denunciaria a existência de um felizardo cujos seios o pertencessem, mas as mãos - finas, frágeis, revestidas de filigranas de porcelana - estavam metidas embaixo dos livros. E num ultimo sorver de coragem e determinação, imaginei os seios, aqueles seios, despidos e prontos para mim, livres de toda mácula e tecido, e desamor, à balouçarem no ritmo de uma paixão tresloucada e imensa, sobre minha cama de beliche e meu lençol monocromático de algodão, do Corinthians Futebol Clube. Mas como se fosse uma leve confirmação da leitura dos meus recentes pensamentos, a menina revelara, por uns breves segundos, uma mão esquerda pequena e branca, levando-a pela face e aninhando a mecha lânguida atrás da pequena orelha - como se enxergasse à olho nu o sol a pino, à mim fora difícil fixar o olhar através do brilho incipiente e intenso da aliança de prata que envolvia o longo anelar da moçoila.
   
    Uma esperança, ainda que remota, ruíra por terra. Mas teria eu a coragem de dirigir-lhe a palavra sabendo-a desimpedida de qualquer compromisso, livre de qualquer contrato que, mesmo ainda não sacramentado, já se mostrava selado e talvez fiel? Seria pouco provável que as coisas assim se constituíssem, a timidez era um miasma absoluto, era um corvo sorumbático que permanecia empoleirado sobre meus ombros, e que rasgava minha pele com as garras aguçadas, seguindo-me á todos os cantos, por todos os momentos que ainda me restavam de vida. Oh Deus, ela era linda, e a confirmação da existência do bem-querer que por ela em mim crescera como um ramo novo de peônias fora unicamente o quase doloroso estremecimento que eu experimentara ao mínimo e leve contato do meu braço no braço dela, quando de um sacolejo mais intenso do coletivo, que atravessava célere uma via malcuidada. Houvera um imperceptível impulso elétrico nesse suave roçar, eu juraria sobre isto, sendo talvez o meu desejo solitário, unilateral e excipiente, glorioso e maldito, impulsionado pela vaga cócega da mínima pelugem dourada que se espraiava pelos braços da garota. Tudo poderia ser, a vida era feita desses intensos detalhes, o paraíso deveria ser habitado por anjos iguais à esse, eu pensara antes de realmente pensar, enquanto observava, ainda com o rabo de olho, a garota aninhar novamente a mão revelada sob o esconderijo dos livros acadêmicos.
   
    A esperança, se é que ela existiu, estava aniquilada, sim, mas nada me impedia de continuar avaliando a inviolabilidade daquele corpo fresco e jovem, e homenageá-la depois no silêncio conturbado do banheiro da empresa, onde eu trabalhava por toda a noite, um auxiliar de limpeza, um grão de poeira entre o medonho mecanismo da sociedade. Era essa a sina dos virgens, era essa a minha cruz de madeira, o cardo que me perfura por cada minuto dessa minha vidinha idiota. Presunção minha refletir sobre esperanças e anseios, eu próprio me tomava como um desconhecido de mim mesmo, amnésico adolescente recém-curado que ainda não obteve o conhecimento da minha própria natureza, decepcionando-me aos poucos na gradativa crueldade que seria finalmente conhecer-me por inteiro: o limiar, há muito transposto, da vida adulta, o baluarte sólido da família, a incapacidade de se permitir, de amar e ser amado, de ter conhecido mulher. Minha vontade era retornar ás fantasias absurdas de quando se é criança, onde éramos nada menos que os oleiros de um mundo sempre em transformação, moldando com nossas mãos pequenas e macias e breves o barro primordial, a prima substância dos nossos recentes universos, de acordo e com a permissão do nosso prazer nem sempre tão cordato. Lembro-me que, ainda enovelado pelas graças de ansiar pelo fantástico, ainda antes de conhecer-me por inteiro, antes das pernas roçadas sob as carteiras escolares tão logo divisava os joelhos nus das colegas de classe, antes mesmo da oculta coleção de garimpadas páginas pornográficas de diversas revistas, amarrotadas e anteriormente coladas por algum ávido e anônimo leitor, ainda antes de tudo isso, eu dormia aquecido pela ânsia do "Controle Universal" e nas alegrias que este seria capaz de me dar. Embalado por um infância extremamente influenciável (e que criança não seria assim?), imaginava o mundo quieto, em perpétuo mutismo, ainda preenchido de pessoas, mas todas estas estariam imóveis, inertes, enclausuradas em seus próprios corpos e destinos, estátuas vivas de almas mortas, e eu seria o Harold Lloyd de dez anos de idade, bonito e sorridente, a vagar pelos monumentos orgânicos, escalar todas as pessoas que eu quisesse, invadir todos os supermercados e sorveterias, empanturrar-me de guloseimas até não mais poder, aproveitando que eu ainda não entendia, ou não me ocorria, sobre o sistema imperfeito dos alimentos perecíveis, sobre as chaturas das datas de validade. Com a fertilidade da mente baseada num filme B qualquer, cujo momento de exibição, nos dias da minha criancice, há muito fugira das minhas reminiscências, mas não o âmago da sua história (o protagonista, detentor de um controle remoto universal que parava o tempo e as pessoas, transformando-as em eternas estátuas, tépidas e pulsantes), eu adormecia sob a canção de ninar dessa tresloucada fantasia, com um sorriso no rosto - seria tão bom! Sim, seria muito bom ter o sonhado Controle Universal aqui comigo, na estafa desse ônibus, impotente testemunha do desejo, e não mais imaginaria comer até explodir aproveitando o fortuito poder do aparato Kafkiano e a incapacidade do tempo de escoar a sua interminável ladainha; a moça sem nome permaneceria extática, indefesa, a capacidade de mover um único músculo não passando apenas de um sonho bom. Meu Deus, o que eu faria com ela? Teria mesmo coragem de percorrer aquele corpo incolor e tenro com as pontas dos meus dedos intrometidos e frios, com esses amarelados olhos de verruma, com essa respiração forte que, eu imaginava, evoluiria até intermitentes bafejos que caracterizavam os meus ataques de asma, tão logo me vejo diante de qualquer forte emoção? Sentindo, dentro da caixa dos peitos, a sombra sutil do mesmo bafejo da mesma merda de asma, como se eu tivesse dentro de mim essa gaiola de andorinhas em revolução, ainda a avalio com a ponta do olhar vazio, esse detrás das lâminas cristalizadas dos meus óculos, e comendo-a com os olhos, olhos pequenos de porco na engorda, logo me ocorre o peso de aço que se abatera por sobre minha cabeça: não havia em mim o mínimo resquício de amor. Umedeço os lábios, me corrói um súbito desejo de abanar-me, de extinguir momentaneamente o calor medonho, mas eu sentia como que as juntas travadas apenas por estar ao lado dela -  e, no entanto, não era amor. Ao menos, não esse amor lírico de Romeo and Juliet, não o amor marginal d'A Comédia da Vida Privada, não o amor subversivo d'A Crônica da Casa Assassinada, não o amor quieto de Mário Quintana, não o amor ridículo de Fernando Pessoa, não o amor colorido e regional de Jorge Amado e seus agrestes, nem o surreal de García Marquez e Córtazar, não o sólido e seco amor de João Cabral, nem o mítico amor de Neruda, muito menos o sujo e esfarrapado amor dos mendigos do centro, o desapegado e necessitado amor das prostitutas, o desapegado e necessitado amor de Deus, o desapegado e necessitado amor da minha mãe - era o meu amor, intenso e de momento, e promíscuo e pervertido, que se limitava á mim mesmo, aos jorros de esperma, aos espaços vagos da minha mente em vertiginosa algazarra, uma gozada, já era, acabou-se, uma desgraça, uma descarga, lenços de papel, torneira aberta, banho tomado. Mais uma imaginada mulher, um imaginado mundo no limbo da minha memória. Em mim, a impregnada virgindade.
   
    Eu não a amava, e através desse pragmático inverso, eu a amava. E isso não era fácil, durante os lentos e penosos vinte e cinco minutos que ela durara em minha vida. Um velho se aproximava, emurchecido e escuro, sofrendo pelos compactados passageiros.
   
   - Senhor, por favor, pode sentar aqui - disse ela, esgrimindo uma voz doce e aguda, coroada por um sincero sorriso onde foi possível divisar seus dentes alvos enfeitados pelo aparelho ortodôntico; produzidas pela larga expressão de gentileza, um par de covinhas apareceram como que por encanto sobre suas faces de anjo caído.
   
   - Não, não precisa, mocinha. Estou bem, muito obrigado, viu? - aquiesceu o velhote, mostrando, também ele, sua dentadura de placas iguais, novinha em folha.
 
   - Por favor, eu insisto. Pode se sentar, minha parada é a próxima, já vou descer.
 
   - Então tudo bem. Deus a abençoe, mocinha.
   
    A moça, então, recolheu os livros, afastou uma vez mais o cabelo teimoso, sorriu novamente e preparou-se para ceder o assento ao velho. À mim, já totalmente esquecido e despojado da dignidade e do dissimulado desejo, ao menos por ora, ela se permitira a apenas uma oferenda: a luz de seus olhos dolentes, quando ao levantar-se ela me fitara exatamente pelo tempo de uma inspiração, ainda assim tempo necessário para que eu, agora e de uma vez por todas aquela teimosa e indefesa e sonhadora criança, dono único do "Controle Universal", finalmente me convencesse que, ao contrário do que eu sempre pensara (ou a vida assim me fizera pensar), havia, sim, as poéticas e causídicas sutilezas do mundo, havia a certeza de que a vida era realmente bela, insubstituível e suprema, ainda que não existisse o amor á primeira vista, tão indispensável no presente contexto. Ela possuía olhos grandes e aveludados, da cor do mel silvestre, ainda mais silvestre e meloso por detrás das longas pestanas, trabalhadas esmeradamente pelo lápis e pelo provável amor que possuía ela por seu homem. Sim, é claro, o contato perdurara por um relampejante momento, tão breve quanto o toque do fogo, mas divisando aquela luz vaga e cegante, aquele cintilante toque humano, finalmente convenço-me: ela amava. Havia alguém, haveria alguém, e ela amava, e amaria depois; aceitando uma vez mais as discrepâncias dessa vida assaz injusta, a mesma antimatéria que dava á uns o que não tinha outros - mas desejariam tê-los -, surpreendo-me por não ficar triste pela confirmação de que aquele inestimável coração já teria um dono, que o merecesse ou não, não me importava - ainda assim, era o dono. Não, agora eu não estava mais triste. Estava ali uma pessoa que talvez valesse cada sacrifício, cada chibatada, cada penúria se, através destas coisas, fosse-me concedido um fiapo de esperança que pudesse garantir seu coração, cujo regalo eu não seria merecedor e que a outro já pertencia. Não, eu não mais estava triste; com um inusitado e repentino altruísmo, estava feliz pela pessoa que cuidava dessa mulher, que a beijava, que aninhava aquelas mãozinhas nas suas, que afastava-lhe as melenas rebeldes atrás daquela orelhinha linda. Eu tinha que estar feliz pelo cara, que de outra forma o noivo seria mais respeitado do que pelo fato de ter conquistado aquela mulher sem nome? O amante anônimo da mulher, ainda mais mulher sob essa nesga de sol que incidia diretamente sobre seus acastanhados olhos, por algum motivo ou chances ou poderes que não caberiam à mim questionar no momento, conquistara-a ao ponto de com ela noviciar-se, ganhando o seu amor ao ponto dela aceitar com ele passar os dias de sua vida, sob planos e objetivos em conjunto, dois corações num só, conforme diz aquela pegajosa musica sertaneja. Por essa façanha, ele teria a minha eterna admiração.
   
    Ela levantou-se - não era alta, mas era imponente, respeitável como um busto de mármore, uma mítica figura de obsidiana - e o velho tomara solidamente o assento, desfazendo-se em agradecimentos; o leve e adocicado perfume de lavanda que se evolava da moça fora tristemente substituído pelo ranço de suor que se desprendia do idoso. No corredor do ônibus, convenientemente lotado á essa hora da tarde, ela se espremera com determinação, logrando alcançar as proximidades da porta de saída. Ainda assim a segui com o olhar, nada mais ganhando dela além da bunda arrebitada pelo leve tecido da saia - as bundas das adolescentes. E com indizível nostalgia acompanho, agora além da janela do coletivo, a moça parada na calçada do ponto de ônibus, procurando, com gestos atabalhoados, abrir o pequeno guarda-chuva vermelho, uma salvação em meio ao chuvisco infernal que á tudo enfarruscava no lado de fora. Finalmente, após a coleta de alguns passageiros, o ônibus arrancara, recomeçando o sacolejo; e ela ficara para trás.
   
    E eu ainda mantinha um sorriso no rosto depois do referido encontro, principalmente por saber que eu nada faria para refrear as minhas ideias tão contraditórias e meus pensamentos tão lascivos, sabendo que eu a amava mesmo não a amando, nem a ela e nem a ninguém, envergonhado pelo disparate de ter concebido alguma sombra de esperança e já imaginando a punheta futura, onde eu manejaria aqueles seios, aproximando-os um contra o outro, e beijaria intensamente a boca carnuda, saciando-me da sua saliva. O pau retorna ao seu repouso, aquietam-se as andorinhas do meu peito e nada faço para impedir a desvanecência súbita do meu sorriso - encosto a cabeça no vidro da janela, recoloco os fones de ouvido e não ouço a música, agora um simples rastro na minha consciência a origem de todo esse caos, debaixo do seu guarda-chuva vermelho. Sentindo-se resgatado por esse velho, envolto em seu antigo e anacrônico odor de suor, sustentando sobre os joelhos, numa granítica dignidade, uma bíblia densa e antiga, não mais me importo com a minha incapacidade de manter-me humildemente humano, de não saber amar o próximo, e creio que Cristo reescreveria esses ensinamentos tendo por base a minha natureza peculiar, se fosse dele esses dias frios. Há em mim apenas aquela sombra do sentimento que me transbordara nos meus tempos felizes de menino mimado, nas descobertas recentes do amor, e mesmo uma criatura frígida, mesmo escolhendo não mais influir em nada, mesmo incapaz de amar, não me custava aquele vácuo dorido, aquele oco autossuficiente, aquela mágoa passiva. Era um mecanismo de defesa, puramente instintivo - rebater essa hostil indiferença do mundo, a única forma encontrada de manter-me confortado nessa exclusão. Agora observo o mundo como o idiota que examina sua própria coleção de borboletas coloridas, trespassadas cuidadosamente por alfinetes, embebidas em alguma espécie de conservante ou o diabo que eles usam para manter intactos esses sutilíssimos cadáveres alados: apenas uma curiosidade velada, pouco me dando na telha se aquilo teria alguma importância na minha vida, magnetizado apenas com as frágeis, belas cores, atraído principalmente pelas espécies mais raras, as mais preciosas, as mais magníficas, como a moça sem nome. Em suma, mais um passatempo, e não há amor em um passatempo. Seria mais uma mania -  eu, com a minha mania de viver e não amar. Eu, com todas as minhas mágoas e nostalgias, era uma simples mania aquela minha vida, a minha vida diante das vidas dos outros. Mas a moça... dela eu não esqueceria depressa.
   
    Sob o guarda-chuva vermelho, em direção á provável faculdade, um marmóreo busto, as pestanas longas e os cílios negros, os seios á balouçarem ao sabor dos seus cadenciados passos, a aliança bem segura ao redor do dedo, talvez agora aninhando, uma vez mais, o pedaço de cabelo atrás da orelha: em quem estaria ela pensando?

             
                                                                               *        *       *

    Abriu o guarda-chuva vermelho, apertou os livros de encontro ao peito e aguardou o sinal fechar. No arranque do ônibus, ainda pôde visualizar o menino, sua silhueta agora improvável pelo movimento do coletivo, à olhar-lhe com atenção. Por uma ou duas vezes, no mínimo, ela acharia que ele iria lhe dirigir a palavra, perguntar as horas, onde estudava, etc., mas fora impressões bobas da parte dela. Pudera avaliar-lhe durante o curto trajeto do ônibus até a sua parada, e confirmou não ser de todo ruim o fato que certamente se daria se ele nela se achegasse. Mas isso não aconteceu. E até que era bonitinho, concluiu.

    Daniela é uma daquelas moças que se apegam mesmo à uma lembrança, uma imagem, uma reminiscência qualquer. Suspirou pesadamente e pôs-se a atravessar a avenida sobre a faixa de pedestres. Gostou do moço, e achou não ser justo colocá-lo na lista das pessoas cujas afinidades foram momentâneas.

    Sentiu que não o esqueceria depressa.

terça-feira, 19 de março de 2013

O Amor do Chefe



     Com frio.

   





    Ao Henrique.
 


    Por ter recusado vezes seguida os novos esquemas
    os novos planos
    as novas saídas
    as novas ideias,
    e sempre com aquele brilho maníaco no olhar que os amigos sabiam maldito
    o bando logo confirmou: o Chefe estava apaixonado.

    Mesmo eles
                      matadores sem coração
    Mesmo eles
                      maconheiros e cafetões
    Mesmo eles
                     marginais em ascensão
    Mesmo eles
                     com tantas mortes e sangue e vapores à pesarem-lhes nas costas,
                     puseram-se à perguntar: como desapaixonar alguém que detém o
                     poder de decidir sobre a inocência alheia?

   Mais: quem pode ser a alma que magnetizara alguém que sabiam ser desalmado?

   Selvagem e doente é o ser humano sem um líder.
   E por mais que o venerassem como bem deve ser um tirano venerado,
   repugnaram-lhes a ideia de perder o cabra para aquilo que chamam de amor, e que eles tão bem 
                                                                                                                              [desconheciam.

   Jamais souberam algo sobre o amor,
   nada além das instituições e das surras nas medidas que se dizem sócio-educativas.
   Nada além da palmatória do governo e das omissões dos direitos humanos (e humanos direitos?)
   Nada além dos beijos cáusticos e causídicos das putas nas esquinas do centro.
   Nada além do ranço de cigarro que flutuavam aquém de seus corpos verrugosos.
   Eles, assim como o resto da humanidade, jamais souberam de fato sobre o amor.

   Logo
   decidiram em uníssono: vamos apagar o amor dele.
                                       estrangulá-lo
                                       esquartejá-lo
                                       estuprá-lo
                                       comer e defecar esse amor, se possível
    
    Porque essa porra teima em aparecer quando menos é desejada?
    Porque os desejos teimam em serem desejados quando menos são necessários?
    Porque as necessidades nossas sempre nos levam a desejar sermos amados como bem se ama o amor?
    E se algo assim fosse tão bom como sempre tentam nos convencer 
    Porque muitos matam e morrem em nome desse amor, presente de Deus?

    Logo
    decidiram em uníssono: vamos erradicar o amor dele.
                                        varrê-lo do mapa
                                        destruí-lo                
                                        esmigalhá-lo
                                        e mijar sobre os pedacinhos.

    Nisso, repetiram ainda:
                                        e mijar sobre os pedacinhos.

                                                                                     
                                                                                 *
    
    Refizeram vezes sem conta os planos refeitos:
                                     o amor do Chefe seria tocaiado
                                                                              seria subjugado
                                                                                                   seria pisoteado
                                                                                                                       seria morto.

    E estavam contentes com a mal-nascida proposta:
    limpariam o mundo se do mundo livrasse mais um incômodo amor.
    Por que desse amor eram eles semelhantes -
    matavam e morriam por amor ao dinheiro...
                                                                 ... mas nada deve ser esperado por algo que se esconde além de 
                                                                     uma máscara resplandecente, mas tal um Deus Asteca,
                                                                     exige sacrifícios para o seu fortalecimento.

    Assim era o amor.
    Assim era o amor do Chefe.
    Assim era o amor que eles exonerariam do mundo.
           
   Assim era aquilo que exigia tanto de suas pobres vítimas
   Assim era a coisa que sugava a sanidade de todos e de cada um
   Assim era o amor do Chefe
                                                que eles mijariam por sobre os pedacinhos.


   
    Tocaiaram por dias a fio.

    Enregelaram-se.

    O mundo escureceu em derredor.

    Sentiram-se solitários e vazios.

    E quando mais não podiam esperar, o amor do chefe apareceu.

                                                                                *

    Apaixonaram-se em uníssono
                                                e mijaram-se uns nos outros.

                                                          




  
                                                                                                  

domingo, 10 de março de 2013

O Quadrângulo (Parte 4 de 4)






    Mídia




O MISTÉRIO DO EDIFÍCIO SANTA ROSA                                  
Jovem encontrada morta na escadaria do prédio; três suspeitos estão detidos





Por Carlos Madureira



    Um crime bárbaro chocou São Paulo, no início da semana: o misterioso assassinato de Gisela Reis Junqueira, de 21 anos, estudante do segundo ano de Direito e estagiária da firma Camargo & Sandrinni Costa, uma das mais famosas sociedades advocatícias do estado.
    Gisela foi encontrada já sem vida nas escadarias entre o terceiro e o segundo andar do edifício Santa Rosa, sede da firma de advocacia, pela auxiliar de limpeza R.P.L. (nome não divulgado pela polícia), de 18 anos, por volta das sete horas da manhã. Segundo seu depoimento, corroborado pelas investigações da polícia, Gisela foi encontrada caída ao pé das escadas, com a blusa levantada e a saia arriada (o que denota abuso sexual), com marcas inegáveis de espancamento e uma mancha vermelho-vivo no pescoço, o que implica esganadura. "Com base nas investigações periciais, esperamos ter 100% de certeza se a vítima realmente morrera em decorrência do ferimento no pescoço, mas já de antemão, tudo indica que ela fora assassinada por asfixia mecânica", comenta Luiz Guraldi, perito da Polícia Científica. Um fato que denota o abuso, seguido de morte da jovem estagiária, é que aparentemente fora encontrado vestígios de sêmen sobre as roupas da vítima. "Pelo que descobrimos até agora, com base nos depoimentos dos suspeitos, isso (o sêmen encontrado) não prova que a menina fora vítima de estupro. Seria até irresponsável afirmar tal coisa", dissera, em tom de censura, o delegado Hélio Souto-Maior, do 35º DP (Jabaquara), onde o caso foi registrado.
    Também, segundo o delegado, não seria possível afirmar com certeza se os ferimentos e diversos hematomas no corpo da jovem seriam de um possível espancamento. "Há uma linha de investigação que aponta pro caso dela ter sido jogada intencionalmente pelas escadas, o que no caso seria crime premeditado, contrário do abuso sexual, que já é um crime impulsivo", completara o delegado.


    UM DOS SUSPEITOS ERA O CHEFE DA VÍTIMA

   Três homens, os únicos que estavam no edifício no provável momento do homicídio (que segundo as investigações dos peritos, aconteceu entre as dez e a meia-noite de sexta) foram autuados e no momento permanecem detidos. Um deles seria Rodrigo Sandrinni Costa, de 29 anos, superior direto da vítima, filho mais novo de Adalberto Sandrinni Costa, sócio majoritário da firma Camargo & Sandrinni Costa. O segundo suspeito, Armando Pereira Batista, 62, trabalhava como porteiro noturno no edifício no momento do crime e o terceiro seria Agenor Dias dos Santos, o Genô, um autônomo de 53 anos.
  Segundo depoimentos, Rodrigo ainda estava na firma de advocacia àquela hora avançada (onde normalmente deveria estar já em casa) porque combinara encontrar-se com Gisela, sua subordinada, em sua própria sala, para o que chamou de "reunião particular". Gisela aceitara e "enrolara" no escritório justamente pra aguardar o chamado dele, que haviam combinado que seria por volta das dez da noite. "As dez e vinte, mais ou menos, acabei de redigir uns autos e, como já estava livre, liguei pro escritório jurídico, onde Gisela estava sozinha. Perguntei à ela se a nossa 'reunião' ainda estava de pé, e ela confirmou. Pedi então que viesse à minha sala, que eu a estaria aguardando'", depôs Rodrigo, aparentando extremo nervosismo, na delegacia. Ele continuou: "Eu não sei quando ela chegou, pois antes disso eu me ausentei da sala e deixei um bilhetinho na minha mesa pra ela, em que eu pedia para que ela me esperasse por uns minutos, porque eu iria à sala do meu pai, que ficava no segundo andar, apanhar uma garrafa de champanhe..." Cogitado pelo delegado se seria aquela a primeira vez que se encontrariam fora do horário de expediente, Rodrigo confirmou: "Teria sido a primeira vez", e embaraçou-se ao ter que responder ao Drº Helio Souto-Maior o motivo de a ter escolhido num rápido affair: "Ora, ela era inteligente, sonhadora, ambiciosa... E eu a achava linda. Todos a achavam. As fotos falam por si só."
    Paulo Roberto de Siqueira Camargo, um dos sócios da firma de advocacia e um dos advogados de Rodrigo, recomendou à polícia "atentar ao fato de que ele (Rodrigo) ficara preso no elevador durante, e até depois, da hora calculada do crime", lembrando que Rodrigo dissera em depoimento que, ao tentar descer de elevador ao segundo andar, houvera uma pane nos elevadores e ele ficara preso. "Meu cliente ficou por mais de quatro horas preso no elevador, á esta altura totalmente desesperado, pois é sabido que ele sofre de claustrofobia", completara o advogado. Esse fato fora confirmado pelos outros dois suspeitos, mas para a policia, isso não descarta a hipótese de suposto envolvimento do réu no crime: "O fato do Rodrigo ter ficado preso no elevador não constitui um álibi", dissera o delegado.
    O caso se complica ainda mais a partir daí, pois Gisela fora encontrada com vestígios claros de sêmen ainda fresco em suas roupas, o que conecta Rodrigo ao crime, pois é sabido que ambos combinaram um encontro amoroso fora do horário de trabalho. E também foi achado, num dos bolsos do casaco da estagiária, um pedaço de papel, como uma espécie de mensagem rápida, que dizia: Gi, me espere. Fui buscar um champanhe para bebermos e já volto! Era o bilhete deixado por Rodrigo, que ela guardara.


    UM DOS SUSPEITOS CHEGARA Á VER A ESTAGIÁRIA AINDA VIVA

    Armando Pereira Batista, de 62 anos, era porteiro do turno da noite do edifício Santa Rosa, na região do Jabaquara, zona sul de SP, local onde ocorreu o crime. Segundo seu depoimento, Gisela era "uma moça educadíssima e bonita, sempre sorridente e atenciosa para comigo", e comentara que a estagiária "sempre batia papo comigo no final do seu expediente, quando ela esperava o noivo vir buscá-la, coisa que ele fazia todo dia". Ele declarou a polícia que fora um dos últimos à vê-la ainda com vida, embora desconhecesse totalmente quem poderia ter motivos para querer ferir "aquela doce mocinha".
    Armando dissera que registrara pelas câmeras do circuito interno de TV do edifício (agora em poder da polícia, que investiga as imagens) quando Gisela saíra do escritório jurídico, no terceiro andar, em direção ás salas da administração, onde também ficava a sala de Rodrigo Sandrinni Costa, antigo chefe e um dos suspeitos por sua morte. Percebendo algo estranho nessa atitude (que ele, porém, não soubera explicar que estranheza havia nisso) ele decidira subir do térreo, onde ficava a recepção, até o terceiro andar, quando percebeu que os elevadores estavam inoperantes. Jamais imaginando que o "Drº Rodrigo estava preso já àquela hora", Armando subira as escadas, seguira em direção à sala de Rodrigo e se deparara com uma cena que ele não entendera: "A moça... Gisela, né?... Bem, ela estava sozinha lá, sentada na poltrona do doutor, bebendo uísque na garrafa, trêmula e apavorada da cabeça aos pés. Estranhei aquilo porque... sei lá. Apenas estranhei. Mas ela não chegou á me ver." Ainda segundo ele, foi por volta desse momento (provavelmente vinte ou quinze pras onze) que Rodrigo o chamou pelo rádio, dizendo que havia ficado preso no elevador. "Então peguei o caminho de volta pelas escadas e chamei o Genô, para que viesse tentar arrumar o elevador". À pergunta do delegado, de porque ele chamara justamente o Agenor para verificar a avaria dos elevadores, Armando respondeu que "eu até contatar o técnico de manutenção que normalmente fazia os serviços na casa, mas ele tava num velório, então me deparei com o nome do Agenor e liguei pra ele."
    Confrontado com a indagação do delegado Souto-Maior sobre ele não ter estranhado o fato do Agenor ter entrado sorrateiro pelo portão de serviço do edifício, e se o porteiro não haveria percebido que o autônomo estava bêbado quando o contactara, Armando gaguejou: "Eu não teria como saber dessas coisas. Como haveria eu de saber que ele já havia chegado e arrombado o portão de serviços do prédio? E ele deve ter disfarçado muito bem no telefone, porque eu jamais o chamaria se o soubesse bêbado."


    O SUSPEITO BÊBADO

   Agenor Dias dos Santos, conhecido como Genô, de 53 anos, está desempregado atualmente, mas realizava bicos como autônomo em serviços diversos para que o procurasse. No dia do crime, segundo seu depoimento, ele bebia num boteco perto de sua casa, na favela Alba, região do Jabaquara (apenas 6 quilômetros do edifício Santa Rosa), quando o seu celular tocara. Era Armando Pereira Batista, porteiro do edifício, onde ele já realizara diversos trabalhos anteriormente. "Ele tava me chamando pra avaliar o 'probrema' dos elevadores, que haviam 'dado pau'", dissera um ressaqueado Agenor.
    Ainda segundo o autônomo, ele não se atrevera a entrar pela porta da frente porque teve medo de ter sua entrada barrada pelo porteiro Armando. "Eu tava um pouco 'alto'", admitiu Agenor. Ele, então, arrombara o cadeado do portão dos fundos do edifício (destinado á entregas de fornecedores) e acessara por detrás as partes internas do prédio, sem o porteiro Armando tomar ciência disso. Segundo a polícia, Agenor estava embriagado quando adentrar o prédio, mas não se sabe se o mesmo chegara á vistoriar a avaria do sistema hidráulico dos elevadores; ele próprio não se recorda disso. "Eu não... não tenho muita certeza se cheguei a verificar o 'probrema' dos elevadores... Eu realmente não me lembro disso muito bem", dissera ele. "Em relação aos outros, o depoimento do Agenor é repleto de altos e baixos, de amnésias repentinas e lembranças estranhas", comentara o delegado Souto-Maior. "É o menos confiável dos suspeitos". Notável também, segundo as investigações, fora o fato de que o autônomo fora embora do prédio sem cobrar os custos de possível manutenção ou até mesmo a verificação das avarias do problema dos elevadores. Questionado quanto à isso, Agenor disse quase não se lembrar de como chegara até o prédio, "quanto mais de ter lembrado em cobrar as despesas da manutenção". Sabe-se, porém, que Agenor utilizara um táxi para se locomover ao edifício Santa Rosa, tão logo ele fora contatado pelo porteiro Armando. A polícia segue investigando.
    Agenor jura que não encontrara Gisela no prédio, e jamais a vira, "apesar dela ter a cara bastante familiar". Apesar de não saber se realizara a contento os reparos dos elevadores, disse que provavelmente saíra do prédio pelo mesmo portão dos fundos mais ou menos uma hora depois que entrou, e utilizara as mesmas escadas onde o corpo de Gisela fora encontrado sem, porém, perceber nada de anormal no local. Logo pela manhã, duas horas depois que o corpo da estagiária fora encontrado, Agenor fora localizado quando tomava café numa padaria próximo à sua casa. Um detalhe que poderá ser crucial para a resolução do crime: resíduos gastrointestinais (um possível vômito) fora encontrado próximo á vitima, no local do crime (mais precisamente dez degraus acima de onde Gisela fora encontrada). Dado que estava embriagado no momento do possível homicídio, pode ser que o resto do vômito na escada seja de Agenor, "mas iremos trabalhar unicamente na hipótese de descobrir se a pessoa em questão vomitara antes do surgimento e/ou assassínio de Gisela, ou depois, no momento em que ela já estava morta. A primeira hipótese não sugere especificamente que a pessoa que vomitara possa ser a mesma que a assassinara, mas a segunda hipótese certamente pode indicar o envolvimento do suspeito no crime", sentenciara o delegado Souto-Maior. "Partindo desse pressuposto, é correto afirmar que Agenor, por enquanto, se mantém na qualidade de suspeito número um".


    NOIVO FORA UM DOS ÚLTIMOS À FALAR COM A ESTAGIÁRIA

    Renato Matias Günkel, 24, estudante de Arquitetura e Urbanismo na mesma faculdade da estagiária Gisela Junqueira, era seu namorado à quase um ano. "Completaríamos um ano de namoro na semana que vem, e iríamos nos casar daqui à dois meses", comentou, entre lágrimas, o jovem estudante à reportagem. Renato diz não ter a mínima ideia de quem pudesse ter feito isso com a jovem. "Ela não tinha inimigos. Todos eram muito respeitosos com ela, todos os amigos a adoravam". Indagado sobre o possível motivo por ela ter permanecido no escritório da firma de advocacia para muito além do seu horário de expediente, Renato considera "humilhante e revoltante" a atitude de certos jornais, que afirmam ter Gisela combinado um encontro amoroso com Rodrigo Sandrinni Costa, advogado, ex-chefe da estagiária e um dos suspeitos de sua morte. "Eu liguei pra ela nesse dia, perguntando o porquê dela ter ficado até tão tarde no serviço, e ela respondeu, com muita naturalidade, que havia pilhas de pendências que ela precisava colocar em dia. Então, cogitei se eu deveria buscá-la como costumo fazer todos os dias, e ela disse para eu não me preocupar, que ela tomaria um táxi assim que terminasse. Que ela ficaria bem."
    Com um álibi confirmado pelos amigos (de que ele estava num bar na Vila Madalena), a polícia não interrogara Renato na qualidade de suspeito do crime. Mas diante da recomendação policial, de que não deveria se ausentar da cidade durante o inquérito, ele se incomodou: "Eu jamais faria isso à alguém, ainda mais à Gisela, que eu amava mais que tudo na vida!"


    VELÓRIO

    Gisela Reis Junqueira, 21, estagiária de direito, encontrada morta nas escadarias do edifício Santa Rosa, no bairro do Jabaquara, zona sul da capital, fora velada e enterrada ontem à tarde, no cemitério do Araçá, região central da cidade, ao lado do túmulo do pai, que morreu três anos antes. Houve grande comoção entre os familiares e as centenas de amigos que compareceram, que lembraram de Gisela como sendo uma moça doce, educada e extremamente inteligente. "Iríamos à praia no fim do mês", informou uma amiga do curso de Direito, "ela, como não tinha tempo pra se divertir, por conta das inúmeras responsabilidades, estava bastante entusiasmada."
    "A única coisa que queremos agora é justiça!" desabafara Roberto Junqueira, tio da vítima. "Pelo amor de Deus, um crime tão brutal não pode fiar assim, impune!"
   Renato Günkel, noivo da estagiária, não compareceu ao velório. Informara à reportagem não ter forças para isso.
    Adalgisa Maria Reis Junqueira, 43. mãe de Gisela, passou mal durante o enterro e teve que ser amparada pelos familiares.
    Ela faria 22 anos no início do mês que vem, e sonhava em ser juíza. 
    
    

      
 

(borderline) Copyright © 2011 -- Template created by O Pregador -- Powered by Blogger