domingo, 3 de março de 2013

O Quadrângulo (Parte 1 de 4)





   



    Gisela


    Se depois de tudo o que aconteceu, a jovem fosse devidamente indagada, etérea ou espiritualmente, sobre o trivial pensamento que pudesse ter-lhe ocorrido, naquele momento e mesmo por um lapso através de sua jovem mente, ela não seria capaz de obter uma resposta concreta, de maneira absoluta. A verdade era que Gisela em nada pensava de tão notável além do limitado dever às suas funções, que no momento ela desempenhava com raro afinco e tênue monotonia, tão comuns nos estagiários. Apenas depois começara a pensar em algo palpável  quando um sino de uma paróquia qualquer, ao longe, começou á reboar sua voz prateada através dos frios sopros da noite, e mesmo durante suas tarefas, ela quedara-se em prestar atenção aos números de dobras, que foram dez, no total. Dez horas da noite. Normalmente preparar-se-ia para ir embora - primeira a chegar, ultima a sair. Hoje, porém, um sorriso no canto dos lábios denuncia-lhe a quebra de rotina. Não iria embora agora. Ainda ficaria mais um pouco e esperaria pelo chamado dele.

    O gélido sopro do ar-condicionado emprestava ao grande escritório uma atmosfera de frigorífico. Solidamente sentada atrás de uma mesa espartana, uma das muitas ali existentes, sua pequena silhueta quase desaparecendo através da maciça pilha de papéis que lhe chegava à altura do queixo, Gisela digitava quase ininterruptamente no teclado ergonômico, frente ao computador. Só os ruídos quase melancólicos das muitas teclas se faziam ouvir àquela hora da noite, naquele vasto e, nesse momento, completamente vazio conjunto de escritórios. Há pouco mais de quatro meses ela era estagiária da Camargo & Sandrinni Costa, próspera e influente firma de advocacia, intercalando suas aspirações empíricas ao inebriante universo dos processos penais com o curso de Direito, horário matutino, na Faculdade Presbiteriana Mackenzie. Era a primeira vez que se permitia entrever um futuro brilhante à uma carreira em tímida ascensão, numa prestigiada firma advocatícia cujos clientes, as mais poderosas figuras da sociedade paulistana, por bem menos motivos (e mais leves escândalos), de bom grado desprendiam-se dum terço de suas posses, o que se constitui pouco em comparação ao bruto de suas reservas, em favor da representação de seus interesses na justiça, fina especialidade daqueles primorosos profissionais. Em contraste com os primeiros meses de seu estágio, onde se acreditava ter adentrado numa selva de bestas rancorosas e gélidas, com suas gravatas de seda e cabelos à escovinha, hoje em dia a sua desenvoltura singular enfeitava os procedimentos à ela confiados, destacando-a, ainda que sutilmente, no poço de cascavéis que era aquele mundo. Em suma, Gisela começava á brilhar. Experiente na vida, ainda que jovem e caloura, não era contra ela outorgadas as mesmas injustiças que tinha por alvo os outros estagiários, todos estes unânimes em condenar a dissimulada estudante, eterno alvo das cáusticas invejas dos demais aprendizes. Em pouco menos de dois meses de serviço, fora cotada, pelo próprio Sr. Adalberto Sandrinni Costa - inclusive - a integrar o recém-formado corpo de advogados, todos eles jovens e brilhantes, designados em favor do famoso caso do Igor Corrêa, herdeiro de tradicional família da sociedade paulistana acusado de ter dado cabo duma certa Marilene, vulgo Mari boca-de-seda, prostituta sem glamour, encontrada asfixiada em quarto de motel barato onde, horas antes, foram ambos vistos entrando e pagando o pernoite, conforme afirmavam as várias testemunhas. Caso extremamente difícil e controverso, tendo em vista o poder aquisitivo dos Corrêa, a tradicional postura destes na sociedade e o fato de que o citado réu, ainda foragido da justiça, era noivo da caçula do Exmo. Secretário de saúde de São Paulo, ela que aguardava a chegada do primeiro filho á qualquer momento. Um embate intenso perante a lei, e ela sendo designada à fazer parte do corpo dos mais geniais advogados do estado, mesmo sob funções secundárias, próprias dos estagiários de Direito - servir café, enregar relatórios, providenciar as papeladas e os dossiês técnicos referentes ao caso, permanecer quieta à um canto, etecétera - era um desejo supremo que se realizava. Os demais estagiários passaram á odiá-la ainda mais, se é que isso seria possível, mas Gisela ainda não poderia dizer com certeza se os olhares de viés, se os cochichos ferinos ou os olhos postos no chão, tão logo ela por eles passava, seriam sinais recorrentes do ódio ácido que advém da inveja, ou certo receio de ter que odiar a "mais nova protegida do Sandrinni", conforme revelava o sussurro que certo dia escapulira-lhe aos ouvidos. À luz da nova e secreta denominação á sua pessoa, Gisela não se enraivecera, porém; caiu-lhe no gosto. A nova protegida do Sandrinni: as coisas agora seriam mais fáceis, o que refletia no sorriso cintilante de satisfação lançado por sua mãe, já no ermo dos seus dias, depois que a sua pergunta de praxe como está se saindo no serviço, minha filha?, era seguida por um costumeiro estou muito bem no estágio, mãe. Muito bem mesmo. Os olhos baços da velha brilhavam de orgulho pela filha única, que sonhava em ser juíza

    Ah!, se os outros estagiários, inúteis todos eles - ah se eles soubessem do segredo, do meu segredo! Cessam-se as atividades dos dedos encimados por longas unhas escarlates sobre o teclado - Gisela põe-se á pensar. Ah, se eles soubessem!, e mais um sorriso coroa sua bela boca de lábios vermelhos. Engolfada pelos segredos, ela pousa os olhos na aliança estreita que rodeia seu anelar direito, e os dizeres minimamente grafados sobre a argêntea superfície: Renato e Gisela, amor eterno. A fina aliança de prata, lembrete de que se casaria dali á dois meses e meio com o citado rapaz, pareceu-lhe agora pesar toneladas sobre o dedo esguio. O sorriso desapareceu , cedendo lugar á um leve esgar de infelicidade e a odiosa insegurança. Será que eu realmente deveria...?, pôs-se á pensar, uma vez mais, sobre a presente situação. O noivo - estudante de arquitetura na mesma faculdade, também filho único, classe média-alta, tímido e correto, frequentador de igrejas nas horas vagas - havia ligado há pouco, perguntando-lhe do paradeiro e se necessitava que fosse buscá-la, como de costume. Não, Rê; obrigada, mas não vai ser preciso vir-me buscar hoje. Estou atulhada de serviço, e meu chefe exigiu que eu terminasse ainda hoje, de modo que tão cedo não irei pra casa. Mas qualquer coisa dormirei aqui. Não se preocupe, certo? Eu te amo. Nada de perguntas, desconfianças, grunhidos de insatisfação do outro lado da linha, e Gisela o odiou por isso. Não que desejasse intimamente tal coisa, mas seria um gigantesco alívio se o noivo discordasse, dizendo que aquilo era um disparate, que a chefia não deveria exigir tanto de sua pessoa, se batesse o pé insistindo em ir buscá-la. Mas não, nada disso aconteceu - ele sorriu, alegou ser uma pena que ela ficasse pra fazer serão pois gostaria muito de vê-la, mas já que não tinha outro jeito, até amanhã e bom serviço. A jovem desligara o celular com um travo na boca - talvez fosse Deus que me lançara a derradeira corda de salvação, com o intuito de salvar-me daquele poço escuro que se abria diante de mim e que eu estava prestes à pular, aquele poço venenoso; mas eu não agarrei a corda, deixei que ela passasse célere diante da minha face, neguei-me à virtuosidade do arrependimento de ultima hora e não disse Certo, Rê, pode vir me buscar, estarei te esperando na recepção do prédio, meu amor. Até lá e vê se não demora, hein! A mente de Gisela oscilava de maneira estranha entre a satisfação e uma sombra incômoda de arrependimento. Como agora, que observava compenetrada a aliança que lhe circundava o dedo, quase apertando. Mas na situação em que se encontrava, não mais poderia covardemente recuar. Já mentira ao noivo, já passava há muito das dez da noite e ainda não se aprontara para ir-se embora, já dissera certo, esperarei a tua ligação  rente á um certo ouvido, em meio á uma certa fragrância amadeirada de jasmim. Pela décima-quinta vez na ultima hora, ela espia o relógio de pulso, chegando à conclusão que o telefone tocaria dali á pouco. Seria o mergulho final no poço escuro.

    O cheiro imenso da dúvida - se se entregava ou não ao pecado oculto e malnascido - enovelava seu corpo oprimido pela blusa levebranca e justa. Pousando o cotovelo na mesa, Gisela descansa a cabeça na mão, a cabeça que rugia como um forno crematório. Uma decisão era estritamente necessária.

  - Mas o que diabos estou ainda fazendo aqui? - disse alto, notando a enorme satisfação de ter finalmente alcançado o estado de graça das decisões puras e corretas. Não era obrigada à fazer nada que não quisesse, ainda que, a menos de meia hora atrás, tivesse desejado ardentemente os momentos vindouros, ainda que houvesse prometido aguardar o sinal, o compromisso inadiável; e ainda que as pernas e as vontades nem tão ferrenhas pesassem em demasia, símbolo de sua forçada decisão, a mente lúdica e racional por vezes imperava nos desejos da carne, e sendo por ela guiada, eis que Gisela põe-se á organizar a mesa atulhada de papéis, cessar as atividades no computador, sacar do celular e começar a ligar para Renato. Numa fração de segundos, o diálogo estava já pré-concebido: Amor? Meu chefe mudou de ideia e permitiu que eu fosse embora e concluísse amanhã os trabalhos pendentes. Ufa, que alívio! Você poderia me buscar aqui no prédio? Diz que sim? Ok, te espero lá embaixo, estarei conversando com o Seu Armando, o porteiro. Vê se não demora, hein! Eu te amo muito. Até mais. Discando os números, sorriu de leve ao imaginar a possível felicidade do noivo ao saber que a veria ainda hoje, e idealizara os planos pro fim de noite: talvez se deixasse levar ao apartamento lindamente mobiliado do rapaz, talvez se dispusesse á preparar um espaguete com queijo, que ele adorava, ou comprasse pizza com Coca-Cola, que ela adorava. Talvez murmurasse, pela primeira vez em quase um ano, que estava feliz em ser sua noiva, e certamente fariam amor sob as cobertas, talvez mais de uma vez, ou talvez não, visto que ela estava cansada. Ele bem merecia tais atenções dispensadas, coitado, sendo ele um bom rapaz, de boa família e bom coração, o mais carinhoso namorado que Gisela jamais encontrou. Mas pra infelicidade do rapaz, ninguém havia lhe dito que Gisela gostava de umas boas palmadas de vez em quando, de uns xingos e umas humilhaçõezinhas, que lhe espicaçava o prazer jovem e tenro, prazer esse agora um tanto hibernante pela convivência insossa ao lado dos respeitosos carinhos do noivo - suas fantasias para sempre ocultas além das névoas das rotinas.

    O telefone do escritório começou á tocar, uma campainha baixa e ponderada, como se até o aparelho tivesse medo de interromper o embate entre as duas forças antagônicas que batalhavam dentro da jovem. Com o celular na mão, Gisela chegara à completar a ligação deste e uma voz de homem - voz claramente aflita pelos vários alôs? sem resposta - era facilmente audível mesmo com os ouvidos afastados; Gisela sustentava o pequeno aparelho à meia altura, olhando fixamente, com ar de retardada, o telefone branco que chamava, em sincronia com uma luz vermelha que acendia e apagava no display do fone. Entre a quinta e a sexta chamada, Gisela fora atraída pela voz afobada do noivo, Alô Gi, é você? O que houve? Alô?, e desta feita fitava imóvel o celular, observando, com uma autêntica e despedaçada cara de choro, o nome do noivo na tela do pequeno telefone, seguido pela foto de ambos sorridentes, rosto contra rosto, que ela escolhera como descanso de tela.

    Suspirando de maneira doentia, como se se condenasse, através da respiração, e admitisse finalmente que os seus desejos de mulher jovem, geralmente tão selvagens e insaciáveis, eram mais fortes e intensos do que ela jamais previra, Gisela desabilita a chamada do noivo e, num gesto único, quase uma estouvada acrobacia, desliga o celular ao mesmo tempo em que retira o fone do gancho, entre a décima e a décima-primeira chamada. Ela ofegava como se houvesse transposto uma solitária maratona.

  - Alô?
  - Oi, Gi. Tudo bem? - a voz do outro lado era inacreditavelmente surreal. Profunda, como o de um ermitão num fundo de uma caverna. Por algum estranho motivo, Gisela assimilara sua voz com o de uma grande rocha que se pusesse à falar.
  - Tudo, e o senhor?
    Um sorriso retumbante fez-se ouvir do outro lado.
  - O que foi que eu te disse?
    Uma pausa da jovem insegura, nunca tão insegura quanto hoje.
  - Que não o tratasse como "senhor".
  - Exato. Pelo menos não enquanto estivermos sozinhos. Tudo bem?
  - Tudo bem - repetiu ela, imediatamente se auto-condenando pelas atitudes respeitosas e tolas de uma criança que conversa, obediente, com um adulto.
  - Eu cheguei à pensar que tivesse ido embora.
 - Não, eu estava colocando em dia umas pendências aqui. Desculpe tê-lo feito esperar, Rodrigo - à menção do nome, sua pele arrepiou-se, não saberia dizer se por prazer ou receio de estar fazendo um perfeito papel de idiota.
  - Não se desculpe Gi, por favor. Confesso que ficaria triste se você tivesse mudado de ideia quanto ao nosso, digamos, Happy Hour particular, e tivesse ido embora. Seriam tantos desejos e anseios desperdiçados, sonhados em vão! Mas, já que continua no escritório e atendeu o meu insistente telefonema... Ainda tá de pé o nosso esqueminha, certo?
  - Sim. Está sim - a jovem tentou sorrir, e conseguiu, ainda de que forma amarela e insossa.
  - Ok. Tem mais alguma coisa pra fazer aí ou já acabou?
  - Já acabei.
  - Certo. Gostaria de vir pra minha sala agora?
  - Sim, estarei aí em um minuto - afirmou, agora estranhamente mais segura. O outro lado de sua pessoa já começava á aflorar, como uma flor de madrugada - Só vou me aprontar um segundinho no toalete e já apareço por aí.
  - Vai se arrumar pra mim, né? - sorriu ele.
  - Com certeza, Rodrigo.
  - Então estou te esperando ansiosamente, Gi. Mal posso me conter, sabia? Venha logo.
  - Pois se contenha, ao menos por um minuto. Não vai se arrepender, eu garanto.

    Após mais algumas insinuações de ambas as partes, Gisela pousou o telefone no gancho. Só agora dera-se conta de que uma gota de suor, lenta e petulante, escorria-lhe da têmpora à bochecha direita. Fechou os olhos e suspirou - era o seu outro lado que chegava, singrando caminhos estreitos e escuros, sempre com um esgar esnobe no rosto.

    Dera-se conta, também, de uma unica coisa, mais pesada e apertada que a aliança prateada do seu dedo: a excitação que sentia. 

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