Quarta-Feira, tardinha
O fim do mundo era certo, ao menos para ela.
Explico-lhe, com um didatismo vacilante e uma perene paciência, alguns fatos lidos por mim semanas antes numa interessantíssima revista científica mensal e revisito a teoria tão rebatida, no mais científico dos ramos, de que o mundo testemunhará o seu derradeiro pôr-do-sol daqui á milhares de milênios, e que ela não precisava se preocupar em assistir, na privilegiada primeira fila das cadeiras cativas, algum eventual cataclismo imposto na provável expansão do sol ou na cabal extirpação da camada de ozônio - e apoiando-me na mais bíblica das explanações (apenas quando as minhas tão afundadas teorias atravessam-lhe os ouvidos sem a esperada resignação, veja bem), apelo dizendo-lhe que apenas Deus Todo-Poderoso, no alto de toda a sua onipotência e magnitude, guardava o segredo do fim de todo o sistema de coisas, para utilizar esse belo eufemismo muitas vezes exposto sobre os papeis-sedas do sagrado livro. Pois nada; nada no mundo a livrava da confirmação tamanha e dos sinais vários de que o mundo estava se aproximando de seu ultimo estertor.
Os tais sinais eram muitos e instantaneamente fabricados em porções cavalares, para as minhas desventuras. O calor excessivo, por exemplo: sinal do arriamento do mundo, augúrios que mais eram, para ela, mazeladas sustentações para o tal do aquecimento global - os cientistas, para ela, estavam, enfim, cem por cento corretos, algo louco. A recente chacina no seio de alguma periferia em qualquer cidade brasileira, alardeadas pelos âncoras dos telejornais vespertinos antes das obrigatórias noveletas: selvageria sem par do homem contra o homem, lobo à cata de lobo, o fim do mundo. Um prédio que subitamente desaba, uma montanha de escombros onde antes erguia-se imponente construção, dezenas de bravos bombeiros, flanqueados por seus fidelíssimos cães farejadores, a insopitável esperança dos familiares quanto á sobrevivência de algum ente querido: o mundo que desaba, que vacila, que irrompe em montanhas de dor e lágrimas, o fim do mundo. Parrícidios, prostituição, pedofilia, homens que rebolam: derradeiros terrores, abominações execráveis, o fim do mundo, é claro. Não esquecerei de seus gritos (contidos, porém firmes) quando, espocada em letras garrafais, apertada entre um artigo qualquer e o recente placar do último clássico futebolístico, a notícia do nascimento dum bebê chinês espantosamente acomodado no ápice de seus sete quilos e duzentas gramas (de parto normal, note bem) - "Taí, está vendo! É o fim do mundo!".
- Um bebê oriental que nasce de sete quilos num parto normal não é sinal de fim do mundo, minha querida, e sim de grande saúde do recém-nascido, misturados á uma provável e crônica obesidade durante sua adolescência e sustentados pelo consequente arrombamento dessa pobre mãe. Não vejo aí sinal algum do fim do mundo.
- Onde, santo Deus (ela não costumava proferir sagradas exclamações e não proferira nesse momento, mas deixe estar), você enxerga normalidade nessa bizarrice? Onde uma mulher sobreviveria à tamanha provação?
- Ah, então é pela mulher que, com a graça de Deus (não costumo proferir sagradas exclamações... etc), sobrevivera sem nenhuma sequela, que você acha que este mundo está perdido? Você me parece as beatas do Jorge Amado...
O amuo era certo. Confesso que gostava de ouvir coisas tão absurdas, do tipo, "o mundo, decerto, acabará em fogo, porque ele já acabou em água, com o dilúvio.", desinformação essa que a deixava com aquele brilho sereno e plácido nos olhos que eu tão bem conhecia. Num discurso longo e encalistrado, disse-lhe que o mundo, se era esse o real problema de suas noites mal dormidas, já acabou por diversas vezes: o supracitado dilúvio, a última era do gelo, a extinção dos dinossauros, as guerras mundiais, e que os profetas maias que se fudessem. Não, eu não deveria ofender os Maias, esses sábios grandiosos que profetizaram, com séculos de antecedência, a data fatídica (nada adiantando a minha necessária arenga da renovação dos ciclos Maias, etécetera etécetera). Simplesmente, eu não deveria desrespeitar as almas ancestrais daqueles que idealizaram o futebol muito antes do fecundamento que resultaria, pouco tempo depois, no nascimento do Rei Pelé. Juro que foram essas as exatas palavras proferidas pela minha cética esposa. Eu suspirava, era a única coisa que poderia eu fazer ante essa situação.
Lembrei-me de seus infundados medos enquanto lia o jornal durante o ócio macilento do meu serviço, e ri de maneira sincera ao evocar minha esposa, provavelmente a sonhar seus receios no seu ultimo sonho, ou com os olhos embaciados á perscrutar cada notícia sensacional das folhas matutinas. Li algo de Paulo Coelho no jornal em questão, e recordo que o mesmo ainda se mantém numa das cadeiras da ABL.
Sinal do fim dos tempos.
Textículo da amizade
Amigo triste: é preciso distraí-lo.
Amigo telefona: é preciso resignar-se.
Amigo apaixonado: é preciso aturá-lo.
Amigo fala de hospital: bem, vamos.
Textículo da amizade
Amigo triste: é preciso distraí-lo.
Amigo telefona: é preciso resignar-se.
Amigo apaixonado: é preciso aturá-lo.
Amigo fala de hospital: bem, vamos.


1 comentários:
é, só pode ser o fim dos tempos. :/
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