sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Deixo-me estar (os R$10,00 perdidos)





Sexta-feira, manhã



Emmanuel Nery, Prostituta, acrílico s/ tela 55 X 46cm, 1986



Á Henrique Rosa Nunes


    
    O sal das minhas lágrimas me faz relembrar tudo o que já perdi e o que até agora certamente perderei... Mas assim deixo-me estar; tua luz suja não mais alumia minhas mal deglutidas noites, tuas palavras não mais desperta em mim a necessidade de ter comigo aquela vida pacata que sempre/jamais desejamos um ao outro. Mas assim deixo-me estar.
   
    Uma luz quase carmesim atravessa, à muito custo, minhas pálpebras fechadas, mas o sonho que agora sonho acordado exibe-se tal como eu gostaria de vivê-lo - sem uma mínima réstia de luz, sem sequer um miserável restolho de minguadas esperanças, sem a alegria que preenche a vida dos tolos provincianos e daqueles tipos de pessoas que sentem, ridiculamente, prazer em morrer em nome do que chamam de "grande amor". Ainda na consoladora vigília, ainda nesse quarto de hotel, de paredes verde-oliva carcomidas pelo anacronismo dos dias, sobre esse lençol deliberadamente amarrotado e tendo ao alcance das mãos essa cerveja deliberadamente morna, eu estava feliz, seguro e excitado pela fresca e aconselhadora aragem que invadia o quarto através das ausentes persianas. Assim deixo-me estar, nessa minha espécie de confusão portátil, nessa quente solidão, nesse incômodo ininterrupto proveniente da prisão de ventre, dessa dor na alma por esses pensamentos de morte, pelo desejo que em mim arde por sua morte nem tão longínqua e muito almejada, com as dores que só a pura alegria pode proporcionar, veja bem. Bem plausível que agora, nesse momento em que vegeto nesse sexto andar, num aposento onde o odor de naftalina, mofo, urina e sexo se misturam e coalizam-se com a mesma fidelidade das genitálias feminina e masculina, possa estar você inteiramente entregue ás revoluções de uma ruflada língua d'algum homem, infeliz (sem porém o saber) por ser alvo de seus amores e suas lascívias, e satisfeito pela quentura de teu sexo no imperfeito encaixe do breve e inevitável coito, selvagem e inassimilável - dentes e lábios e excitações e suspiros. Mas que inopinável e desgraçada moléstia me fez admitir que ainda a amo, mesmo estando agora entregue aos desejos de outro, outro sempre cordato e apto á pagar-lhe o tempo de serviço, os amores de mentira, como de mentira são os rogos dos catequistas, as estopas das marionetes, as promessas das mulheres? Ainda a amo, e ainda quero-a morta. O suor transborda a minha testa glabra, e profetizo, serenamente, a breve promessa duma ereção, só por ti pensar, minha súcubo, só por tê-la imaginado sobre um homem, sobre o miserável ofício das damas de calçadas, sob sete palmos de terra. Mas assim deixo-me estar.

    Por ti fui usado e descartado como tão bem você utiliza do prazer efêmero de um orgasmo e o descarta até a inevitável próxima vez. Levanto-me, apanho a cerveja já quente e saboreio-a de um só trago. Acendo o último Marlboro de um maço consumido em menos de duas horas, e com o cigarro dependurado despreocupadamene entre os lábios ressequidos, visto-me de maneira calculada, resignada, pensativa - nada como o sabor da calmaria antes da tempestade, nada como a reflexão última do suicida antes do salto final, nada como o carinho e o beijo do assassino antes da esganadura imposta á sua vítima. Será que conseguiria alcançar-te, levando em conta o fato concreto de que abandonara-me já há algumas horas, alegando não poder ficar a noite inteira, proferindo o lema chulo das prostitutas de que tempo é dinheiro, de que o prazer dos outros seria o prazer do teu dono, cafetão, michè, cão-alfa, o diabo? Sei onde moras, sei onde atuas, sei onde vende teu corpo de puta, sei onde exerce a sua sagrada e volupiosa lavra, sei muito bem, minha amada morta, onde permite-se abrir como uma flor da madrugada teu sexo, tua boca oculta, para dezenas de homens dispostos á pagar-lhe as dez pratas exigidas, sempre antes das lidas. Sei onde te encontrar. Abandonara-me, e na doce morte você fenecerá.

    Enclausuro meu gélido instrumento nas quentes sombras do interior das minhas calças, na frente, próximo à ferramenta cáustica por ti já utilizada e tratada como um pedaço de entulho. Verifico e me satisfaço com o fato de que o revólver permanece convenientemente carregado. A Zona me espera. Você, mesmo sem saber, me espera, minha doce puta. Meus dez reais, o que de bom grado me desfiz pelo seu desfeito amor, também me espera. Só uma vez a encontrei, e milhares de vezes a matarei.

    Mas assim deixo-me estar.




  
22:11 p.m. (calor, pernilongos e o cheiro acre da espiral que me arde os olhos)


    "Minha única culpa é não ter tido combustível suficiente para que ela aquecesse bastante as mãos e os pés. Escolheu-me como uma sarça ardente e, afinal, eu não passava de um pequeno jarro de água pendurado no pescoço. Pobrezinha, porra."

{Maldito Cortazar! Apesar de ser eu um medíocre, como não pensei nessas mesmas palavras antes que as mesmas pudessem aflorarem-se em sua mente genial???}





22:23 p.m. (Não acreditem na hora ao final do texto. Eu odeio configurações de qualquer tipo)


    Olhando, hoje, ao meu redor, não diria que algo não mudara em menos de dez anos.
  
    Não havia essa musica que agora adentra meus ouvidos sensíveis, esse mesmo som que atiça puberdades alheias, cujas volutas sinfônicas tornam irresistíveis às moçoilas não "descerem até o chão". Os carros não berravam ensurdecedoramente suas acústicas pesadas, e se berravam, até nos acostumávamos com o "Só love" do Claudinho e Buchecha. Ou "O Homem na Estrada", do Racionais Mc's.
    
    Não víamos (ao menos não nessas ruas) tantos jovens ensandecidos á cata de moedas perdidas para saciarem-lhes as ânsias escusas. Não havia, à cinquenta metros da minha casa, um "centro ilícito de distribuição", onde, com dez pratas nos bolsos, os desafortunados conseguem, com relativa facilidade, viajarem além do que acreditam ser o sétimo céu. E não faziam questão de demonstrar à quem quissesse (ou não) ver suas alegres estadas em seus nirvanas particulares.

    Há dez anos era lançado "O Homem que Copiava", tido por mim como um dos melhores longas brasileiros; testemunhei muito chororô no cinema com a ida de Bilbo Bolseiro junto aos elfos no desfecho de Lord of the Rings: The Return of the King e com a morte de Trinity em Matrix Revolutions. Johnny Depp chegara ao auge com o Capt. Sparrow em Pirates of Caribbean e eu costumava troçar com o título de mais um sucesso da Pixar, "Procurando o Demo."

    A Amy Lee, do Evanescence, brotava em minha mente algumas fantasias inenarráveis, devo confessar (e eu tinha, sim, o Fallen, o 1º album) - Bring me to life foi, nesse ano, considerada a maior (?) canção do mundo. Metallica lançava St. Anger, e eu me sentia o ser humano mais poderoso do mundo enquanto andava pelas ruas ao som de Frantic, que me reboava aos ouvidos (agora isso costuma acontecer quando ouço "The Way of All Flesh", do Gojira). Sinceramente entristeci-me com o falecimento do Sabotage e do Johnny "Man of Black" Cash, ao mesmo tempo em que me entristeci, hoje não saberia dizer bem o porquê, com a posse do Lula para a presidência da repúburra.

    Com pesar no coração, admito que eram estes os áureos tempos dos saques nas bibliotecas. Nessa época, uma questão batucava-me na mente: seria crime o furto de cultura para amadurecimento próprio? Ainda acho que não; e eu tentava me convencer disto, à guisa de consolo pelo que estava prestes á fazer. A escola filtrava incomodamente o acesso dos estudantes às minguadas instalações das bibliotecas, então nada mais (in)correto à fazer que não fosse a self-revolution tão presente nas obras do Córtazar e nas musicas do Killswitch Engage. Sempre que podia, subtraía um livro ou dois das prateleiras abarrotadas e poeirentas próprio da falta de uso, e nessas subtrações, juntei uma pequena mas notável coleção em casa, por sua vez subtraído (de maneira lícita, veja bem) por um dos meus grandes amigos e parceiro de crimes culturais, que não se conformava com a minha mania de ler muitos exemplares até as suas devidas metades.

    Era o tempo em que minha familia não era agraciada com as comodidades da Tv à cabo, e, para mim, um computador era um ermo sonho. Celulares de telas azuis à rodo nas ruas, a novidade dos Dvd's em cada casa, Linkin Park era, para mim, o rock mais pesado que se podia ouvir e a quentura dum abraço duma garota qualquer era o desejo mais inalcançável que eu poderia ter.

    Ainda assim, eram bons tempos. Eu lembro que...

(O Funk acabou? Ao que me parece, todos se foram, decerto para paragens mais amenas, outras calçadas e outros ouvidos d'outros cidadãos trabalhadores que se baterão na cama, tentando e não conseguindo dormir. Agora o fardo é com eles, e acabou-se minha inspiração. Voltemos ao "South Park")

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