terça-feira, 27 de novembro de 2012

Os Dilacerados (Parte 1 e 2)









     Uma e vinte-sete de uma nova Quarta.



    
    I.


    Deus do céu, pensou ele; se alguém chegasse a descobrir, ele matar-se-ia. Queria matar-se agora mesmo, neste instante. Havia três horas que acontecera, e o seu amigo, seu melhor amigo, tinha-se enganado, achando que ele logo se sentiria melhor, porque nada havia adiantado. A passagem do tempo não havia adiantado. A cocaína não havia adiantado. Ficar junto com os outros não havia adiantado. Nada. Exceto, talvez, que agora estava menos nervoso e trêmulo da cabeça aos pés. Agora sentia um entorpecimento completo, com aquela sensação de náusea nas tripas e nos testículos que dava até vontade de chorar, e queria o esquecimento absoluto, a inconsciência, adeus e nenhuma recordação. Desviou os olhos da rua em frente para as suas mãos brancas, pregadas que nem ganchos brancos ao volante do seu poderoso Tucson Preto. Ouviu a voz do seu amigo no assento ao lado.

   - Ei, tem certeza de que você está bem?
   - Acho que estou - respondeu o rapaz - Acho que agora estou.
   - Pois não parece. Está com cara de enterro.
   - Estou bem - insistiu o rapaz. Virou o carro para a esquina que desembocava no quarteirão em frente, onde o seu amigo dividia um apartamento de luxo com dois outros individuos.
  - Não há motivo para se preocupar- disse o amigo, coçando por baixo da barba juvenil - Não pense mais naquilo. Faça como se nunca tivesse acontecido. Se nunca aconteceu, então não aconteceu. Pense noutra coisa, como se estivesse a praticar ioga ou coisa parecida. Sabe como é?
   - Estou bem - repetiu o rapaz.
   - Ei, calma, velho, você já passou da minha casa! 

    O rapaz pisou fundo no freio e a brusquidão da súbita parada fez-lhe bater o peito no volante. Mas não doeu. "Desculpe", disse, enquanto o seu amigo recuava do painel de instrumentos. Esperou que o amigo saísse do carro, mas o amigo continuou no mesmo lugar. Notou que olhava fixamente para ele. O seu amigo alisava o desleixado cavanhaque e a barba, sem tirar os olhos dele.

   - Velho, só mais uma coisa... - dizia o amigo. O rapaz esperou para ouvir que coisa era - É como eu passei a noite toda tentando te dizer. Não precisa ter medo, você está livre. Ninguém sabe que você esteve lá.
   - Ela sabe 
   - Ela não sabe o seu nome.
   - Esqueci disso.
   - Portanto, você está livre - repetiu o amigo - Mas há uma coisa. Se houver buchichos...
   - Você disse que não ia haver.
   - E não vai mesmo, basta você não deixar - frisou o amigo - É como eu sempre lhe digo, você é o pior inimigo de você mesmo. Essa coisa de morar com a família, por exemplo.
   - Cara, você sabe...
   - Claro, eu sei de tudo sobre o seu velho e você. É a única coisa que me preocupa. Você vai chegar lá com essa cara de doido fudido, e ele vai fazer que você se cague de medo até descobrir o que é que você andou fazendo. E aquele pedaço de mulher que você chama de prima... a sua priminha ruiva...
   - Num fode, cara.
   - Eu preciso dizer-lhe o que estou pensando. Você meteu-se numa enrascada, mas se confiar em alguém, é melhor ir já cavando a sepultura.
   - Já lhe disse que isto vai ficar só entre nós dois.
   - Então não se esqueça - advertiu o amigo - Porque se contar pra alguém, e a casa cair, lembre-se de uma coisa... você esteve lá sozinho. Eu não estava contigo. Só você esteve lá. Porque, se algum dia você disser que eu estive lá, vou considerar isso como um ato de traição, e terei de dizer à quem quer que seja que foi você quem a feriu. De propósito ou não, foi você. Portanto esse é o nosso segredo. Eu não estive lá. Assim nunca posso dizer que você esteve. Compreendeu?
    - Okay, cara.
    O amigo abriu a porta, depois hesitou e mostrou-se amigo de novo:
    - Mas como lhe disse, não há nada para se preocupar. Não aconteceu nada.
    - Okay.
    - Fique só com a boa recordação, como eu. Você tem de reconhecer que foi uma grande foda.
    - É.
    - E agradeça-me por tê-la aberto para você. Ela tava mais apertada que uma concha quando eu meti. Mas depois que entrou, foi o mesmo que escorregar num trenó cheio de graxa, e com ela a se esganiçar, a morder e a bater o tempo todo, quase gozei no mesmo instante. Foi do caralho.
    - É, foi do caralho - concordou o rapaz. - Só que...
    - Esqueça o resto - atalhou o amigo -Você sabe qual é a minha filosofia. Fique com as boas recordações e deite o lixo pra fora. Lembre-se disso, velho.
   - Okay.
   - Vá direito para casa!
   - Vou.
   - Então até amanhã. A gente se fala na saída da facul. Falou. 

   O amigo saiu do carro, entrou na portaria do condomínio de alto padrão e desapareceu depois do portão interior. O rapaz tirou o pé entorpecido do freio e pisou o acelerador. Conduziu a Tucson em direção à Paulista para tomar a Augusta e rumar para casa, nos Jardins. Era o caminho mais curto, e ele queria chegar o mais depressa possível, porque estava sozinho e não suportava a solidão durante muito tempo. Especialmente hoje à noite, do jeito que se sentia, pior do que nunca e ainda por cima com tendências suicidas. Mas ao alcançar a Augusta, esperando que o sinal abrisse, e virando o carro à esquerda, percebeu outra coisa.

    Não estava sozinho...




   Dezesseis minutos para uma nova quinta

 


  II.


    ... levava a garota com ele, aquela garota que se esganiçava toda, aquela peitudinha de dezessete anos. Só que agora não se esganiçava, não. Estava imóvel, feita um cadáver, sem emitir um som, o menor movimento.

    O rapaz considerava-se um sujeito de memória visual, porque tudo o que imaginava ou lembrava ocorria de forma puramente visual, em quadros gráficos, não numa série de diálogos palavrosos, como acontece com outras pessoas. Bem que gostaria de estar sozinho agora, mas não estava. Bem que gostaria de não possuir memória visual, mas possuía. Lá estava aquele único quadro, continuando a projetar-se na tela do seu cérebro. O único quadro que a memória registrara antes de ir embora, antes que o seu amigo de lá o arrastasse. A garota deitada de costas, completamente nua, sobre o tapete ao lado da cama. Estendida de pernas abertas, livres, as coxas carnudas e brancas afastadas e imóveis, de modo que o que mais se notava era aquela saliência cortada ao meio, à mostra entre os pêlos púbicos, que parecia o talho dos lábios franzidos de uma mulher. E com a mão encostada à mesa-de-cabeceira e a outra pousada no umbigo, os pequenos seios leitosos e pontudos, a boca caída, os olhos fechados, o sangue vermelho a escorrer da nuca e do cabelo emaranhado, que era de um castanho velado. O quadro era este. Tentou arrancá-lo da lembrança, e durante algum tempo conseguiu-o, mas logo outros se insinuavam, por ele ser tão visual. Podia ver os dois, seu amigo e ele, com as suas Cocas, no Locomotiva Clandestina, o ponto onde costumavam dançar na Nove de Julho, e o seu amigo ouvindo a garota dizer para alguém que gostaria de encontrar uma carona para voltar para casa, e o seu amigo a puxar conversa e a dizer que o seu camarada tinha carro e onde é que ela morava?, porque se não fosse longe demais seria um prazer levá-la. Chamava-se (...) e morava num apartamento com outra moça, (...); era logo acima da Consolação, perto do cemitério do Araçá, de modo que não ficava longe.

    Outro quadro. O carro estacionado diante do prédio, ela no banco de trás, com o seu amigo, que não parava de apalpá-la, e a coxa dela a aparecer onde o micro-vestido de algodão repuxara, e o rapaz só a pensar em rasgar-lhe a roupa toda e copular a noite inteira, imaginando como seria, tudo visual, quando de repente o seu amigo desce do carro e ela também, e ele faz-lhe sinal, dizendo que vão provar que são cavalheiros, acompanhando-a até à porta do apartamento.

    Outro quadro, lá em cima, dentro de casa. Ela levanta-se para ir ao toalete, que fica ao lado do dormitório. Seu amigo a piscar-lhe o olho e a bater no pênis, dizendo que não há dúvida que ela quer, mesmo que não saiba, que tava na cara de putinha dela, assim talvez seja melhor esperar por ela já no quarto, e depois que ele acabar, então passa para o rapaz.

    Outro quadro, a porta do quarto a fechar-se nas costas do seu amigo. E ele a beber uma daquelas Bud's que ela trouxe da cozinha. Dali a pouco a porta entreabre-se, e seu amigo ali parado, sem um fiapo de roupa no corpo, grandalhão e cabeludo, com aquela coisa enorme, grande mesmo, caída no meio das pernas, e o amigo sorrindo e dizendo, “ Farei uma pequena surpresa pra ela, você vai ver". No mesmo instante, a voz dela, e o amigo a entrar depressa no quarto, a voz dela protestando, dizendo qualquer coisa a respeito de sua amiga, a companheira de apartamento, e o universal e inconfundível barulho de luta. E depois ele próprio a pôr-se em pé e fechando bem a porta para não ouvir mais nada.

    Outro quadro, confuso. Só que lá está ela, agora na cama, e ele próprio nu, e a umidade no meio das coxas dela e a mão dele a tapar-lhe brutalmente a boca. E depois, das lidas terminadas (lidas rudes, desprazerosa e egoísta) o quadro em que ele se levanta, pegando nas cuecas e nas calças, e ela corre atrás dele, à golpear-lhe com inusitada rudeza, e ele larga as roupas e tenta espancá-la, e ela a recuar num salto, o tapete a escorregar sob os seus pés, e ela caindo, esborrachando a cabeça contra a quina pontiaguda da mesa-de-cabeceira, encolhendo-se, resvalando no chão, procurando erguer-se de novo e rolando de costas. E depois a montagem de vários quadros, desta vez com diálogo. Seu amigo, ainda nu em pelo, entrando correndo no quarto, dizendo o que diabo você fez?, e ele gaguejando, balbuciante, que foi um acidente. Seu amigo dizendo para ele se vestir depressa. Seu amigo debruçando-se sobre ela e proferindo um caralho!, ela desmaiou mas graças a Deus está viva e respirando. Ele vestindo-se e querendo chamar um médico. O amigo arrancando-lhe bruscamente o telefone das mãos e perguntando se ele tá doido, porra!, seria cana certa para os dois, afinal revezaram na agradável brincadeira, simultaneamente violentaram uma menor, e isso ainda era malvisto no país. Ele insistindo num telefonema anônimo para um médico e o seu amigo teimando que não, obrigando-o a terminar de se vestir, dizendo-lhe que a outra moça vai voltar a qualquer instante e chamará o médico e que a garota está bem, talvez não poderia ser nada mais que um coma á-toa e vamos dar o fora dessa porra enquanto é tempo.

    O primeiro quadro de novo. Contemplando mais uma vez o corpo nu, as pernas rijas e abertas, a rigidez da adolescência feminina. O resto dos quadros sumindo-se aos poucos, cada vez menos nítidos. Quase só fragmentos de diálogo, com pedaços e trechos visuais. Já no carro, o amigo dirigindo e dizendo que "você não está em condições de ir para casa ainda, vamos lá na Garagem", que de fato era uma garagem que o amigo e a turma alugaram e decoraram como uma espécie de clube para os caras se reunirem e cheirarem uma farinha, e ele respondendo que tudo o que o seu amigo quiser fazer ele aceita. Estacionado o carro, eles caminhavam para a Garagem e o seu amigo dizendo que decerto não ia acontecer nada de maior importância, porque se a garota estava arrombada, sem piores consequências, não daria um pio, senão teria de explicar como aceitara que dois caras fossem pra casa dela, pois afinal de contas não havia indícios de que alguém tivesse invadido o apartamento para violentá-la, e se o ferimento era sério ou coisa pior ainda, como ele tinha que admitir que parecera sério à primeira vista, então ela não estaria em condições de falar e portanto ponto final. Na garagem havia três sujeitos e duas garotas, gente da casa, e coca à farta, e apesar do incenso, o cheiro da erva estava forte demais, mas ninguém fazia caso e até o rapaz deu conta de duas carreiras e puxou uma cannabis, tragando fundo, retendo o fumo e acalmara-se um pouco, só um pouco, mas não o bastante. Depois, ele e o amigo foram dar outra longa caminhada, até que pudesse assumir a direção sozinho, e fez questão de mostrar que já se achava melhor e então levou seu amigo de carro até ao apartamento dele.

    Um último quadro, de novo, de novo, o primeiro. A menina deitada de costas no chão, completamente nua sobre o tapete ao lado da cama, com a saliência vaginal úmida e o cabelo ondulado manchado de sangue. Precisava controlar-se, senão estaria a procurar sarna para se coçar. Olhou o relógio no painel de instrumentos. Quase meia-noite. A mãe e o pai já deviam estar dormindo. Sua prima provavelmente, também. Estava salvo. Girou o volante ao chegar ao posto de gasolina da esquina e saiu da Avenida ainda movimentada, acelerando o carro, ladeira acima, até chegar ao portão de entrada de sua enorme casa. Deslizando entre as sebes, cruzou o portão que era aberto à sua passagem, apagou os faróis e rumou lentamente para a ampla área de estacionamento de chão acimentado em frente ao abrigo de automóveis. O Range Rover do pai já estava no lugar de costume. Encostou o seu carro ao lado. Só quando se afastou do abrigo, dirigindo-se à entrada da casa, foi que percebeu que havia luz por trás das cortinas do hall. A mãe, que era inválida, poderia estar dormindo, mas, no mínimo, o pai recebia alguns amigos. O mais provável é que fosse sua prima, que tivesse ficado acordada, a estudar. Precisava estar preparado para tudo. Teria de mostrar-se calmo e natural. Os quadros se haviam sumido da sua lembrança e sentiu-se mais seguro, mais garantido. Alcançando a porta de entrada, guardou as chaves do carro no bolso frontal do jeans e remexeu nos bolsos traseiros à procura do chaveiro de prata com a placa que tinha o seu nome gravado, presente de sua prima no último aniversário - o vigésimo primeiro. Tinha as chaves do carro e da casa em chaveiros separados, pois dividia o Tucson com sua prima e ela esquecia sempre das suas n'algum lugar e pedia emprestado as dele. Parado na porta, o rapaz esmiuçou o fundo do bolso à procura do chaveiro de prata com o seu nome. Não estava ali. Experimentou o outro bolso. Tão-pouco. Preocupado, retornou ao carro e revistou o seu interior. Nada do chaveiro.

    Um ultimo quadro, de novo, de novo, o primeiro. A menina deitada, pernas abertas, saliência vaginal, sangue coagulado na testa, que deslizava de maneira crua pela face direita... Ele apalermado testemunhando a cena, os ouvidos reboados pelas ordens de seu amigo, apanhando atabalhoadamente suas roupas. O claro tilintar de algo que caíra do bolso de suas calças para perto da menina lânguida e desfalecida, e que por obra e graça de seu desespero ele não dera maior importância.

    Um calafrio de apreensão gelou-lhe o peito, e então sentiu pânico.

1 comentários:

Unknown disse...

Fodão mano, fodão. Continua que continuarei lendo.

Postar um comentário

 

(borderline) Copyright © 2011 -- Template created by O Pregador -- Powered by Blogger