Nove e vinte, quinta.
A cerveja sobre a mesa de alumínio do bar amornava-se enquanto, ansioso e paciente, eu aguardava a saída do marido, o corno preocupado em importar-se mais com a vida profissional do que com as oscilações negativas de sua vida conjugal. Ainda havia tempo: peço mais uma Skol ao Pedrão e sorrio quando sinto o arrepio dos pelos do saco que me espraiava pelo baixo-ventre, criando fagulhas de excitações nervosas da boca do rim, ou onde acredito que o mesmo possa estar situado. Com um suspiro, me esparramo na cadeira dobrável e vasculho os bolsos à cata de cigarros.
Adoro esses momentos, a expectativa que antecede a atividade, o troar do coração que se repercute nas têmporas abrolhadas com o suor das oito da manhã. Marlboro graciosamente acendido, observo o corno engravatado abrir e fechar a porta da frente da casa, verificar o chique relógio de pulso com gestos urgentes e, portando maleta reluzente de couro com fechos dourados, atravessar a largos passos o jardim da frente, quase tropeçar no skate verde-vômito esquecido à um canto por um dos filhos e atrapalhar-se com o molho farto de chaves, junto ao portão principal. "Mas que porra!", leio-lhe os lábios, mesmo longe, mesmo do outro lado da rua - maior motivo de orgulho, essa minha percepção de ave de rapina. Encontrando, afinal, a chave correta, o portão é aberto e ele o transpõe, deixando-o encostado para a filha que vêm logo atrás, baixa e rechonchuda, mochila rosa às costas, um formal rabo-de-cavalo nos cabelos cor de ouro escuro, formalidade essa que violenta desnecessariamente sua doce aura infantil. Inteiramente trajada por uniforme escolar, atinei com a imprevisibilidade da situação: a menina seria, pelo pai, levada á escola, e de lá o corno guiaria ao trabalho. Mas e o outro filho? A rotina da família, por mim revisitada vezes sem conta, ameaçava-me com essas chatas surpresas de ultima hora: o filho menor faltaria á aula. E agora?
Mergulhado num prurido mental que logo se transformava em desespero, vejo a filha gordinha - que nada, em suas feições, se adivinharia filha do corno - mergulhando, através da porta aberta pelo pai, no banco traseiro da imensa picape negra, que vibrava com o potente motor já em atividade, porém em repouso - meia hora antes, o corno retirara a bichona da garagem e estacionara em frente á casa, enquanto a filha ainda se preparava pro colégio.
- Merda... Merda - profiro, o coração aos pulos, o cigarro já apagado no canto da boca.
A frustração é uma puta travesti, concluí: nos tenta com doces promessas de seus corpos ilusoriamente maravilhosos para, na ultima hora, constatarmos a crueza da realidade, a surpresa ultima - um pinto enorme no meio das pernas. O corno engravatado já punha a picape na primeira, e lentamente, vomitando pelo escapamento uma fumaça sutil, quase perfumada, própria dos carrões superiores á cem mil reais, realiza a manobra e toma a pista da direita, passando rente à porta do bar de onde os observo, agora temeroso - ao ver seus óculos escuros, estilo Dolce & Gabbana, duramente aninhado sobre o nariz aquilino, todo ele um galo esnobe, deu-me ganas de parar aquele carro e sem motivo aparente, além do meu profundo desprezo, enfiar-lhe raiban, o Dolce e o Gabbana cu adentro, sem vaselina, filho da puta. Bem na frente da filhinha, pra ela saber que tipo de corno perdedor era o pai dela, narigão do cacete.
Percebi que realmente as coisas não estavam rolando de acordo com o combinado quando me certifiquei da ausência da gostosa, que deveria acenar para que eu entrasse em cena, a minha tão almejada deixa. Era a primeira vez que algo do tipo acontecia: sempre me baseei em minhas parcas, porém próprias e inigualáveis experiências pessoais, e como até agora tais encontros fortuitos sempre deram certo, não haveria com o que me preocupar agora; ingenuidade minha, afirmar que se surpresas de ultima hora ocorresse mais dia menos dia, eu seria esperto e ágil o suficiente para subjugar o obstáculo bem antes do seu surgimento, o que de fato não constituiria uma surpresa. E agora que a surpresa já se apresenta, nítida e fugaz, capturando-me num despreparo de menino simplório, desorientei-me, receei o sopro da frustração que se achegava em mim. Mas ainda tive sangue frio de aguardar - a vida era toda feita de inconveniências, e a gostosa tinha plena ciência que eu estava ali, esperando por algum sinal, dentro dum boteco do outro lado da rua, atrás de duas garrafas de cerveja, apenas aguardando por um gesto, que traduziria, numa muda voz: "Pode vir, a barra tá limpa."
A dona estava ás voltas com o filho que não fora à escola, só podia ser. Afinal, porque o pirralho faltara à aula? Moleque filho da puta - por isso não tenho filhos, só servem pra atazanar, encher os culhões da gente. A menina loura, que decerto era a mais velha, até que era engraçadinha, bochechas rosadas, bonitos cabelos amarelos, peitos já despontando sob a blusa do colégio, olhos grandes e cinzas - puxara á mãe, cópia cuspida e cagada. Checo as horas no relógio de plástico barato que se sustentava na parede atrás do balcão do Pedrão: 8:27 hs. A empregada da família chegaria em uma hora e meia, no máximo. Eu teria que agir por conta e risco, o tempo corria contra mim. Umedeci os lábios secos, sorvi o ultimo gole da cerveja já horrivelmente morna e acendi outro cigarro, enquanto, em meio ao receio, sinto aflorar novamente, dos bagos, a sensação de expectativa que me levava ao êxtase. Lá atrás daquela porta de mogno com entalhes que lembravam pássaros e juncos, no quarto da mulher, um paraíso se descortinaria diante de mim: a jovem esposa do corno, nuazinha, solícita e súplice, vertendo lágrimas que denunciava-lhe o tesão e que rolava teimosamente sobre o rosto branco, o amor em todas as suas formas. E o corno trabalhando em sei-lá-o-quê, sem de nada suspeitar... E como combinado, a mulher, a gostosa, deveria aparecer, quando tudo já estivesse seguro, acenar discretamente e entrar na casa, seria essa a minha hora, a minha deixa; ali estivera eu em ansiosa espera por toda aquela calorenta manhã. Mas o filho não fora á escola, o que significava que ela não mais estava sozinha - sobre tudo isso, ela não aparecera no quintal, á anunciar a hora sagrada. E a empregada, preta e velha, chegaria às dez. Sem medo, sem afobações, sem problemas: era hora de agir.
- Pedrão? Eh, Pedrão?
- Fala, chefia.
- O telefone ainda tá funcionando?
- Do balcão?
- Isso.
- Tá sim.
- Posso usar? É rapidinho, assunto de família. Menos de dois minutos. Coloca a tarifa na minha conta.
Simples meneio da enorme cabeça negra do Pedrão, fui pelos lados do telefone que ficava próximo à pia do balcão e disquei um numero de celular. Enquanto chamava do outro lado da linha, pude visualizar a filha adolescente do Pedrão ás voltas com a limpeza da minuscula cozinha do bar, varrendo o chão de cerâmicas sujas. De costas para mim, ligeiramente curvada, divisei um pedaço da macia carne morena do interno de suas coxas, o que apenas somara-se ao tesão do momento que se avizinhava.
- Aloã.
- Gostosa?
- Oi, gostoso.
- E aí? O que aconteceu, pô? Tô esperando o teu sinal!
- Eu sei, eu tô aflita também. O Paulinho não foi pra escola hoje.
- Logo percebi. O que aconteceu com ele?
- Amanheceu doentinho.
- Tá, mas e agora? Molhou o negócio?
- Não, num molhou não, gostoso. O Paulinho tava um pouquinho quente, tomou um remédio e foi pra cama. Pode ser que ele durma a manhã inteira, se deixar.
- Até aí, tudo bem. Mas e o barulho que faremos? E se ele acordar e nos pegar no flagra? - sorrisos sacanas do outro lado.
- É só a gente agir com cautela e maneirar na zoada. E vê se segura tua onda, gostoso. Não vá com muita sede ao pote. Teremos que ser rápidos, não teremos outra chance como esta.
- Certo. Então, você ainda vai dar o sinal?
- Vou. Apareço, aceno e você entra. Já vou estar te esperando.
- Certo.
Desligamos com pressa, amassei o filtro do cigarro no cinzeiro ao lado, lancei um derradeiro olhar à cozinha, onde não mais avistei a filha gostosinha e grunhi um agradecimento ao Pedrão, que estava ocupado atendendo a corja de bêbados inveterados. Paguei a conta, e informei: "Fique com o troco, chapa".
Dissimulado como um padre pedófilo, surgi à porta do bar, fingindo preguiça na indolência da manhã. Mas meu íntimo estava alvoroçado, eu sentia em mim um vulcão prestes á explodir, uma ânsia de esporrar-me na gostosa, apertá-la como se aperta um pêssego maduro e mergulhar-lhe entranhas adentro, intensas e pujantes sensações que me travava a boca e me apertava o estômago. Acendi mais um cigarro, o ultimo - depois do sexo, o cigarro possui um sabor que, ao meu ver, muito se assemelha à um segundo orgasmo, doce e soberbo, e isso não poderia faltar. Quando me preparava para novamente adentrar o boteco e pedir outro maço de Marlboro, alguém aparece na porta da casa, do outro lado da rua. Era ela, a gostosa. De short curto, blusa minúscula e cabelos ainda esparramados pela noite de sono, ela apareceu, desapareceu pela porta e tornou a aparecer - decerto ouvira um ruído e fora checar, acreditando ser o menino doente. Atento aos seus movimentos, vi claramente quando ela, a rainha da dissimulação, atravessara o jardim da casa à passos mínimos, indiferente ao tempo curto á que dispúnhamos, chegara no portão de ferro trancado e o destravara com uma única chave própria. Já do lado de fora, na calçada, ela cumprimentara uma idosa, talvez uma de suas muitas conhecidas, e ligeiramente curvada pro lado, o que denotava despreocupação, levantara os braços, espreguiçando-se de maneira anormal e forçosa; era aquela a deixa, o aceno pré-concebido, o sinal de que a festa começaria dali á pouco. Sem sequer lançar uma olhadela para mim, que continuava imóvel na porta do bar, ela dá meia volta, encosta o portão, novamente atravessa o jardim e entra pela porta da grande residência, provavelmente agora entreaberta num simples convite. O portão de ferro, também entreaberto, ficou oscilando para frente e para trás, também convidativo.
Com um suspiro interminável, mãos nos bolsos mormente o calor estafante, atravessei a rua e acheguei-me ao portão. Não entrei de súbito, porém; apesar do tempo escasso, era preciso ter o máximo de cautela. Encostei-me ao muro chapiscado da propriedade, muito próximo ao portão, abaixei-me e fingi amarrar os cadarços. Nessa posição, visualizei, na oculta maneira dos dissimulados, todas as pessoas que passavam por mim, e finalmente obtendo a constatação de que minha presença ali era totalmente inconspícua, levantei-me e lentamente transpus o portão aberto. Do outro lado, já no interior da propriedade do corno, percebi que a gostosa pendurara, muito espertamente, o cadeado aberto no trinco do portão, e captei a muda sugestão de que eu deveria trancar o mesmo, para não sermos surpreendidos em plena ação, ainda que o pirralho tivesse permanecido na casa, numa frescura de criança. Mas deixe estar; estava satisfeito demais pra pensar nessas coisas.
Pé ante pé, dirigi-me à porta da casa, que como havia atinado mesmo de longe, estava minimamente entreaberta. O interior estava mergulhado numa penumbra leitosa e suave, a luz clara da manhã filtrada pelas cortinas finas de seda que cobriam as belas venezianas da sala de estar. A ultima coisa que percebi, um segundo antes de entrar, foi a frase grafada sobre o capacho de poliéster marrom na entrada - "Deus mora nesta casa"-, palavras deliciosamente sacrílegas àquela hora da manhã, naquela situação. Entrei, e aproveitando a chave principal que a gostosa havia se permitido esquecer na fechadura, tranquei a porta.
Cont.


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