09:45. Sexta.
A penumbra era tão suave que chegava a fazer cócegas na pele.
Tranco a porta de entrada e aguardo por necessários segundos que meus olhos se desacostumem com a límpida claridade que imperava lá fora e se submetam ao tênue escuro do interior da casa. Um cheiro vago de café fresco flutuava no ar. Olhei ao redor e não encontrei a gostosa, que já devia ter subido aos andares superiores, aos quartos de dormir. Esperava, decerto, que também eu subisse assim ultrapassasse a porta, para iniciarmos de vez a brincadeira. Mas agora o tempo estava á nosso favor. Satisfazia-me o rumo dos acontecimentos, tão imprevisíveis à meia hora atrás.
Descalço os sapatos e sinto a textura do carpete felpudo que cobria por inteiro o assoalho da sala. Lentamente, como se trafegasse em terreno minado, caminho a esmo pela vasta peça e examino fugazmente cada objeto ali encontrado, cada item esbanjado com tanto desapego, cada porta-retrato de finas molduras prateadas. Aqui e ali, alguns quadros contendo rabiscos horríveis, denominado tão pomposamente por arte, hoje em dia. O televisor, cujas polegadas da imensa tela plana não me fora possível discernir, refletira por um momento minha furtiva silhueta, que contrastava com a luz pouca filtrada pelas cortinas. O lustre cristalino da sala, que se pendurava exatamente acima e à direita da minha cabeça, parecia tão frágil que não seria surpresa se estilhaçasse com apenas um golpe de vista. As cortinas salmão permaneciam imóveis e além das bonitas e enormes venezianas, um jardim particular, canteiros de flores, uma bola colorida sobre a grama esmeradamente aparada, um pé médio de goiaba - era o canto particular da mulher. Cambada de yuppies.
Transfiro-me da sala à cozinha, que alcanço rapidamente além de um pequeno corredor de paredes brancas, coalhada de retratos da família. Á primeira vista, ocorreu-me que eu estivesse num daqueles odiosos programas matutinos de receitas, tão em voga entre as donas de casa suburbanas, que espocavam nas manhãs das programações televisivas. Lembrei da minha velha mãe, que batalhara por toda a vida sem um mísero descanso e por bem desejaria, mais que tudo inclusive, ser dona de uma cozinha como esta, o paraíso das matronas, onde o branco imaculado reinava e as baratas eram reluzentes de limpeza. Porém, nada aqui havia que me interessasse. Distinguindo através da azulada penumbra um display luminoso e retangular sobre a mesa, que em nada se parecia um relógio digital, certifico-me do horário, 8:52 hs. Bom, vamos fazer o que viemos aqui fazer, confidenciei aos meus botões, Instintivamente, olho para o teto imensamente alvo da cozinha, onde por sobre a camada interna de concreto possa estar situado o quarto de casal da mulher e do corno engravatado, e sinto eriçar os pelos púbicos. Sorrindo, massageio o saco e dou meia volta em direção ás vastas escadas que davam acesso aos pavimentos superiores.
Economizando a largura dos passos nos degraus de madeira envernizada, chego ao topo. Ali estava mais escuro que lá embaixo; porém, uma lâmina de luz, mesmo que tímida, se deixava entrever além do corredor, a uns vinte passos em minha reta - a porta entreaberta do quarto de casal. Antes dessa porta, na parede da esquerda, havia mais duas portas onde eram facilmente visíveis alguns recortes coloridos em papel crepom e cartolina, que representavam corações, insetos. aves toscamente idealizadas, algumas letras, todas coladas à madeira - ambos eram os quartos dos pirralhos. Num destes deveria estar o moleque doente, que quase fudera com todo o plano. Na parede da direita, mais duas portas, uma delas quase que totalmente aberta: o segundo toalete da casa. Além deste, uma ultima porta, onde nesse exato momento uma silhueta esguia e ligeira ultrapassara-lhe os umbrais e se dirigia, sem ruído algum, á porta entreaberta do dormitório de casal. Era a gostosa. Eu observava imóvel e um tanto extasiado a crueza de suas ações: ela espiara para dentro do quarto de casal, retornara na ponta dos pés ao quarto de onde saíra e fechara mansamente a porta; admirável o silêncio e a desenvoltura ímpar com que ela pontilhava seus métodos. Alguns segundos depois, ela repetira o procedimento cauteloso agora no quarto da criança, mas desta vez servira-se de uma pequena chave retirada do bolso de seu short curto, trancando com infinita precaução a porta do quarto onde dormia o filho menor. Concluída a tarefa, ela me olhou, como se dissesse, numa ordem inaudível: agora é a sua vez. Não resisti ao impulso de puxá-la um tanto rude pela nuca e beijar-lhe com força nos lábios cheios, como uma merecida recompensa, e ficamos alheados nas circunvoluções de nossas bocas por quase três minutos. Depois disso, apenas uma frase, um ultimato, foi por ela dita na escuridão:
- Eu te espero lá embaixo. Seja rápido.
Assenti e nos despedimos momentaneamente, não sem antes novamente nos beijarmos ávidos e apressados. Senti-lhe o gosto vago de café em sua língua.
* * *
Entrei no quarto, e sem olhar para a ocupante, encostei cuidadosamente a porta; eu parecia querer adiar ao máximo a entrevisão da paradisíaca promessa, adoçando mais e mais a surpresa e o prazer, que à esta hora estavam em mim como uns animais indomáveis. Finalmente virei-me e vi: ela dormia à sono solto, barriga pra cima, espalhada desordenadamente pela vasta cama, sobre os amarfanhados lençóis de pura seda. Uma luz brotava de algum lugar do aposento, o que me desorientou, visto que as janelas estavam cerradas e as cortinas abaixadas - tanto melhor, é claro; assim eu poderia discernir toda a cena, assistir á todo o show como o ativo espectador. Nem me dei conta do que mais poderia haver naquele quarto que merecesse certa atenção de minha parte: naquele momento era ela, ela e nada mais, que me arrebatava, denegria meus sonhos e levava-me á cometer as loucuras que há tempos não cometia. Desde que a vi, solta e livre à dialogar com os vendedores da feira, todos tão solícitos para com a gentil madame, benfeitora e generosa auxiliadora dos carentes, boa samaritana á se voluntariar nos mais variados programas do governo em favor das famílias pobres, pediatra formada que se orgulhava pelas muitas gratuidades de suas consultas, doida que era por crianças. Monumental golpe do destino envolver-me com sua jovem irmã caçula, ambiciosa e tão mau-caráter quanto o tinhoso, magistral arquiteta de planos doentios de tomar para si toda a suculenta posse material da família que a acolheu com tanto afinco desde que retornara de suas desventuradas andanças pelo exterior, sem um mísero puto no bolso. Jovem ainda, sacana como uma velha raposa, fornecera dados e rotinas, manias e trejeitos: o marido saía para trabalhar, levando á tiracolo os dois diabinhos pro colégio. Dou-te o sinal, entramos e fazemos o serviço, será fácil, gostoso. Planos repisados dezenas de vezes após os incontáveis sexos, se bem era ela dona do rebolado mais flexível e maneiro, a filha da puta. Ora, mas ela levava o que queria, então por certo também eu levaria o que sempre quis. Sinal de concordância de sua parte, nesse momento atinei a maldade inominável que germinava no interior daquele corpinho de dezessete anos de idade. Puta que pariu, você é maluca, hein menina!, e rimos à não mais poder.
Aqui estou eu, finalmente examinando a madame gostosa, irmã mais velha da gostosinha, e rapidamente revisitando em teoria tudo o que eu estava prestes á praticar. A mulher estava de braços molemente cruzados sobre o peito, e á simples constatação de seus vastos seios branquíssimos que se apertavam um contra o outro sob a regata leve de dormir, à custo segurei meus impulsos primevos que se amotinavam por todo o meu corpo. Era esta a hora tão ansiada: espiando ao redor, como se eu realmente desconfiasse que um arcanjo salvador ali estivesse espreitando-me no escuro, prestes à cortar-me ao meio com a espada flamejante da justiça, retirei as meias, desatei o cinto, arriei as calças e retirei a camisa, tudo na mais perfeita ordem, no mais notável silêncio. Dobro impecavelmente as roupas e disponho-as num canto do quarto, bem próximo à porta. Meu coração era um leão louco numa jaula frágil, prestes á fugir e estraçalhar quem estivesse pela frente. Não mais conseguia conter a respiração ofegante, e meu peito volutava violentamente, como um asmático. Dirigi-me para perto da mulher que dormia, e quase choro ao perceber seus cabelos, que eram realmente maravilhosos, espelhados pelo travesseiro e ao redor de seu rosto delicadamente ressonante, emoldurando-lhe as feições e eternizando a imagem no fundo das minhas perturbadas retinas, a imagem que, burlando toda a realidade aqui engalanada, eu imaginava súplice, contida e permissiva; preferia imaginar que ela ali estivesse realizando um adorável papel de faz-de-conta, que ela soubesse que eu a estava observando, que dentro em pouco eu a tocaria, e ela sorriria ainda em sonhos como resposta ao leve toque das minhas mãos grandes roçando-lhe os suaves pelos dourados dos braços. Era, para mim, preferível imaginar que ela pensasse estar apenas sonhando, sonhando com um amante perfeito que enfim chegara, chegara finalmente para arrancar-lhe daquela vida modorrenta e rotineira de filantropias, livre para sempre das indiferenças do marido, dos filhos pestilentos, das consultas em hospitais públicos, trabalho de sua inteira preferência, mas que ninguém lhe dava os devidos e merecidos créditos. Eu era o cavaleiro branco e altivo que a libertaria, e voaríamos algures, para além do sétimo céu, num revoltoso mar de prazer e gozo com os quais ela sempre sonhara, mas que a sua pudicícia de amável pediatra, de boa-samaritana, de dona de casa classe alta, membro do conselho de pais e mestres do tradicional colégio dos filhos, frequentadora regular da paróquia do bairro, diretora de ONGs que favoreciam os menos afortunados da sociedade e, acima de tudo, sua respeitável satisfação de futura mãe, ainda com três meses de gestação, não a permitira, em hipótese alguma, de libertar-se das correntes da sociedade e entregar-se plena aos prazeres da carne - as aparências, sempre elas, precisavam ser mantidas. Não, não precisava mais, aqui estou eu para livrá-la de toda essa feira de máscaras e mentiras, quase me ouço pensar. Toda completa - pernas longas, coxas grossas, a flor oculta e perene sob o tênue tecido da calcinha negra, barriga rígida, seios fartos, rosto inacreditavelmente perfeito emoldurado pelos cabelos de ouro escuro - ela me aguardava, sei que me aguardava, cordata e pronta. Vagarosamente, quase á medo, abaixo a cueca, enquanto ouço o ruído surdo de algo caindo no chão nos andares inferiores: a gostosa, provavelmente, já estava amealhando os diversos itens de valor.
Foi exatamente nessa hora que a mulher acordou, num sobressalto - cutucada, talvez, pelo arcanjo flamejante, que no escuro à tudo assistia, o voyeur cretino. A primeira coisa que ela, ao despertar, constatara aparvalhada, fora o meu sexo terso e comprido como uma vara de marmelo, que apontava diretamente para sua cara inchada de sono, como uma seta letal armada no arco curvo - mais precisamente, pro seu olho direito, formidavelmente verde-piscina. Talvez pensasse que estivesse realmente num delicioso sonho, pois ficara olhando estupefata o membro pulsante por uns bons segundos, antes de levantar o rosto e divisar na fraca luz do aposento as minhas feições devastadas, encharcadas de suor. Então, impedi que ela começasse com a gritaria, antes mesmo que tal pensamento aflorasse-lhe na mente ainda em torpor.
* * *
A gostosinha estava afobada, com os bolsos cheios, cabelos esgrouvinhados, olhos saltados das órbitas, com uma bolsa maior que ela ás costas. Parecia uma caipora.
A sala de estar estava revirada. TV, lustre, cortinas, mesa de centro; destruídos. Como se um furacão portátil ou um terremoto particular houvesse passado por ali. Os porta-retratos, todos, estavam pisoteados.
- Caralho, sua louca! Por que cê fez tudo isso? - quis saber, com a mente ainda torpe, enquanto descia, de pernas bamboleantes, o ultimo degrau da escada.
- Burro! A polícia vai pensar que foi uma desforra.
- Quê? Desforra? Cê tá maluca, porra?
- Pensa bem, gostoso! O corno é promotor público. A polícia com certeza vai pensar que alguém, sei lá, algum peixe graúdo que ele fudeu na justiça, se vingou dele dessa forma. É uma boa forma de despistar.
- É mesmo, ó. Não havia pensado nisso.
- Já pegou o que precisava pegar?
- Já - sorri.
- Então vai lá e arromba a porta da frente.
Meti o pé na porta com tanta força que as dobradiças cederam sobremaneira, e o ferrolho escangalhara-se por inteiro.
- E você? Já pegou o que queria? - perguntei á gostosa, ainda ofegante. O sabor doce da mulher ainda impingia um toque suculento na minha língua.
- Muito mais do que isso. Estamos feitos!
- Então vamos dar no pé.
- E minha irmã?
- Que tem ela?
- Como assim? Combinamos que você a amarraria, amordaçaria e coletaria as jóias na segunda gaveta do criado-mudo. Apenas isso, sem machucá-la. Foi o que combinamos, não foi?
- Ah sim. Eu sei, pô. Tudo tranquilo.
- E ela ainda tá amarrada?
- Tá, tá sim - disse, num atropelo - Vamos dar o fora logo.
Saímos pela porta dos fundos, que dava pro jardim artificial da mulher. No caminho, enquanto a gostosa corria toda serelepe à frente, carregando à custo a grande mochila, os bolsos do short cheios de artigos que tilintavam e que no momento eu ignorava além da dor aguda e característica que me subia do saco aos rins, passei por baixo da goiabeira, perto dum balanço de criança colorida dependurado num galho baixo, e apanhei uma goiaba ainda verde que estava ao alcance das mãos. O gosto talvez burlaria o mel fresco que se impregnara na minha boca, o mel que escorreu farto do corpo da mulher que dormia.


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