domingo, 10 de março de 2013

O Quadrângulo (Parte 4 de 4)






    Mídia




O MISTÉRIO DO EDIFÍCIO SANTA ROSA                                  
Jovem encontrada morta na escadaria do prédio; três suspeitos estão detidos





Por Carlos Madureira



    Um crime bárbaro chocou São Paulo, no início da semana: o misterioso assassinato de Gisela Reis Junqueira, de 21 anos, estudante do segundo ano de Direito e estagiária da firma Camargo & Sandrinni Costa, uma das mais famosas sociedades advocatícias do estado.
    Gisela foi encontrada já sem vida nas escadarias entre o terceiro e o segundo andar do edifício Santa Rosa, sede da firma de advocacia, pela auxiliar de limpeza R.P.L. (nome não divulgado pela polícia), de 18 anos, por volta das sete horas da manhã. Segundo seu depoimento, corroborado pelas investigações da polícia, Gisela foi encontrada caída ao pé das escadas, com a blusa levantada e a saia arriada (o que denota abuso sexual), com marcas inegáveis de espancamento e uma mancha vermelho-vivo no pescoço, o que implica esganadura. "Com base nas investigações periciais, esperamos ter 100% de certeza se a vítima realmente morrera em decorrência do ferimento no pescoço, mas já de antemão, tudo indica que ela fora assassinada por asfixia mecânica", comenta Luiz Guraldi, perito da Polícia Científica. Um fato que denota o abuso, seguido de morte da jovem estagiária, é que aparentemente fora encontrado vestígios de sêmen sobre as roupas da vítima. "Pelo que descobrimos até agora, com base nos depoimentos dos suspeitos, isso (o sêmen encontrado) não prova que a menina fora vítima de estupro. Seria até irresponsável afirmar tal coisa", dissera, em tom de censura, o delegado Hélio Souto-Maior, do 35º DP (Jabaquara), onde o caso foi registrado.
    Também, segundo o delegado, não seria possível afirmar com certeza se os ferimentos e diversos hematomas no corpo da jovem seriam de um possível espancamento. "Há uma linha de investigação que aponta pro caso dela ter sido jogada intencionalmente pelas escadas, o que no caso seria crime premeditado, contrário do abuso sexual, que já é um crime impulsivo", completara o delegado.


    UM DOS SUSPEITOS ERA O CHEFE DA VÍTIMA

   Três homens, os únicos que estavam no edifício no provável momento do homicídio (que segundo as investigações dos peritos, aconteceu entre as dez e a meia-noite de sexta) foram autuados e no momento permanecem detidos. Um deles seria Rodrigo Sandrinni Costa, de 29 anos, superior direto da vítima, filho mais novo de Adalberto Sandrinni Costa, sócio majoritário da firma Camargo & Sandrinni Costa. O segundo suspeito, Armando Pereira Batista, 62, trabalhava como porteiro noturno no edifício no momento do crime e o terceiro seria Agenor Dias dos Santos, o Genô, um autônomo de 53 anos.
  Segundo depoimentos, Rodrigo ainda estava na firma de advocacia àquela hora avançada (onde normalmente deveria estar já em casa) porque combinara encontrar-se com Gisela, sua subordinada, em sua própria sala, para o que chamou de "reunião particular". Gisela aceitara e "enrolara" no escritório justamente pra aguardar o chamado dele, que haviam combinado que seria por volta das dez da noite. "As dez e vinte, mais ou menos, acabei de redigir uns autos e, como já estava livre, liguei pro escritório jurídico, onde Gisela estava sozinha. Perguntei à ela se a nossa 'reunião' ainda estava de pé, e ela confirmou. Pedi então que viesse à minha sala, que eu a estaria aguardando'", depôs Rodrigo, aparentando extremo nervosismo, na delegacia. Ele continuou: "Eu não sei quando ela chegou, pois antes disso eu me ausentei da sala e deixei um bilhetinho na minha mesa pra ela, em que eu pedia para que ela me esperasse por uns minutos, porque eu iria à sala do meu pai, que ficava no segundo andar, apanhar uma garrafa de champanhe..." Cogitado pelo delegado se seria aquela a primeira vez que se encontrariam fora do horário de expediente, Rodrigo confirmou: "Teria sido a primeira vez", e embaraçou-se ao ter que responder ao Drº Helio Souto-Maior o motivo de a ter escolhido num rápido affair: "Ora, ela era inteligente, sonhadora, ambiciosa... E eu a achava linda. Todos a achavam. As fotos falam por si só."
    Paulo Roberto de Siqueira Camargo, um dos sócios da firma de advocacia e um dos advogados de Rodrigo, recomendou à polícia "atentar ao fato de que ele (Rodrigo) ficara preso no elevador durante, e até depois, da hora calculada do crime", lembrando que Rodrigo dissera em depoimento que, ao tentar descer de elevador ao segundo andar, houvera uma pane nos elevadores e ele ficara preso. "Meu cliente ficou por mais de quatro horas preso no elevador, á esta altura totalmente desesperado, pois é sabido que ele sofre de claustrofobia", completara o advogado. Esse fato fora confirmado pelos outros dois suspeitos, mas para a policia, isso não descarta a hipótese de suposto envolvimento do réu no crime: "O fato do Rodrigo ter ficado preso no elevador não constitui um álibi", dissera o delegado.
    O caso se complica ainda mais a partir daí, pois Gisela fora encontrada com vestígios claros de sêmen ainda fresco em suas roupas, o que conecta Rodrigo ao crime, pois é sabido que ambos combinaram um encontro amoroso fora do horário de trabalho. E também foi achado, num dos bolsos do casaco da estagiária, um pedaço de papel, como uma espécie de mensagem rápida, que dizia: Gi, me espere. Fui buscar um champanhe para bebermos e já volto! Era o bilhete deixado por Rodrigo, que ela guardara.


    UM DOS SUSPEITOS CHEGARA Á VER A ESTAGIÁRIA AINDA VIVA

    Armando Pereira Batista, de 62 anos, era porteiro do turno da noite do edifício Santa Rosa, na região do Jabaquara, zona sul de SP, local onde ocorreu o crime. Segundo seu depoimento, Gisela era "uma moça educadíssima e bonita, sempre sorridente e atenciosa para comigo", e comentara que a estagiária "sempre batia papo comigo no final do seu expediente, quando ela esperava o noivo vir buscá-la, coisa que ele fazia todo dia". Ele declarou a polícia que fora um dos últimos à vê-la ainda com vida, embora desconhecesse totalmente quem poderia ter motivos para querer ferir "aquela doce mocinha".
    Armando dissera que registrara pelas câmeras do circuito interno de TV do edifício (agora em poder da polícia, que investiga as imagens) quando Gisela saíra do escritório jurídico, no terceiro andar, em direção ás salas da administração, onde também ficava a sala de Rodrigo Sandrinni Costa, antigo chefe e um dos suspeitos por sua morte. Percebendo algo estranho nessa atitude (que ele, porém, não soubera explicar que estranheza havia nisso) ele decidira subir do térreo, onde ficava a recepção, até o terceiro andar, quando percebeu que os elevadores estavam inoperantes. Jamais imaginando que o "Drº Rodrigo estava preso já àquela hora", Armando subira as escadas, seguira em direção à sala de Rodrigo e se deparara com uma cena que ele não entendera: "A moça... Gisela, né?... Bem, ela estava sozinha lá, sentada na poltrona do doutor, bebendo uísque na garrafa, trêmula e apavorada da cabeça aos pés. Estranhei aquilo porque... sei lá. Apenas estranhei. Mas ela não chegou á me ver." Ainda segundo ele, foi por volta desse momento (provavelmente vinte ou quinze pras onze) que Rodrigo o chamou pelo rádio, dizendo que havia ficado preso no elevador. "Então peguei o caminho de volta pelas escadas e chamei o Genô, para que viesse tentar arrumar o elevador". À pergunta do delegado, de porque ele chamara justamente o Agenor para verificar a avaria dos elevadores, Armando respondeu que "eu até contatar o técnico de manutenção que normalmente fazia os serviços na casa, mas ele tava num velório, então me deparei com o nome do Agenor e liguei pra ele."
    Confrontado com a indagação do delegado Souto-Maior sobre ele não ter estranhado o fato do Agenor ter entrado sorrateiro pelo portão de serviço do edifício, e se o porteiro não haveria percebido que o autônomo estava bêbado quando o contactara, Armando gaguejou: "Eu não teria como saber dessas coisas. Como haveria eu de saber que ele já havia chegado e arrombado o portão de serviços do prédio? E ele deve ter disfarçado muito bem no telefone, porque eu jamais o chamaria se o soubesse bêbado."


    O SUSPEITO BÊBADO

   Agenor Dias dos Santos, conhecido como Genô, de 53 anos, está desempregado atualmente, mas realizava bicos como autônomo em serviços diversos para que o procurasse. No dia do crime, segundo seu depoimento, ele bebia num boteco perto de sua casa, na favela Alba, região do Jabaquara (apenas 6 quilômetros do edifício Santa Rosa), quando o seu celular tocara. Era Armando Pereira Batista, porteiro do edifício, onde ele já realizara diversos trabalhos anteriormente. "Ele tava me chamando pra avaliar o 'probrema' dos elevadores, que haviam 'dado pau'", dissera um ressaqueado Agenor.
    Ainda segundo o autônomo, ele não se atrevera a entrar pela porta da frente porque teve medo de ter sua entrada barrada pelo porteiro Armando. "Eu tava um pouco 'alto'", admitiu Agenor. Ele, então, arrombara o cadeado do portão dos fundos do edifício (destinado á entregas de fornecedores) e acessara por detrás as partes internas do prédio, sem o porteiro Armando tomar ciência disso. Segundo a polícia, Agenor estava embriagado quando adentrar o prédio, mas não se sabe se o mesmo chegara á vistoriar a avaria do sistema hidráulico dos elevadores; ele próprio não se recorda disso. "Eu não... não tenho muita certeza se cheguei a verificar o 'probrema' dos elevadores... Eu realmente não me lembro disso muito bem", dissera ele. "Em relação aos outros, o depoimento do Agenor é repleto de altos e baixos, de amnésias repentinas e lembranças estranhas", comentara o delegado Souto-Maior. "É o menos confiável dos suspeitos". Notável também, segundo as investigações, fora o fato de que o autônomo fora embora do prédio sem cobrar os custos de possível manutenção ou até mesmo a verificação das avarias do problema dos elevadores. Questionado quanto à isso, Agenor disse quase não se lembrar de como chegara até o prédio, "quanto mais de ter lembrado em cobrar as despesas da manutenção". Sabe-se, porém, que Agenor utilizara um táxi para se locomover ao edifício Santa Rosa, tão logo ele fora contatado pelo porteiro Armando. A polícia segue investigando.
    Agenor jura que não encontrara Gisela no prédio, e jamais a vira, "apesar dela ter a cara bastante familiar". Apesar de não saber se realizara a contento os reparos dos elevadores, disse que provavelmente saíra do prédio pelo mesmo portão dos fundos mais ou menos uma hora depois que entrou, e utilizara as mesmas escadas onde o corpo de Gisela fora encontrado sem, porém, perceber nada de anormal no local. Logo pela manhã, duas horas depois que o corpo da estagiária fora encontrado, Agenor fora localizado quando tomava café numa padaria próximo à sua casa. Um detalhe que poderá ser crucial para a resolução do crime: resíduos gastrointestinais (um possível vômito) fora encontrado próximo á vitima, no local do crime (mais precisamente dez degraus acima de onde Gisela fora encontrada). Dado que estava embriagado no momento do possível homicídio, pode ser que o resto do vômito na escada seja de Agenor, "mas iremos trabalhar unicamente na hipótese de descobrir se a pessoa em questão vomitara antes do surgimento e/ou assassínio de Gisela, ou depois, no momento em que ela já estava morta. A primeira hipótese não sugere especificamente que a pessoa que vomitara possa ser a mesma que a assassinara, mas a segunda hipótese certamente pode indicar o envolvimento do suspeito no crime", sentenciara o delegado Souto-Maior. "Partindo desse pressuposto, é correto afirmar que Agenor, por enquanto, se mantém na qualidade de suspeito número um".


    NOIVO FORA UM DOS ÚLTIMOS À FALAR COM A ESTAGIÁRIA

    Renato Matias Günkel, 24, estudante de Arquitetura e Urbanismo na mesma faculdade da estagiária Gisela Junqueira, era seu namorado à quase um ano. "Completaríamos um ano de namoro na semana que vem, e iríamos nos casar daqui à dois meses", comentou, entre lágrimas, o jovem estudante à reportagem. Renato diz não ter a mínima ideia de quem pudesse ter feito isso com a jovem. "Ela não tinha inimigos. Todos eram muito respeitosos com ela, todos os amigos a adoravam". Indagado sobre o possível motivo por ela ter permanecido no escritório da firma de advocacia para muito além do seu horário de expediente, Renato considera "humilhante e revoltante" a atitude de certos jornais, que afirmam ter Gisela combinado um encontro amoroso com Rodrigo Sandrinni Costa, advogado, ex-chefe da estagiária e um dos suspeitos de sua morte. "Eu liguei pra ela nesse dia, perguntando o porquê dela ter ficado até tão tarde no serviço, e ela respondeu, com muita naturalidade, que havia pilhas de pendências que ela precisava colocar em dia. Então, cogitei se eu deveria buscá-la como costumo fazer todos os dias, e ela disse para eu não me preocupar, que ela tomaria um táxi assim que terminasse. Que ela ficaria bem."
    Com um álibi confirmado pelos amigos (de que ele estava num bar na Vila Madalena), a polícia não interrogara Renato na qualidade de suspeito do crime. Mas diante da recomendação policial, de que não deveria se ausentar da cidade durante o inquérito, ele se incomodou: "Eu jamais faria isso à alguém, ainda mais à Gisela, que eu amava mais que tudo na vida!"


    VELÓRIO

    Gisela Reis Junqueira, 21, estagiária de direito, encontrada morta nas escadarias do edifício Santa Rosa, no bairro do Jabaquara, zona sul da capital, fora velada e enterrada ontem à tarde, no cemitério do Araçá, região central da cidade, ao lado do túmulo do pai, que morreu três anos antes. Houve grande comoção entre os familiares e as centenas de amigos que compareceram, que lembraram de Gisela como sendo uma moça doce, educada e extremamente inteligente. "Iríamos à praia no fim do mês", informou uma amiga do curso de Direito, "ela, como não tinha tempo pra se divertir, por conta das inúmeras responsabilidades, estava bastante entusiasmada."
    "A única coisa que queremos agora é justiça!" desabafara Roberto Junqueira, tio da vítima. "Pelo amor de Deus, um crime tão brutal não pode fiar assim, impune!"
   Renato Günkel, noivo da estagiária, não compareceu ao velório. Informara à reportagem não ter forças para isso.
    Adalgisa Maria Reis Junqueira, 43. mãe de Gisela, passou mal durante o enterro e teve que ser amparada pelos familiares.
    Ela faria 22 anos no início do mês que vem, e sonhava em ser juíza. 
    
    

      

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