quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Quem disse que o mundo acabou?


   

   

    Uma e vinte da madrugada, num dia que diziam ser o último de todos.




      Quem disse que o mundo acabou? Não, não acabou. Se acabasse, seria o repouso dos guerreiros, o fim dos dilemas. Mas a vida continua, com suas guerras e festas, com seus socos e sexos. Portanto, se há alguém aí caidinho por algo que não deu certo, algo que se perdeu ou por algum conflito interno imobilizante, sugiro que reúna as forças que ainda restam (sempre restam algumas) e continue o caminho. Se não der para escolher o caminho, neste momento, tudo bem. Importa é caminhar. Sempre se chega a algum lugar. E sempre se aprende no trajeto. E isso, com certeza, independe de até onde possa chegar o calendário Maia. Mas, apesar do título, não é desse fim de mundo propriamente dito que estamos falando, certo?

    Muito da infelicidade reside no fato de voltarmos nossos olhos para aquilo que não conseguimos alcançar, tocar. Olhamos para pontos longínquos e nos esquecemos do que foi conquistado até aqui, do que temos ao nosso redor. E então reclamamos e nos frustramos porque sempre falta algo em nossas vidas. E sempre há de faltar - bendita incompletude que nos movimenta.

    A questão é: onde colocar a felicidade (ou a infelicidade)? Fora ou dentro de nós? Colocá-la em terceiros, em fatores externos, é um grande desperdício, que raramente dá certo. Melhor tentarmos encontrá-la dentro de nós e gerarmos, a partir desse encontro, um movimento centrífugo, que emana luz e intensidade, o que irá fazer com que nunca passemos despercebidos.

    E caso não seja possível encontrar essa tal felicidade, ligue não, porque, no fundo, no fundo, essa ideia de felicidade suprema é um tanto ficcional. Felicidade é uma hipérbole. Mas podemos chegar a um estado bem similar, parecido com ela, que se dá quando atingimos a paz interior com eventuais e simples alegrias de viver. Tão simples que muitas vezes só se fazem notar quando as perdemos.


    Tento, e como tento!, seguir esse bendito mantra. Mas no meu caso, sou guiado pelo falso lema de que a felicidade só pertence à uma pessoa e, em contrapartida, a desgraça parece ser de todos. É estranho, e no fundo agradeço todo esse rebuliço referente ao enunciado fim do mundo - isso servira como um inebriante à mais para as minhas inspirações, levando em conta o fato que não sei falar da felicidade, o que não significa que jamais a tenha tido. Pensava justamente nisso, dia desses: em como eu era feliz e não sabia. O que me resta, agora, e agradeço à quem quer que me presenteara com isso, é uma esperança agradável, que me dá cócegas e me faz sorrir à noite, ainda que eu chore às vezes e me mova como um autômato durante o dia. A esperança, sim, é indestrutível, é o prólogo da felicidade. O que aqui não se aplica: alguns tolos tiveram esperanças de que o mundo não acabaria depois do dia Vinte e Um, mas não se sentiram felizes em absoluto quando confirmaram que ainda permanecem ilesos - na melhor das hipóteses: indiferentes. Coloquem meu nome nessa tabela.


    Mas vamos vivendo. Ainda sou dos que acham que a vida e os seres vivos são duas coisas completamente diferentes, e que a esperança pertença a vida, sendo a própria vida se defendendo. Que digam as vítimas dos campos de concentração e os torturados! Vamos vivendo, e olhando pra trás, se possível - isso não é pecado, como nos fazem crer muitos romancistas. É bom olhar pra trás e admirar a vida que soubemos fazer, como bem disse Nando Reis. Tenha esperanças, seja feliz, ainda que tal conselho parta de alguém cujos sentimentos não correspondam exatamente à esses aqui expostos. O mundo não acabou, e repito, não digo isso pelo temido calendário Maia - o Cortez já os fuderam há muito, e você ainda está preocupado?

    Vamos, então! Vamos vivendo. Há tanto por fazer, há tanto por descobrir. Há sempre uma surpresa à nossa espera na próxima esquina. Lá onde o olhar ainda não alcança. Há muita coisa além do fim do mundo. O dia 22 está aí, ao alcance das mãos. Aproveite-o.


                                                                        *     *     *

    E, ademais:
      
   O fim do mundo foi cancelado em 2012 no Brasil, pelo simples e irremediável motivo do país não ter estrutura o suficiente pra receber esse grande evento, de porte tão cataclísmico.

    Ahh, o sub-desenvolvimento.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Modelo de carta do que ficou por dizer (e nunca enviada)


                                                                                                                                                      para J.

                                                                                                                                                      

   


     [data e local]
    


     Querida [nome da destinatária],
    

    A razão desta carta é libertar as palavras que ficaram por dizer. O tempo passou e a vida se foi (a nossa, amor, a nossa) impedindo-lhes a pronúncia ou, no mais, envelhecendo-as. Sim, sei que agora sofro pelo fato de que essas minhas injustificáveis omissões pesam-me sobre os ombros e amargam-me a língua por esse novo e eterno silêncio que agora me submeto, e por tal idiotice sinto o nosso passado violentado, de certa maneira, pelo destino irremediável, que não dera sinal algum de sua chegada, selando-me os lábios. Mas o tempo se renova, as folhas caem, as pétalas são pisoteadas e revolvida é a terra dos meus sentimentos por ti. Sinto por incomodar-te com isso, [nome da destinatária], mas essa carta é o monumento ultimo de minha covardia, derradeira homenagem da minha fragilidade como homem. Peço que me perdoe.

    Você realmente não soube de metade das coisas que se passava em mim, assim como eu também não devo ter sabido de tantas outras passadas contigo; Não sabe, por exemplo, que [inserir aqui todas aquelas coisas que não foram ditas por razões diversas, tais como: orgulho, egoísmo, covardia, ira, revanches, falta de oportunidades, etc.]; nem como [idem. desmembre estas coisas em tópicos, se possível, pra facilitar a compreensão], e não imagina o quanto [idem].

    Agora que já sabe dessas coisas, não sei o que há de se fazer, nem o que acontecerá, se bem não me importo em absoluto com o meu destino, pois confesso que nada mais importa à partir do momento em que a ferrugem dos dias rotineiros recobriu o nosso bem-querer, decepcionando-a por inteira. Nada vai mudar; o tempo, sendo ele um produto de Deus, é implacável e poderoso, e sei que qualquer palavra que possa modificar um contexto já vivido só tem a eficácia e utilidade na hora exata do passado também exato e nunca esquecido, esse que aqui tolamente rememoro. Não, nada mais importa. Mesmo se algum dos santos tão sagrados descesse dos céus pra me questionar sobre o porquê dessa carta, não saberia dizê-lo. Talvez uma egoísta compensação do que deixei de fazer e continuei deixando de fazer até a passagem de nossas vidas, e agora procuro maneirar meu fardo antes que a minha vida também passe e o Escuro me envolva definitivamente. Poderia tudo ter sido tão diferente, não fosse minha fragilidade e teimosia em aceitar as minhas próprias mentiras, em afirmar que nada estava errado, que o sol ainda brilhava para nós dois, mal sabendo eu de que ele brilhava sobre mim, sobre mim, apenas! Poderíamos [meta aqui uma hipotése e/ou saída mais feliz para o desfecho da história]; Sim, também poderíamos [idem para uma hipótese mais feliz - sempre mais feliz para que a carta não perca o sentido], ou então [idem, e aqui pode colocar uns objetivos em conjunto que nunca se deram, como viagens nunca planejadas, filhos nunca concebidos e um filhotinho de cachorro - estes sempre ajudam]. Já imaginou?

    Ainda é dificil pra mim, depois de tanto tempo, cuspir em chagas ainda abertas (mais abertas ainda pra ti), mas é esse um arrependimento inútil, como é inútil a própria natureza do arrependimento. Sim, é inútil sentir pena por suas feridas, sendo que infinitamente mais dificil fora a hora em que fiz as mesmas, o exato momento das chibatadas e dos coágulos que resistiram ao tempo, e que não movi um dedo pra me arrepender, quando era o momento. Com o que chamam de falsas cicatrizes, alimentei algumas boas lembranças, sempre apoiado sobre a tristeza de teus machucados que a mim permaneceram invisiveis, tais como [inserir aqui momentos vivenciados com alegria e prazer - vivenciados assim unicamente por você, mesmo tendo você pensado que tudo estava tão bem entre ambos], ou [idem]. Lembra? Ah, quem me dera ter percebido algo, quem me dera saber o que hoje eu sei, quem me dera ter te abraçado nessa hora e beijado-lhe como se fosse nossa primeira vez, e não tivesse me deixado levar pelo seu sorriso aparente que encobria a mais profunda das tristezas!

    Ainda que seja uma tortura essas lembranças, sinto-me aliviado por dizer-te, dessa maneira covarde, tudo o que agora se passa cá comigo, mesmo depois de tanto tempo e poucos invernos. As verdades, sempre tardias, agora me dominam. Ainda assim, apesar das sinceridades aqui contidas e expostas de maneira tão crua, não posso deixar de admitir que tudo isso se trate de uma pequena mentira, toda essa carta - sentimentos verdadeiros, sendo mesmos verdadeiros, não deveriam ser expostos assim, com tanta sensatez e tanto alarde, e sim devem ser sentidos e repassados, com gestos, palavras baixas ao pé do ouvido, atitudes triviais e não menos intensas. Um euteamo nada diz hoje em dia, são apenas palavras ditas com gestos vazios. Um euteamo verdadeiro são os beijos com sabores de eternas "primeiras vezes", são as desculpas sinceras depois de uma briga, são os erros admitidos, é o companheirismo nas horas mais dificeis, é a sensação de vitória à cada vez que acordamos e nos vemos ao lado da pessoa amada, que ressona do lado direito da cama, com uma perna passada por cima da sua barriga. E é beijá-la em meio ao seu sono profundo, mesmo que ela jamais venha à saber desse beijo. O euteamo (como palavras) são só lembretes, memorandos, prológos incompletos. Agora sei dessas coisas. O meu prológo contigo não fora preenchido, e era sempre você que cedia numa briga, só pra cessarmos com as desavenças. E sinto muito por isso.

    De qualquer maneira e seja como for, tua passagem ficou inscrita em minha vida para sempre.


    Boa sorte: para ti e mais para mim, que vou precisar.



   Ass: [nome do autor].





  P.S.: Por favor, peço que não traduza essa carta como uma negativa do seu pedido. É claro que irei ao teu casamento, e agradeço pelo convite. A sua felicidade é importante agora, e sei que agora está mais do que feliz. Antecipo, aqui, os meus parabéns. Você merece.

  [outro Post-Scriptum, se possível; deve-se dar a máxima idéia de que é uma verdadeira tortura impingir um ponto final nessa carta à ela remetida, pois sabe-se que é o último contato que terá com a destinatária, para sempre].




(imaginem que o papel esteja amassado. Muito possivelmente, a carta será atirada e recolhida da lixeira por algumas dezenas de vezes, até seguir para o seu destino definitivo: a mesma lixeira.)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

A minha ingenuidade é uma puta!


   Quinta.



Ainda me pergunto se o "Azul" também tinha um duplo sabre de luz.
   
   

    Costumo emputecer-me de maneira agradável com o fato de que transfiro à tudo quanto é revolta (as minhas, inclusive) uma meretrícia designação, como forma de entender-me melhor comigo mesmo, não que eu odeie as meretrizes ou seus ofícios, mas pelo mal-costume de ter vivido numa família basicamente religiosa - ao que me consta, a putice é meio mal-vista nos meios sacrossantos.

    A revolta de hoje, seria: A MINHA INGENUIDADE É UMA PUTA!

    Ninguém acreditaria se eu contasse.




    Ao ler a matéria (de maneira simultânea ao acompanhamento pela TV, acho que isso não se repetirá em minha vida pelos próximos mil'anos), um pequeno e involuntário pensamento brotou-me na mente:

   - QUAL FOI O CRITÉRIO USADO PELO TRAFICANTE EM ESCOLHER JUSTAMENTE UM ZABRAK COMO ALTER-EGO PARA AS SUAS MALDADES?

   Foi por volta desse momento que me ocorreu que, seguramente, o "Azul" (traficante de Heliopólis) não tivesse nem idéia do que poderia ser um "Zabrak", ou onde poderia situar-se o planeta Dathomir, berço do maior Zabrak existente (Darth Maul). Então, excluí da minha mente estranha a remota possibilidade do traficante que, além de utilizar a máscara de Darth Maul, poderia ter usado um duplo sabre de luz pra executar seus inimigos. Também é uma puta o meu vício em Star Wars.

   E que Darth Sidious perdoem os réporteres do duvidoso "Balança Geral" (nome ridículo), que não explicaram, ou não souberam explicar aos telespec's o que era aquela máscara vermelha utilizada pelo traficante para intimidar as vítimas. "Ele (o Azul) utilizava essa máscara estranha e aterradora como forma de assustar suas vítimas", era o que disseram. Filhos da puta sem respeito.

   

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Uns aspectos do amor





    Uma e cinquenta e quatro (p.m.), Quarta-Feira.



   

O Beijo ("Der Kuss") - Gustav Klimt, 1908
    Um. ( da paixão )

   "- Me defina o que é o amor....
    - é... [interlocutor]
    - Não importa! A melhor definição não se compara ao beijo de moça enamorada!"

    (Machado de Assis)


    PAIXÃO:

   O tema é pra lá de surrado. Mas há sempre o que se falar sobre esse tóxico chamado paixão, que já rendeu e continua a render belíssimas literaturas. Logicamente, quase todos os mortais já tomaram pelo menos uma dose deste veneno ao longo da vida. E das duas uma: ou saíram arrebentados no final, ou saíram desacreditados.

  Não posso acreditar em sentimentos que atuam como um LSD nas veias, que cegam, que transformam o olhar para a realidade, entorpecem, que se realizam nas urgências. A paixão é bela em sua eclosão, bela como só o diabo sabe ser, esse filho da puta, quando quer seduzir. E é poderosa. Desperta hormônios com violência, vontades nunca tidas, macrodesejos e prazeres descomunais. Em seu curso, porém, vai despertando paralelamente sentimentos e sensações destrutivas, ligadas à posse, à dependência, a ansiedades e inquietudes ensandecidas, a extremos condicionantes, paralisantes. E cegam, ensurdecem, emburrecem, aniquilam qualquer vestígio de lucidez. Por paixão, um ser desestruturado é capaz de matar ou morrer. Não, obrigado. Dispenso as paixões, que hoje entendo como disfunções fisiológicas que adoecem a alma (acho que Platão já afirmou algo nesse sentido). Obviamente, nenhuma juventude está livre delas. Na juventude, as paixões chegam a ser uma imposição, uma necessidade, até para que possamos reconhecê-las e adquirir imunidade aos seus estragos, mais adiante. Na maturidade, é dar a cara pra bater.

   O estado de paixão é a antítese do amor. Amor é outra conversa. Aí há saúde, conhecimento e solidez, esperas serenas. Há entrega e desprendimento, há confiança, comunhão e paz. É sentimento que se constrói com o tempo, que não chega de impacto, não chega vestido com os mantos purpúreos e esplendorosos da paixão, com os véus alvos e leves do amor desprendido. É de uma nudez discreta. O discurso do amor fala das simplicidades, não usa hipérboles. Mas fala a verdade porque fala de amor. E o que é o amor senão o encontro de duas verdades que se complementam?


  


   Dois. ( do amor )

   "Olhai como Amor gera, num momento
   De lágrimas de honesta piedade,
   Lágrimas de imortal contentamento."

   (Camões)

  
   Mas o amor, em contrapartida, é tão foda que gera confusões até na mente dos literatos (ou quem pretende sê-lo, como esse que vos fala), não excetuando o fato de que já são eles confusos por natureza. Por vezes definimos o amor, por vezes discordamos quanto à isso, indefinindo o indefinido. Procuro e tento escrever sobre o amor levando em conta o que o resto do mundo define sobre isso que chamam "amor bruto": um homem, uma mulher (ou um homem e um homem e uma mulher e mulher) que olham para a mesma direção, como diria Saint-Exupéry. Mas como aprendi que somente a filosofia (por vezes a ciência, por vezes a religião, quando estou suficientemente bêbado, o melhor de todos os estados humanos) mostra-se capaz de explicar-nos as mais cruas abstratalidades da vida (definição incorreta do sentido abstrato, mas deixe estar), creio piamente que sentir amor por algo não seria tão diferente do que comer uma grande quantidade de chocolate aerado, daqueles que derretem na boca. No meu caso, beber num sorvo apenas iogurte de morango, daqueles recipientes de meio litro.

   Eu já senti amor por alguém: não serei eu tão frio que nunca tenha me afundado nesse lago gelado, que nunca tenha estado tão confuso e alheado quanto um espelho numa sala de espelhos. Ainda continuo amando essa pessoa que não está mais conosco, mas agora é esse amor um amor limpo, lustrado pela sinceridade, inesquecível como só as coisas boas e tardias podem ser. Porque é essa a sina do ser-humano: amar (na mais completa acepção da palavra) quando o tempo já não mais nos permite. Amar tardiamente, quando nada mais importa. Amar apenas quando não adianta mais nada. Amar tarde demais.



   Três. ( das mulheres )

   "... ainda bem que não somos suficientemente românticos,
    senão um de nós acabaria morto e o outro algemado."   
     (Julio Cortazar, Rayuela)


   É melhor você ter uma mulher engraçada do que linda, que sempre te acompanha nas festas, adora uma cerveja, gosta de futebol, prefere andar de chinelo e vestidinho, ou então calça jeans desbotado e camiseta básica (que seja, de preferência, de bandas de rock underground), faz academia quando dá, come carne e arrota, mesmo que seja discretamente, é simpática, não liga pra grana, só quer uma vida tranqüila e saudável, é desencanada e adora dar risada.

   Do que ter uma mulher perfeitinha, que não curte nada, se veste feito um manequim de vitrine (e quase com o mesmo QI), nunca toma porre e só sabe contar até quinze, que é até onde chega a sequência de bíceps e tríceps. Que rebole ao som de funk, assista novelas e não goste de zumbis (ou qualquer trabalho relacionado a).

   Legal mesmo é mulher de verdade. E daí se ela tem celulite? O senso de humor compensa. Pode ter uns quilos a mais, é claro que pode ter, mas é uma ótima companheira. Pode até ser meio mal educada quando você larga a cueca no meio da sala, ou a toalha sobre a cama, mas e daí? Porque celulite, gordurinhas e desorganização têm solução. Mas ainda não criaram um remédio pra futilidade.


  Mas aqui vai a verdadeira decepção do que é ser homem - acabo de descrever a mulher perfeita (para quem tem bom senso), mas se tivéssemos, e muitos tem, opções de escolhas entre a única perfeita acima descrita e um verdadeiro e fútil símbolo sexual, a segunda opção salta aos nossos olhos selvagens. O homem é hipócrita como poucos animais conseguem ser: afirmam aos quatro ventos que se ligam bem mais no que a mulher é por dentro, na mentalidade, maturidade e afins, mas não se aguentam com a lascívia visão de uma moça de minissaia que lhe cruza o caminho. Por essas e outras agradeço à minha falta de sorte relacionado ao amor: jamais tive opções de escolhas como a maioria dos caras que conheço, então tenho uma certa tendência á valorizar às que me valorizam, que são/foram poucas mas inesquecíveis, e como nós, os introvertidos socialmente, que somos semelhantes à imãs (que magnetizamos apenas o que se enquadra perfeitamente em nossa magnetização), agradeço por ter atraído o que considero mulheres perfeitas, cujos elementos já descrevi. As que passam despercebidas aos olhos dos amantes de bundas calípigias e seios perfeitamente convexos, as que não consideram essa minha pequena crônica como uma crítica à natureza delas.



  Quatro. ( conselhos pra quem tem sorte )

  "Amor sem sexo, é amizade/Sexo sem amor, é vontade."
   (Rita Lee)

   
   



  Pra você que ama, ou está apaixonado, aqui vai alguns conselhos, diretamente do último dos românticos:

  Ela é o amor da sua vida, e isso lhe dá o direito e o dever de viver pra ela e por ela. Exemplo: assista o clipe "Você pode ir na janela", do Gram (vídeo acima). Tenha a atitude do gato que escolheu perder todas as suas sete vidas unicamente porque a sua amada tinha apenas uma vida pra gastar. Mas não lhe desejo o mesmo destino desse gato corajoso, ao final do vídeo.

  Flores. Sim, flores. Compre flores, não só à guisa de desculpas por alguma mancada, nem por alguma comemoração. Surpreenda-a. Dê-lhe flores, nem que seja gerânios (de todas, as mais fedidas, na minha opinião). Nâo repita o mesmo erro que coroou as tristezas desse que vos fala: presentear a sua amada com flores apenas na hora final, hora tardia, com uma braçada de rosas brancas sobre a sua sepultura.

  Seja idiota, ainda que estar amando é o mais idiota dos estados idiotas. Mas seja idiota mesmo assim. Atenção, porém: isso não significa que você deva ser obrigado à falar com vozinha de bebê à cada pergunta dela. Acredite, isso não dá certo, sei por experiência própria. Escreva, acaricie, dê cócegas, chupe o dedão do pé dela, dê-lhe presentes aparentemente inúteis (cheguei à presentear ela com um Band-Aid dentro de uma caixinha chique de veludo violeta e um laço elegante, por ela ter caído e ralado toda a cara, dois dias antes), ria de suas piadas sem-graças, enfim. Você está amando, e isso é ser idiota. A idiotice é vital para a felicidade, que é vital pro amor. A vida já é um caos, por que faríamos dela, ainda por cima, um tratado? Deixe a seriedade para as horas em que ela é inevitável e útil: separações, dores e morte. Não necessariamente nessa ordem.

  Discrição - siga o mantra do Quintana: Se tu me amas/ama-me baixinho/não o grites de cima dos telhados/deixa em paz os passarinhos... Nada de avisar aos quatro ventos (sempre eles) sobre as circunvoluções de suas intimidades, sempre vejo isso no Facebook, por exemplo. O teu amor não dependerá de quantos "likes" você poderá receber por uma postagem do tipo: "hoje vou visitar o meu amor, não vejo a hora de encontrá-lo(a), adorrooooooooo..." Ninguém gosta de ler isso (ainda mais os solteiros convictos), e se porventura essa pessoa vier á receber dezenas de Likes, creia-me: a amizade insincera é uma puta carente, e ela é ávida por te agradar.

  Seja compreensível, mas inflexível. Não diga o que ela QUER ouvir - diga o que ela PRECISE ouvir. Mesmo que isso o deixe com uma momentânea máscara de vilão. Mas é preciso que se filtre tais situações: você não deve fazer algo que você tenha a certeza que ela se agradará, mas que vocês se agradarão entre si. O amor vive pelo conjunto e através do conjunto, entre duas pessoas - o contrário seria o amor pré-adolescente, entre você e a mão direita. Vivam juntos e sejam cúmplices. Orientem-se, protejam e respeitem. Quando um não quer, dois não brigam, três não opinam e quatro fofocam.

  E, por ultimo, os detalhes fazem a diferença. Por experiência mínima, mas própria, elas se ligam nisso. Sejam detalhistas. Reparem no cheiro dela, mesmo que não seja necessário dizê-lo, mesmo que seja apenas xampu à base de ovo ou creme rinse, daqueles cor-de-rosa, com um cheiro enjoativo. Elogiem-nas, mesmo sem nenhum motivo aparente, e se elas pedirem um elogio, elogiem até o jeito sutil e meigo com que elas pedem um elogio. Percebam o brilho dos olhos que nelas sempre acompanham um sorriso, o modo de nos beijarem quando dizemos que as amamos, admitam a tortura da saudade que delas sentimos. Considere a portabilidade de seus corpos sobre nossos peitos e ombros, e o fato de que estão sempre morninhas, sempre tépidas. Adore cada imperfeição de seus corpos, mesmo a mínima verruguinha de nascença num ponto que só você conhece, e se sinta privilegiado por isso. Mais importante: ame pelo que ela é, não pelo que ela se mostra exteriormente, ainda que isso seja impossível. E desejo que ela tenha as maiores qualidades que você já tenha, algum dia, desejado em alguém, porque sinceramente, ninguém ama a outra pessoa pelas qualidades que ela já tem; se assim fosse, os crentes, honestos, trabalhadores e não-fumantes teriam uma fila das melhores pretendentes à sua porta. Ah, ainda é tempo de sugerir: lave mais a louça, e não deixe o resto da tua barba recém-escanhoada na beira da pia. Isso é deselegante pra qualquer um. E, se possível, lave tuas próprias cuecas.

   Um bom amor pra todos.  

        


    


     

domingo, 2 de dezembro de 2012

Manifesto do Não-Nascido


   No meio da madrugada, luz acesa, tique-taque tique-taque.
  




     


     Primeiro mês:

    Começo em admitir que me impressiono com a imensa notabilidade existente em algo qualquer, com a grandeza enclausurada nos mais ínfimos detalhes, como os primórdios de uma idéia que muito bem mudaria todo o curso de toda a vida, ou a perene e ainda malnascida promessa que há numa efémeride que desliza, lânguida e notável, no que deveria ser o primeiro dia do mundo. Há nestas coisas o sonho, a vida, o sentido das coisas ainda por nascer, um eco cáustico e étereo nas celestiais cavernas. Há simplicidade em todo o inicio, há silêncios e trevas e sonhos ainda não sonhados em todo despertar - e aqui não fora diferente. Uma timida claridade acarinhava meu corpo disposto e ainda não desenvolvido, ou teria eu sonhado com tal luz? Eu era uma efeméride, mas não deslizava sobre a água: eu estava na água. Era um ínicio, e eu estava nele: eu era ele. Eu ainda era um mero detalhe ainda não descoberto, porém notável e sagrado. Eu seria esperado(a)?
   
  Eu flutuo de maneira lânguida, preguiçosa e frágil, com uma vontade meio que incompleta, como incompleto é tudo o que sou agora. Eu não penso, talvez por ainda não estar completo o que quer que mova nossos pensamentos ou sonhos, mas se tal dom me fosse concedido (à frente de tudo o que me será concedido num ermo futuro), eu até poderia refletir: estarei seguro(a)? Serei amado(a)? E novamente: seria esperado(a)? Não ignorava o fato de que me encontrava na celestial caverna tantas vezes à mim mencionada, mas seria eu uma ideia que poderia muito bem mudar o curso da vida? De uma vida, ao menos?

    E, no entanto, eu existia. Estava além do meu controle, mas existia. O meu coração já bate de forma uniforme e descompassada. E isso era tudo o que me bastava.


  
    Segundo mês:
  
    Não sou mais um detalhe, ínfimo mas notável. Sou um esboço do que serei, um rascunho do que me espera.

    Á agua em que flutuo, leitosa e morna, agora me parece agradável e tépida, fazendo-me imaginar se eu poderia existir sem ela. Agora ouço vozes, longínquas e como que étereas, mas ainda não distingo suas palavras, supondo-se que algum dia as distinguirei. Uma imagem se forma em mim, sou agora mais humano, tenho uma forma, e ainda que esta seja irregular, é um vislumbre dos dias que estão além da minha compreensão. Não sou mais uma efeméride que desliza sobre a água no ínicio de tudo: sou o cavalo-marinho que singra estas quentes e milagrosas profundezas, nobre e frágil. Eu percebo que já me perceberam, e espero que tenham eles, quem quer que eles fossem, percebido que eu os percebi - adivinhado que eu existia, que eu gostava dessa situação e adorava a embaladora quentura desse lugar escuro. Adorava as cócegas que me faziam esse lastro que me prendia nesse mundo, e que me sustentava. Os olhos surgiram, e me doeram brevemente pela desvantagem de nunca os haver usado. Os ouvidos surgiram, e foram acarinhados pelo silêncio desse primórdio. O entendimento surgiu, e entendi finalmente: eu não apenas existia, estava vivo(a). Existia e vivia. Era só o começo.



    Terceiro mês:

   Meu amadurecimento é ininterrupto. Agora sou definitivamente alguém. E mais: serei percebido e diferenciado como macho. É o que serei.

   Movimento-me na maneira universal dos pequenos e vulneráveis filhotes: primeiro, à medo, depois, confiante. Sei que eles ainda não detectam meus sinais de vida, mas mexo-me assim mesmo. O que me moverá nos dias vindouros, tudo o que forma essa máquina complexa que é meu corpo ainda incompleto desenvolvem-se, plenos de vida. Estou quase completamente formado, não sendo mais um embrião. Sou um feto. Um grande cavalo-marinho num mar escuro.

     As vozes agora são constantes, e os identifico de maneira relativamente fácil - há uma voz baixa e quase ininterrupta, que um certo receio à torna ainda mais melodiosa. A outra é grave e ponderada, ainda mais longínqua, e destas duas, capto uma carícia infinita apenas nesta última. Parece querer falar comigo, tocar-me mesmo estando longe e perto, e respondo às suas palavras. Eu estaria, agora, hospedado nele? Fui por ele gerado? Confusão, confusão nestes primeiros tempos. Por enquanto, aceito os alimentos que até mim chegam através do grande lastro que me sustenta, e que ignoro a origem. Mas desde já agradeço a atenção à mim dispensada.



   Quarto mês:

   Meu coração retumba com tanta força e tão rápido dentro do peito que durmo embalado pelo som incessante. A inquetação agora me domina, mas ainda sinto prazer em cada movimento, em cada alimento, em cada palavra daqueles que estão do lado de fora. A voz grave e carinhosa está mais distante; em compensação, a voz melodiosa e temente aproxima-se cada vez mais, e agora capto uma nota doentia nesse som. Eles deveriam estar assim? Ainda me alimentava deles, ainda crescia neles, seguro e vulnerável... Mas pela primeira vez, me perguntei: não seria eu bem-vindo?

    Ante a dúvida temível, passei à movimentar-me mais, à guisa de aviso: estou aqui, eu existo, quero existir! Ouçam meu coração, sintam minha presença, considerem meu amor! Quero amá-los, quem quer que sejam! E afinal, o que estaria eu fazendo aqui, se não fosse esperado? Que crueldade seria esta, quem quer que aqui me tivessem colocado, de fazer-me despertar apenas para sofrer a dor da rejeição, o medo do escuro, a mágoa do não-existir! Estou vivo! Pelo amor Daquele que aqui me colocara pelo mais misterioso dos motivos, estou vivo!!

    

    Quinto Mês: 

     Uma luz cruel, não sei de que canto dessa escuridão, adentrou meus sentidos, e me fez perceber duma vez por todas: não, eu não era bem-vindo. A voz melodiosa, ainda mais melodiosa, tornara-se túrbida e cáustica. Jamais falou comigo, jamais permitiu que sua voz embalasse o meu sono frequente. Em contrapartida, a voz grave e amável e longínqua fora embora, para nunca mais voltar. Não mais me sentia como um nobre cavalo-marinho, e sim algo aquém de um girino de águas podres. Eu não era desejado, e peguei-me imaginando, pela primeira vez nessa breve vida, o que seria de mim, preso á um mundo que não precisava em absoluto da minha inútil presença, apesar do fato de que eu necessitava deste mundo, acima de tudo. E os choros, ermos, constantes e tenebrosos, foram as únicas canções que embalaram-me neste meu inseguro inicio. Não mais havia satisfação em mim ao pequeno ato de movimentar-me, abrir os olhos de vez em quando, chupar o polegar de tempos em tempos. Era-me agora indiferente à delicada lanugem que surgira-me anteriormente e, agora, era substituída por cabelo verdadeiro. Não mais importavam as mudanças que se operavam em mim, e operavam com força: me sentia como um parasita, que sugava a fonte de vida necessária à minha sobrevivênvia, sem a autorização da verdadeira geradora de tais fontes. Ainda estava ligado á ela pelo lastro de vida - e não por muito tempo.

     De que adiantaria agora agitar os pequeninos braços, abrir as pálpebras sempre cerradas, chorar e agarrar-se à uma ínfima esperança (e me disseram que aqui haveria esperança à farta) se, burlando tudo o que geralmente deveria acontecer, um sorriso não era brotado, através de mim, ao rosto daquela que me carregava, uma lágrima de alegria não era vertida, através da minha presença, aos olhos daquela que deveria me amar? Adiantaria tentar existir sem o amor? Porque, então, eu seria mandado pra cá? Que crueldade sem tamanho seria essa? Eu quero voltar. Quem quer que tenha me colocado aqui, estaria melhor, infinitamente melhor, no lugar onde surgi, no lugar onde fui terrivelmente arrebatado. Não sou bem-vindo aqui, apesar de terem me dito e prometido o contrário. Peço, por favor, deixem-me voltar!



    Sexto mês:

    Uma criança saudável, alegre, cheia de vida: era o que eu seria.
    
   Sorriria por um tudo, a imperatividade equivalente á todas as crianças me dominaria por inteira, e seria presenteado por uns bons galos na testa.
   
   Contraíria a catapora bem cedo, e sofreria pelo nascimento dos primeiros dentes. Teria o meu próprio cachorro, e ele teria medo das minhas travessuras. Eu adormeceria beliscando, com a ponta dos dedinhos, o braço de quem quer que tivesse paciência pra fazer-me dormir, e acordaria bem cedo, reclamando alimento.

   Lembraria perfeitamente, mesmo muito tempo depois, do meu primeiro aniversário, onde praticamente enfiei o rosto no bolo e chorei quando um primo petulante qualquer assoprou as velinhas no meu lugar.

   Teria medo do meu primeiro dia de aula, mas aguentaria firme e mostrar-me-ia corajoso quando finalmente soltassem-me a mão e prometessem buscar-me ao final do dia. Faria novos amigos, amigos esses que perdurariam por toda a minha vida.

   Arrancaria meu próprio dente da frente com um pedaço de linha, o que deixaria todos orgulhosos: o dente seria substituído, talvez na madrugada, por um moeda novinha, e eu diria à quem quer que quissesse ouvir que a fada do dente me visitara, apesar de saber, com toda a minha infantil certeza, que meu pai fora a fada improvável que levara o meu dente, trocando-o por uma rica moeda.

    No meu décimo aniversário eu ganharia um pequeno violão de brinquedo, o que faria despertar em mim a paixão pela musica. Por volta dessa época, minha mãe estaria esperando uma menina, minha irmãzinha, e estaríamos todos ansiosos e felizes pela sua iminente chegada, quase como ficaram quando eu estava por vir.

    Eu seria um aluno aplicado, o predileto dos professores. Popular e bonito, seria namoradeiro, como diria minha avó. Mas seria no meu décimo-sexto aniversário que levaria para meus pais conhecerem a menina que mudaria a minha vida; que seria a minha vida.

    Iria cedo pra faculdade, e a medicina seria o meu curso: meus pais ficariam tremendamente orgulhosos! Eu seria guitarrista de uma banda de rock, composta pelos amigos de infância, e já começaria à agradar uma pequena legião de fãs, o que era o máximo. Minha namorada seria psicóloga. Estamos muito felizes.

    No meu aniversário de vinte e um anos, a pediria em casamento. Seria na beira da praia, sob a luz de uma lua surreal e asustadora, de tão cheia. Estaríamos sozinhos, e ela estaria tão bêbada! Mas entenderia a importância da situação. Colocaria-lhe a aliança prateada no dedo, e ela choraria sorrindo. Ali faríamos amor como se tivesse sido a primeira vez, e acordaríamos pela quentura do sol de verão.

   Nos casaríamos, e este seria o melhor dia da minha vida. Minha irmã caçula e seu namorado seria os nossos padrinhos. A minha banda tocaria no casório. Ouviria, pela primeira vez, as palavras "eu te amo" nos lábios do meu pai. Eu jamais esqueceria.

   Viveríamos numa boa casa, numa ótima convivência, numa maravilhosa vida. Ela ficaria grávida dois anos depois, grávida de duas meninas! Estávamos radiantes. Ela me acordaria à altas horas da madrugada para comprar açaí. Desesjos de grávida existem para não serem negados.

   O parto. Sem complicações, sem estresses, sem receios. As meninas seriam esperadas. Aguardadas e amadas. Beijaria a testa suada da minha esposa depois do nascimento, e choraria de felicidade com a visão das minhas filhas á dormirem no berçário.

    E agradeceríamos à Deus pela dádiva que nos concederia e pelas graças presenteadas.


                                                            *     *     *


   Um monstro frio, perceptível e inesperado, surge de algum ponto da escuridão, agarrando minha perna com as garras geladas. Sou assim puxado pra baixo com imensa força, independente dos meus esforços inúteis e dos meus receios mal-nascidos. A dor já me consome, e à ela me submeto.

    Houve o frio cortante que subira-me pelas pernas através das garras do monstro, houve o sangue, houve a luz intensa que me cegara momentaneamente. Obrigado á abandonar parcialmente o mundo que um dia o imaginei tépido e agradável, permaneço com o corpo pendurado no meio daquela luz, como se tivesse à beira dum precípicio, e ouço choro, e vozes, e exclamações ensurdecedoras - não era pra ser assim, não tão cedo. Inundado por aquela luz que doía, finalmente percebo, talvez um tanto tarde demais: eu estava sendo eliminado. Por ela.

    Sinto um leve e extremamente doloroso toque na nuca, e não produzo o mínimo som perante o ataque do monstro, não por já não ter forças para me defender ou defender minha própria e inútil existência, mas por ser eu incapaz da menor façanha de subjugar meu sofrimento. Sinto, através de tal toque, como se minha alma, meu eu ainda incompleto, a fímbria do meu ser estivesse sendo sugado, como se eu tivesse sendo despojado de todo e qualquer fiapo de existência do qual pudesse me agarrar, e eu mergulhava na dor final como se tivesse afudando num lago escuro, triste e muito profundo, tão profundo que eu afundava e afundava, e esquecia de mim mesmo, do breve tempo da minha prisão, das minhas evoluções conforme passavam-se os momentos, das esperanças prometidas, das imaginadas alegrias de dias vindouros. Esqueci-me de tudo, e aos poucos, com dolorosa dificuldade, como a efeméride que chega aos momentos finais de sua patética vida, deixei de existir.


                                                            *     *     *  

    Irei para uma nova prisão, que desta vez não testemunharei, apesar da minha tola e morta presença: um frasco de formol.                                                      

           

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Os Dilacerados (Parte 1 e 2)









     Uma e vinte-sete de uma nova Quarta.



    
    I.


    Deus do céu, pensou ele; se alguém chegasse a descobrir, ele matar-se-ia. Queria matar-se agora mesmo, neste instante. Havia três horas que acontecera, e o seu amigo, seu melhor amigo, tinha-se enganado, achando que ele logo se sentiria melhor, porque nada havia adiantado. A passagem do tempo não havia adiantado. A cocaína não havia adiantado. Ficar junto com os outros não havia adiantado. Nada. Exceto, talvez, que agora estava menos nervoso e trêmulo da cabeça aos pés. Agora sentia um entorpecimento completo, com aquela sensação de náusea nas tripas e nos testículos que dava até vontade de chorar, e queria o esquecimento absoluto, a inconsciência, adeus e nenhuma recordação. Desviou os olhos da rua em frente para as suas mãos brancas, pregadas que nem ganchos brancos ao volante do seu poderoso Tucson Preto. Ouviu a voz do seu amigo no assento ao lado.

   - Ei, tem certeza de que você está bem?
   - Acho que estou - respondeu o rapaz - Acho que agora estou.
   - Pois não parece. Está com cara de enterro.
   - Estou bem - insistiu o rapaz. Virou o carro para a esquina que desembocava no quarteirão em frente, onde o seu amigo dividia um apartamento de luxo com dois outros individuos.
  - Não há motivo para se preocupar- disse o amigo, coçando por baixo da barba juvenil - Não pense mais naquilo. Faça como se nunca tivesse acontecido. Se nunca aconteceu, então não aconteceu. Pense noutra coisa, como se estivesse a praticar ioga ou coisa parecida. Sabe como é?
   - Estou bem - repetiu o rapaz.
   - Ei, calma, velho, você já passou da minha casa! 

    O rapaz pisou fundo no freio e a brusquidão da súbita parada fez-lhe bater o peito no volante. Mas não doeu. "Desculpe", disse, enquanto o seu amigo recuava do painel de instrumentos. Esperou que o amigo saísse do carro, mas o amigo continuou no mesmo lugar. Notou que olhava fixamente para ele. O seu amigo alisava o desleixado cavanhaque e a barba, sem tirar os olhos dele.

   - Velho, só mais uma coisa... - dizia o amigo. O rapaz esperou para ouvir que coisa era - É como eu passei a noite toda tentando te dizer. Não precisa ter medo, você está livre. Ninguém sabe que você esteve lá.
   - Ela sabe 
   - Ela não sabe o seu nome.
   - Esqueci disso.
   - Portanto, você está livre - repetiu o amigo - Mas há uma coisa. Se houver buchichos...
   - Você disse que não ia haver.
   - E não vai mesmo, basta você não deixar - frisou o amigo - É como eu sempre lhe digo, você é o pior inimigo de você mesmo. Essa coisa de morar com a família, por exemplo.
   - Cara, você sabe...
   - Claro, eu sei de tudo sobre o seu velho e você. É a única coisa que me preocupa. Você vai chegar lá com essa cara de doido fudido, e ele vai fazer que você se cague de medo até descobrir o que é que você andou fazendo. E aquele pedaço de mulher que você chama de prima... a sua priminha ruiva...
   - Num fode, cara.
   - Eu preciso dizer-lhe o que estou pensando. Você meteu-se numa enrascada, mas se confiar em alguém, é melhor ir já cavando a sepultura.
   - Já lhe disse que isto vai ficar só entre nós dois.
   - Então não se esqueça - advertiu o amigo - Porque se contar pra alguém, e a casa cair, lembre-se de uma coisa... você esteve lá sozinho. Eu não estava contigo. Só você esteve lá. Porque, se algum dia você disser que eu estive lá, vou considerar isso como um ato de traição, e terei de dizer à quem quer que seja que foi você quem a feriu. De propósito ou não, foi você. Portanto esse é o nosso segredo. Eu não estive lá. Assim nunca posso dizer que você esteve. Compreendeu?
    - Okay, cara.
    O amigo abriu a porta, depois hesitou e mostrou-se amigo de novo:
    - Mas como lhe disse, não há nada para se preocupar. Não aconteceu nada.
    - Okay.
    - Fique só com a boa recordação, como eu. Você tem de reconhecer que foi uma grande foda.
    - É.
    - E agradeça-me por tê-la aberto para você. Ela tava mais apertada que uma concha quando eu meti. Mas depois que entrou, foi o mesmo que escorregar num trenó cheio de graxa, e com ela a se esganiçar, a morder e a bater o tempo todo, quase gozei no mesmo instante. Foi do caralho.
    - É, foi do caralho - concordou o rapaz. - Só que...
    - Esqueça o resto - atalhou o amigo -Você sabe qual é a minha filosofia. Fique com as boas recordações e deite o lixo pra fora. Lembre-se disso, velho.
   - Okay.
   - Vá direito para casa!
   - Vou.
   - Então até amanhã. A gente se fala na saída da facul. Falou. 

   O amigo saiu do carro, entrou na portaria do condomínio de alto padrão e desapareceu depois do portão interior. O rapaz tirou o pé entorpecido do freio e pisou o acelerador. Conduziu a Tucson em direção à Paulista para tomar a Augusta e rumar para casa, nos Jardins. Era o caminho mais curto, e ele queria chegar o mais depressa possível, porque estava sozinho e não suportava a solidão durante muito tempo. Especialmente hoje à noite, do jeito que se sentia, pior do que nunca e ainda por cima com tendências suicidas. Mas ao alcançar a Augusta, esperando que o sinal abrisse, e virando o carro à esquerda, percebeu outra coisa.

    Não estava sozinho...




   Dezesseis minutos para uma nova quinta

 


  II.


    ... levava a garota com ele, aquela garota que se esganiçava toda, aquela peitudinha de dezessete anos. Só que agora não se esganiçava, não. Estava imóvel, feita um cadáver, sem emitir um som, o menor movimento.

    O rapaz considerava-se um sujeito de memória visual, porque tudo o que imaginava ou lembrava ocorria de forma puramente visual, em quadros gráficos, não numa série de diálogos palavrosos, como acontece com outras pessoas. Bem que gostaria de estar sozinho agora, mas não estava. Bem que gostaria de não possuir memória visual, mas possuía. Lá estava aquele único quadro, continuando a projetar-se na tela do seu cérebro. O único quadro que a memória registrara antes de ir embora, antes que o seu amigo de lá o arrastasse. A garota deitada de costas, completamente nua, sobre o tapete ao lado da cama. Estendida de pernas abertas, livres, as coxas carnudas e brancas afastadas e imóveis, de modo que o que mais se notava era aquela saliência cortada ao meio, à mostra entre os pêlos púbicos, que parecia o talho dos lábios franzidos de uma mulher. E com a mão encostada à mesa-de-cabeceira e a outra pousada no umbigo, os pequenos seios leitosos e pontudos, a boca caída, os olhos fechados, o sangue vermelho a escorrer da nuca e do cabelo emaranhado, que era de um castanho velado. O quadro era este. Tentou arrancá-lo da lembrança, e durante algum tempo conseguiu-o, mas logo outros se insinuavam, por ele ser tão visual. Podia ver os dois, seu amigo e ele, com as suas Cocas, no Locomotiva Clandestina, o ponto onde costumavam dançar na Nove de Julho, e o seu amigo ouvindo a garota dizer para alguém que gostaria de encontrar uma carona para voltar para casa, e o seu amigo a puxar conversa e a dizer que o seu camarada tinha carro e onde é que ela morava?, porque se não fosse longe demais seria um prazer levá-la. Chamava-se (...) e morava num apartamento com outra moça, (...); era logo acima da Consolação, perto do cemitério do Araçá, de modo que não ficava longe.

    Outro quadro. O carro estacionado diante do prédio, ela no banco de trás, com o seu amigo, que não parava de apalpá-la, e a coxa dela a aparecer onde o micro-vestido de algodão repuxara, e o rapaz só a pensar em rasgar-lhe a roupa toda e copular a noite inteira, imaginando como seria, tudo visual, quando de repente o seu amigo desce do carro e ela também, e ele faz-lhe sinal, dizendo que vão provar que são cavalheiros, acompanhando-a até à porta do apartamento.

    Outro quadro, lá em cima, dentro de casa. Ela levanta-se para ir ao toalete, que fica ao lado do dormitório. Seu amigo a piscar-lhe o olho e a bater no pênis, dizendo que não há dúvida que ela quer, mesmo que não saiba, que tava na cara de putinha dela, assim talvez seja melhor esperar por ela já no quarto, e depois que ele acabar, então passa para o rapaz.

    Outro quadro, a porta do quarto a fechar-se nas costas do seu amigo. E ele a beber uma daquelas Bud's que ela trouxe da cozinha. Dali a pouco a porta entreabre-se, e seu amigo ali parado, sem um fiapo de roupa no corpo, grandalhão e cabeludo, com aquela coisa enorme, grande mesmo, caída no meio das pernas, e o amigo sorrindo e dizendo, “ Farei uma pequena surpresa pra ela, você vai ver". No mesmo instante, a voz dela, e o amigo a entrar depressa no quarto, a voz dela protestando, dizendo qualquer coisa a respeito de sua amiga, a companheira de apartamento, e o universal e inconfundível barulho de luta. E depois ele próprio a pôr-se em pé e fechando bem a porta para não ouvir mais nada.

    Outro quadro, confuso. Só que lá está ela, agora na cama, e ele próprio nu, e a umidade no meio das coxas dela e a mão dele a tapar-lhe brutalmente a boca. E depois, das lidas terminadas (lidas rudes, desprazerosa e egoísta) o quadro em que ele se levanta, pegando nas cuecas e nas calças, e ela corre atrás dele, à golpear-lhe com inusitada rudeza, e ele larga as roupas e tenta espancá-la, e ela a recuar num salto, o tapete a escorregar sob os seus pés, e ela caindo, esborrachando a cabeça contra a quina pontiaguda da mesa-de-cabeceira, encolhendo-se, resvalando no chão, procurando erguer-se de novo e rolando de costas. E depois a montagem de vários quadros, desta vez com diálogo. Seu amigo, ainda nu em pelo, entrando correndo no quarto, dizendo o que diabo você fez?, e ele gaguejando, balbuciante, que foi um acidente. Seu amigo dizendo para ele se vestir depressa. Seu amigo debruçando-se sobre ela e proferindo um caralho!, ela desmaiou mas graças a Deus está viva e respirando. Ele vestindo-se e querendo chamar um médico. O amigo arrancando-lhe bruscamente o telefone das mãos e perguntando se ele tá doido, porra!, seria cana certa para os dois, afinal revezaram na agradável brincadeira, simultaneamente violentaram uma menor, e isso ainda era malvisto no país. Ele insistindo num telefonema anônimo para um médico e o seu amigo teimando que não, obrigando-o a terminar de se vestir, dizendo-lhe que a outra moça vai voltar a qualquer instante e chamará o médico e que a garota está bem, talvez não poderia ser nada mais que um coma á-toa e vamos dar o fora dessa porra enquanto é tempo.

    O primeiro quadro de novo. Contemplando mais uma vez o corpo nu, as pernas rijas e abertas, a rigidez da adolescência feminina. O resto dos quadros sumindo-se aos poucos, cada vez menos nítidos. Quase só fragmentos de diálogo, com pedaços e trechos visuais. Já no carro, o amigo dirigindo e dizendo que "você não está em condições de ir para casa ainda, vamos lá na Garagem", que de fato era uma garagem que o amigo e a turma alugaram e decoraram como uma espécie de clube para os caras se reunirem e cheirarem uma farinha, e ele respondendo que tudo o que o seu amigo quiser fazer ele aceita. Estacionado o carro, eles caminhavam para a Garagem e o seu amigo dizendo que decerto não ia acontecer nada de maior importância, porque se a garota estava arrombada, sem piores consequências, não daria um pio, senão teria de explicar como aceitara que dois caras fossem pra casa dela, pois afinal de contas não havia indícios de que alguém tivesse invadido o apartamento para violentá-la, e se o ferimento era sério ou coisa pior ainda, como ele tinha que admitir que parecera sério à primeira vista, então ela não estaria em condições de falar e portanto ponto final. Na garagem havia três sujeitos e duas garotas, gente da casa, e coca à farta, e apesar do incenso, o cheiro da erva estava forte demais, mas ninguém fazia caso e até o rapaz deu conta de duas carreiras e puxou uma cannabis, tragando fundo, retendo o fumo e acalmara-se um pouco, só um pouco, mas não o bastante. Depois, ele e o amigo foram dar outra longa caminhada, até que pudesse assumir a direção sozinho, e fez questão de mostrar que já se achava melhor e então levou seu amigo de carro até ao apartamento dele.

    Um último quadro, de novo, de novo, o primeiro. A menina deitada de costas no chão, completamente nua sobre o tapete ao lado da cama, com a saliência vaginal úmida e o cabelo ondulado manchado de sangue. Precisava controlar-se, senão estaria a procurar sarna para se coçar. Olhou o relógio no painel de instrumentos. Quase meia-noite. A mãe e o pai já deviam estar dormindo. Sua prima provavelmente, também. Estava salvo. Girou o volante ao chegar ao posto de gasolina da esquina e saiu da Avenida ainda movimentada, acelerando o carro, ladeira acima, até chegar ao portão de entrada de sua enorme casa. Deslizando entre as sebes, cruzou o portão que era aberto à sua passagem, apagou os faróis e rumou lentamente para a ampla área de estacionamento de chão acimentado em frente ao abrigo de automóveis. O Range Rover do pai já estava no lugar de costume. Encostou o seu carro ao lado. Só quando se afastou do abrigo, dirigindo-se à entrada da casa, foi que percebeu que havia luz por trás das cortinas do hall. A mãe, que era inválida, poderia estar dormindo, mas, no mínimo, o pai recebia alguns amigos. O mais provável é que fosse sua prima, que tivesse ficado acordada, a estudar. Precisava estar preparado para tudo. Teria de mostrar-se calmo e natural. Os quadros se haviam sumido da sua lembrança e sentiu-se mais seguro, mais garantido. Alcançando a porta de entrada, guardou as chaves do carro no bolso frontal do jeans e remexeu nos bolsos traseiros à procura do chaveiro de prata com a placa que tinha o seu nome gravado, presente de sua prima no último aniversário - o vigésimo primeiro. Tinha as chaves do carro e da casa em chaveiros separados, pois dividia o Tucson com sua prima e ela esquecia sempre das suas n'algum lugar e pedia emprestado as dele. Parado na porta, o rapaz esmiuçou o fundo do bolso à procura do chaveiro de prata com o seu nome. Não estava ali. Experimentou o outro bolso. Tão-pouco. Preocupado, retornou ao carro e revistou o seu interior. Nada do chaveiro.

    Um ultimo quadro, de novo, de novo, o primeiro. A menina deitada, pernas abertas, saliência vaginal, sangue coagulado na testa, que deslizava de maneira crua pela face direita... Ele apalermado testemunhando a cena, os ouvidos reboados pelas ordens de seu amigo, apanhando atabalhoadamente suas roupas. O claro tilintar de algo que caíra do bolso de suas calças para perto da menina lânguida e desfalecida, e que por obra e graça de seu desespero ele não dera maior importância.

    Um calafrio de apreensão gelou-lhe o peito, e então sentiu pânico.

sábado, 24 de novembro de 2012

As 3 faces da desatitude






Sábado, uma e pouca da tarde.


1-
Pior do que não encontrar as palavras é ter de medi-las.
Pior do que ter de medi-las é arriscar errá-las.
Pior do que errá-las é ter de engoli-las, e ficar com esse bolo na boca do estômago comprimindo o tanto que se desejou dizer.

Ajuda-me a libertá-las e eu pronunciarei teu nome como quem canta uma canção.



2-
Faço tudo que não quero. E o que quero fazer não faço... Me adio... E adio.

3-
É certo preferir o adiamento à atitude? Normal supor ser preferível uma inércia à decisão crua e seca? Até aqui reside a relatividade: se a indecisão é uma espécie de decisão decidida para adiar a decisão errada, essa desatitude, em contrapartida, pode ser o único e último segundo do suicida antes do vertiginoso salto, em que a sua vida poderia ser refeita e reestudada, reavaliada e resumida, e há nessa derradeira inspiração a coragem humilhada em que se decide o adiamento do passo fatal ou a fatalidade do passo não-adiado. Prefiro pensar desse jeito, adotar esse teorema: assim não me sinto tão culpado em não fazer o que poderia ter feito, quando era tempo.

A indecisão salva um suicida.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Deixo-me estar (os R$10,00 perdidos)





Sexta-feira, manhã



Emmanuel Nery, Prostituta, acrílico s/ tela 55 X 46cm, 1986



Á Henrique Rosa Nunes


    
    O sal das minhas lágrimas me faz relembrar tudo o que já perdi e o que até agora certamente perderei... Mas assim deixo-me estar; tua luz suja não mais alumia minhas mal deglutidas noites, tuas palavras não mais desperta em mim a necessidade de ter comigo aquela vida pacata que sempre/jamais desejamos um ao outro. Mas assim deixo-me estar.
   
    Uma luz quase carmesim atravessa, à muito custo, minhas pálpebras fechadas, mas o sonho que agora sonho acordado exibe-se tal como eu gostaria de vivê-lo - sem uma mínima réstia de luz, sem sequer um miserável restolho de minguadas esperanças, sem a alegria que preenche a vida dos tolos provincianos e daqueles tipos de pessoas que sentem, ridiculamente, prazer em morrer em nome do que chamam de "grande amor". Ainda na consoladora vigília, ainda nesse quarto de hotel, de paredes verde-oliva carcomidas pelo anacronismo dos dias, sobre esse lençol deliberadamente amarrotado e tendo ao alcance das mãos essa cerveja deliberadamente morna, eu estava feliz, seguro e excitado pela fresca e aconselhadora aragem que invadia o quarto através das ausentes persianas. Assim deixo-me estar, nessa minha espécie de confusão portátil, nessa quente solidão, nesse incômodo ininterrupto proveniente da prisão de ventre, dessa dor na alma por esses pensamentos de morte, pelo desejo que em mim arde por sua morte nem tão longínqua e muito almejada, com as dores que só a pura alegria pode proporcionar, veja bem. Bem plausível que agora, nesse momento em que vegeto nesse sexto andar, num aposento onde o odor de naftalina, mofo, urina e sexo se misturam e coalizam-se com a mesma fidelidade das genitálias feminina e masculina, possa estar você inteiramente entregue ás revoluções de uma ruflada língua d'algum homem, infeliz (sem porém o saber) por ser alvo de seus amores e suas lascívias, e satisfeito pela quentura de teu sexo no imperfeito encaixe do breve e inevitável coito, selvagem e inassimilável - dentes e lábios e excitações e suspiros. Mas que inopinável e desgraçada moléstia me fez admitir que ainda a amo, mesmo estando agora entregue aos desejos de outro, outro sempre cordato e apto á pagar-lhe o tempo de serviço, os amores de mentira, como de mentira são os rogos dos catequistas, as estopas das marionetes, as promessas das mulheres? Ainda a amo, e ainda quero-a morta. O suor transborda a minha testa glabra, e profetizo, serenamente, a breve promessa duma ereção, só por ti pensar, minha súcubo, só por tê-la imaginado sobre um homem, sobre o miserável ofício das damas de calçadas, sob sete palmos de terra. Mas assim deixo-me estar.

    Por ti fui usado e descartado como tão bem você utiliza do prazer efêmero de um orgasmo e o descarta até a inevitável próxima vez. Levanto-me, apanho a cerveja já quente e saboreio-a de um só trago. Acendo o último Marlboro de um maço consumido em menos de duas horas, e com o cigarro dependurado despreocupadamene entre os lábios ressequidos, visto-me de maneira calculada, resignada, pensativa - nada como o sabor da calmaria antes da tempestade, nada como a reflexão última do suicida antes do salto final, nada como o carinho e o beijo do assassino antes da esganadura imposta á sua vítima. Será que conseguiria alcançar-te, levando em conta o fato concreto de que abandonara-me já há algumas horas, alegando não poder ficar a noite inteira, proferindo o lema chulo das prostitutas de que tempo é dinheiro, de que o prazer dos outros seria o prazer do teu dono, cafetão, michè, cão-alfa, o diabo? Sei onde moras, sei onde atuas, sei onde vende teu corpo de puta, sei onde exerce a sua sagrada e volupiosa lavra, sei muito bem, minha amada morta, onde permite-se abrir como uma flor da madrugada teu sexo, tua boca oculta, para dezenas de homens dispostos á pagar-lhe as dez pratas exigidas, sempre antes das lidas. Sei onde te encontrar. Abandonara-me, e na doce morte você fenecerá.

    Enclausuro meu gélido instrumento nas quentes sombras do interior das minhas calças, na frente, próximo à ferramenta cáustica por ti já utilizada e tratada como um pedaço de entulho. Verifico e me satisfaço com o fato de que o revólver permanece convenientemente carregado. A Zona me espera. Você, mesmo sem saber, me espera, minha doce puta. Meus dez reais, o que de bom grado me desfiz pelo seu desfeito amor, também me espera. Só uma vez a encontrei, e milhares de vezes a matarei.

    Mas assim deixo-me estar.




  
22:11 p.m. (calor, pernilongos e o cheiro acre da espiral que me arde os olhos)


    "Minha única culpa é não ter tido combustível suficiente para que ela aquecesse bastante as mãos e os pés. Escolheu-me como uma sarça ardente e, afinal, eu não passava de um pequeno jarro de água pendurado no pescoço. Pobrezinha, porra."

{Maldito Cortazar! Apesar de ser eu um medíocre, como não pensei nessas mesmas palavras antes que as mesmas pudessem aflorarem-se em sua mente genial???}





22:23 p.m. (Não acreditem na hora ao final do texto. Eu odeio configurações de qualquer tipo)


    Olhando, hoje, ao meu redor, não diria que algo não mudara em menos de dez anos.
  
    Não havia essa musica que agora adentra meus ouvidos sensíveis, esse mesmo som que atiça puberdades alheias, cujas volutas sinfônicas tornam irresistíveis às moçoilas não "descerem até o chão". Os carros não berravam ensurdecedoramente suas acústicas pesadas, e se berravam, até nos acostumávamos com o "Só love" do Claudinho e Buchecha. Ou "O Homem na Estrada", do Racionais Mc's.
    
    Não víamos (ao menos não nessas ruas) tantos jovens ensandecidos á cata de moedas perdidas para saciarem-lhes as ânsias escusas. Não havia, à cinquenta metros da minha casa, um "centro ilícito de distribuição", onde, com dez pratas nos bolsos, os desafortunados conseguem, com relativa facilidade, viajarem além do que acreditam ser o sétimo céu. E não faziam questão de demonstrar à quem quissesse (ou não) ver suas alegres estadas em seus nirvanas particulares.

    Há dez anos era lançado "O Homem que Copiava", tido por mim como um dos melhores longas brasileiros; testemunhei muito chororô no cinema com a ida de Bilbo Bolseiro junto aos elfos no desfecho de Lord of the Rings: The Return of the King e com a morte de Trinity em Matrix Revolutions. Johnny Depp chegara ao auge com o Capt. Sparrow em Pirates of Caribbean e eu costumava troçar com o título de mais um sucesso da Pixar, "Procurando o Demo."

    A Amy Lee, do Evanescence, brotava em minha mente algumas fantasias inenarráveis, devo confessar (e eu tinha, sim, o Fallen, o 1º album) - Bring me to life foi, nesse ano, considerada a maior (?) canção do mundo. Metallica lançava St. Anger, e eu me sentia o ser humano mais poderoso do mundo enquanto andava pelas ruas ao som de Frantic, que me reboava aos ouvidos (agora isso costuma acontecer quando ouço "The Way of All Flesh", do Gojira). Sinceramente entristeci-me com o falecimento do Sabotage e do Johnny "Man of Black" Cash, ao mesmo tempo em que me entristeci, hoje não saberia dizer bem o porquê, com a posse do Lula para a presidência da repúburra.

    Com pesar no coração, admito que eram estes os áureos tempos dos saques nas bibliotecas. Nessa época, uma questão batucava-me na mente: seria crime o furto de cultura para amadurecimento próprio? Ainda acho que não; e eu tentava me convencer disto, à guisa de consolo pelo que estava prestes á fazer. A escola filtrava incomodamente o acesso dos estudantes às minguadas instalações das bibliotecas, então nada mais (in)correto à fazer que não fosse a self-revolution tão presente nas obras do Córtazar e nas musicas do Killswitch Engage. Sempre que podia, subtraía um livro ou dois das prateleiras abarrotadas e poeirentas próprio da falta de uso, e nessas subtrações, juntei uma pequena mas notável coleção em casa, por sua vez subtraído (de maneira lícita, veja bem) por um dos meus grandes amigos e parceiro de crimes culturais, que não se conformava com a minha mania de ler muitos exemplares até as suas devidas metades.

    Era o tempo em que minha familia não era agraciada com as comodidades da Tv à cabo, e, para mim, um computador era um ermo sonho. Celulares de telas azuis à rodo nas ruas, a novidade dos Dvd's em cada casa, Linkin Park era, para mim, o rock mais pesado que se podia ouvir e a quentura dum abraço duma garota qualquer era o desejo mais inalcançável que eu poderia ter.

    Ainda assim, eram bons tempos. Eu lembro que...

(O Funk acabou? Ao que me parece, todos se foram, decerto para paragens mais amenas, outras calçadas e outros ouvidos d'outros cidadãos trabalhadores que se baterão na cama, tentando e não conseguindo dormir. Agora o fardo é com eles, e acabou-se minha inspiração. Voltemos ao "South Park")
 

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